Maior Anfíbio do Mundo Identificado Como Espécie Única

As salamandras-gigantes-da-china são 3 espécies separadas; e esta nova descoberta pode ajudar a salvar um animal que se encontra em perigo de extinção.segunda-feira, 23 de setembro de 2019

Qual é o maior anfíbio do mundo? Os cientistas acabaram de apresentar uma nova resposta para uma questão que, para algumas pessoas, já devia estar resolvida.

De um modo geral, já se sabia que os maiores anfíbios eram as salamandras-gigantes-da-china. Estes animais podem ter mais de 1 metro e meio de comprimento e pesar mais de 45 quilos. E até há poucas décadas ainda podiam ser facilmente encontradas por toda a China, desde o sul subtropical, passando pelas montanhas centro-norte e acabando na parte oriental do país.

Apesar de estas salamandras viverem numa região muito ampla, e em áreas separadas por montanhas com rios que as dividem, os investigadores consideram que esta é uma espécie única – Andrias davidianus.

Porém, as novas investigações feitas em espécimes de museus revelam que as salamandras-gigantes-da-china não são uma, mas pelo menos três espécies diferentes. E a espécie que provavelmente é a maior das três recebeu um novo nome: Andrias sligoi, ou salamandra-gigante-do-sul-da-china, de acordo com um estudo publicado no dia 16 de setembro na Ecology and Evolution.

"É incrível como demorámos tanto tempo a descobrir qual é o maior anfíbio do mundo", diz o autor principal do estudo, Samuel Turvey, cientista de conservação na Sociedade Zoológica de Londres.

Estas notícias chegam num momento urgente para os animais. A espécie Andrias davidianus está em perigo crítico – perigosamente perto de se extinguir na natureza, diz Turvey. As duas novas espécies estão provavelmente em pior estado, acrescenta. Identificar adequadamente as criaturas pode ajudar a melhorar os esforços de conservação.

Horas preocupantes
Os animais estão ameaçados pela perda de habitat, pela caça furtiva e, ainda mais importante, pelas inúmeras quintas de criação de animais. De facto, existem milhões de salamandras-gigantes-da-china nestas quintas, mas aparentam ser membros da espécie mais propagada, a Andrias davidianus.

Isto acontece, em parte, porque este tipo de criação teve origem na China central – onde encontramos esta espécie – e desde então espalhou-se por todo o país, sobretudo nas últimas décadas, quando a prática arrancou em força. Os animais são apreciados como iguarias, e a sua carne consegue obter preços elevados.

Antigamente, estas quintas libertavam muitos dos animais na natureza, numa tentativa equivocada de os ajudar. Esta estratégia pode ter feito mais mal do que bem; devido à variação local, só as espécies exclusivas de uma área em específico é que devem ser reintroduzidas nesse habitat, acrescenta Turvey.

Caso contrário, podemos assistir a uma disseminação de doenças mais elevada, para além de introduzir competição e hibridação entre os animais.

“Colocamos a espécie errada no sítio errado”, diz.

De 2013 a 2016, Turvey e outras pessoas procuraram salamandras-gigantes-da-china na natureza e só as encontraram em 4 locais. No entanto, parecia que tinham sido todas libertadas de quintas, porque a sua genética não coincidia com a da área.

"É incrivelmente preocupante e deprimente – ninguém percebeu que a situação era assim tão má", diz Turvey. Os resultados desta investigação foram publicados num artigo da Current Biology em maio de 2018.

Pelo Menos Cinco Novas espécies de Salamandras Gigantes Foram Identificadas
Investigadores descobriram que não há uma, mas pelo menos cinco espécies de salamandra-gigante-da-china e, possivelmente, podem chegar às oito. No entanto, estes anfíbios estão ameaçados pelos seres humanos. Na natureza, são caçados e vendidos como comida de luxo. Alguns investigadores acreditam que algumas destas espécies recém-identificadas já estão extintas. Especialistas dizem que as estratégias de conservação - começando pela educação - precisam de ser atualizadas para salvar este anfíbio.

Comparação de genes
Para fazer o estudo, os investigadores examinaram espécimes de museus de salamandras-gigantes, apanhadas há muitas décadas, antes das quintas de criação e do movimento generalizado de anfíbios por todo o país (provocado pelos humanos).

A análise da equipa revela que as salamandras começaram a divergir há 3.1 milhões de anos, quando o Planalto do Tibete se elevou, juntamente com as montanhas Nanling, no sul da China central. Isto separou geograficamente os animais em pelo menos 3 linhagens, todas espécies únicas e separadas: uma no rio Yangtze, no norte, outra no rio Pearl, no sudoeste, e a terceira em vários ribeiros da região sudeste.

Estes resultados derivam da geografia e genética únicas dos grupos, mas os cientistas não sabem exatamente quais são as diferenças anatómicas entre as espécies, devido às diferentes formas como os animais foram preservados. Algumas amostras estão preservadas em líquido, mas outras foram preservadas a seco e, ao longo dos anos, em alguns casos, formaram pedaços secos de "papel anfíbio", diz Turvey.

Muitas das amostras também pertencem a salamandras jovens, faltando-lhes algumas das características observadas em espécimes mais velhos. A pressão da caça furtiva também fez com que estes animais não crescessem muito na natureza, acrescenta. É impossível dizer neste momento como é que as salamandras adultas de cada espécie diferem uma da outra.

A equipa ainda não conseguiu descrever ou nomear a terceira espécie, porque só tem ADN de amostras de tecido para trabalhar, e não um espécime animal completo, diz Turvey.

Os investigadores esperam que este trabalho impulsione ações de conservação mais apropriadas no futuro. Idealmente, as salamandras das quintas seriam rastreadas e identificadas geneticamente, antes de serem potencialmente criadas e reintroduzidas na natureza.

“Estamos em perigo crítico de perder os maiores anfíbios do mundo,” diz Turvey.
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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