Animais

Galinha com Ossos, Carne e Órgãos Pretos. Porquê?

Existem 4 raças de galinha que têm as entranhas negras e todas possuem a mesma mutação genética. Um cientista explica porquê.quarta-feira, 25 de setembro de 2019

Por Jason Bittel
Este galo em Lorena, no nordeste de França, pertence a uma raça rara chamada “Ayam cemani”, que é negra por dentro e por fora.

A galinha Ayam Cemani pode ser a criatura mais pigmentada do mundo. Não só as suas penas, o bico, a crista, a língua e as patas têm um preto azulado impressionante, como os seus ossos também são negros.

A própria carne da galinha parece ter sido marinada em tinta de choco.

Curiosamente, a Cemani, encontrada na Indonésia, é apenas o exemplo mais extremo de algo que os cientistas chamam de hiperpigmentação dérmica. Existe outra raça, conhecida por sedosa (devido às penas macias que parecem cabelos), que também ostenta tecidos e pele hiperpigmentados, assim como as galinhas pretas H'Mong do Vietname e as Svarthöna, ou galinha preta sueca.

Os cientistas denominam esta condição de fibromelanose.

"Temos provas de que isto é uma reorganização complexa no genoma", diz Leif Andersson, geneticista na Universidade de Uppsala, na Suécia, que estuda a genética de animais domésticos.

Para além disso, Andersson diz que é possível rastrear esta mutação até uma única ave que pode ter vivido há centenas, ou até milhares, de anos atrás.

"A mutação subjacente à fibromelanose é muito peculiar, por isso temos a certeza de que só ocorreu uma vez", diz Andersson.

Quem quer carne preta?
Embora a internet esteja repleta de animais com melanismo – seja um leopardo negro, um serval, um flamingo, osgas ou cobras – as galinhas dos estudos de Andersson levam esta pigmentação a um nível completamente diferente.

Eis como funciona.

A maioria dos vertebrados possui um gene denominado endotelina-3, ou EDN3, que, entre outras coisas, controla a cor da pele. E quando uma galinha normal se está a desenvolver, algumas células, como as dos folículos da pele e das penas, expressam EDN3, desencadeando a migração de melanoblastos, ou células que criam cor.

Estas galinhas, da raça sedosa, também são pretas por dentro e por fora. Foram fotografadas no Zoológico de Fort Worth, no Texas.

Porém, nas galinhas hiperpigmentadas, praticamente todas as células do corpo expressam EDN3, criando até 10 vezes mais melanoblastos. Isto faz com que as suas entranhas e ossos pareçam ter sido mergulhados em alcatrão.

"É uma migração incorreta", diz Andersson. "Se expressarmos endotelina-3 em excesso, e se isso acontecer nos lugares errados, as células de pigmentação migram para o sítio errado."

Felizmente, em termos de saúde, a mutação não parece ter efeitos negativos nas aves.

Na realidade, acontece precisamente o oposto – a cor escura destas raças fez com que se tornassem mais valiosas aos olhos dos criadores e gastrófilos, que dizem que a carne e os ossos de tom exótico têm um paladar rico e único.

De besta a bestial
Embora os cientistas já saibam porque é que estas galinhas são “especiais”, a história das suas raças continua envolta em mistério.

Muitos consideram algumas palavras escritas por Marco Polo como a primeira referência feita às galinhas de ossos negros. Em 1298, enquanto viajava pela Ásia, o explorador escreveu sobre uma raça de galinhas que "têm pelos como os gatos, são pretas e depositam o melhor dos ovos". Apesar de ninguém o poder afirmar com exatidão, a verdade é que esta descrição encaixa perfeitamente na galinha sedosa.

Desde então, Andersson diz que a mutação se pode ter propagado pelo mundo inteiro graças aos proprietários de gado que valorizaram a coloração das aves por ser uma novidade. Existe até uma história sobre um marinheiro que trouxe uma galinha preta consigo, quando regressou de uma rota comercial no Leste Asiático – isto poderia explicar como é que a galinha preta sueca acabou na Europa.

"Parece-me óbvio que os humanos gostam de diversidade entre os animais domésticos", diz Andersson, que também investigou a origem genética das penas na galinha sedosa e atualmente estuda o processo de desenvolvimento das cristas nas galinhas.

E mesmo que as raças já cá estejam há vários séculos, os animais continuam a ser relativamente raros.

Por exemplo, das 4 raças, apenas a sedosa recebeu o seu próprio padrão de perfeição pela Associação Americana de Avicultura (APA, na sigla em inglês), o que significa que pode competir em espetáculos.

De acordo com John Monaco, presidente da APA, o processo de obtenção de um padrão pode demorar anos.

"As Cemani não existem há muito tempo e só agora é que pessoas estão realmente a começar a trabalhar com elas", diz Monaco. “Mas as sedosas estão por todo o lado. Existem muitas variedades, e já foram campeãs em muitos espetáculos.”

E claro, para Andersson, geneticamente falando, todas as galinhas pretas são vencedoras.

"É mais comum vermos pigmentações defeituosas – manchas brancas ou ausência de pigmentação – porque ativar os genes desta forma é mais difícil", diz.

O acaso pode ter dado origem a estas galinhas. Mas o que levou os humanos a criar e difundir galinhas pretas pelo mundo inteiro foi uma questão de escolha.

“Isso é o mais fascinante”, diz Andersson.
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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