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O Que Aprendi a Documentar a Morte do Último Rinoceronte-Branco-do-Norte

O rinoceronte e as pessoas que tentaram salvar a sua espécie deixaram marcas indeléveis numa fotógrafa.segunda-feira, 23 de setembro de 2019

Por Ami Vitale
Fotografias Por Ami Vitale
Joseph Wachira, tratador na Ol Pejeta Conservancy, no Quénia, despede-se de Sudan, o último rinoceronte-branco-do-norte. Sudan morreu em 2018. Restam apenas duas fêmeas da sua subespécie.

Comecei a minha carreira a fazer a cobertura de conflitos. A partir dos 26 anos, dei por mim em lugares como o Kosovo, Angola, Gaza, Afeganistão e Caxemira. A minha razão para ir, dizia eu a mim própria, era documentar a brutalidade. Eu pensava que as histórias mais poderosas eram aquelas geradas pela violência e destruição. Embora seja importante trazer à luz o conflito humano, este foco em exclusivo transformou o meu mundo num espetáculo de terror.

Mas, aos poucos, depois de acompanhar conflito após conflito, percebi claramente que os jornalistas também têm a obrigação de iluminar as coisas que nos unem enquanto seres humanos. Se escolhermos procurar o que nos divide, será isso que encontraremos. Se escolhermos procurar o que nos une, também o encontraremos.

Aqueles anos todos em zonas de guerra levaram-me a uma epifania: as histórias sobre as pessoas e sobre a condição humana também são sobre a natureza. Se olharmos para trás o suficiente, para além de todos os conflitos humanos, encontramos a erosão do vínculo que existia entre os humanos e o mundo natural que os rodeia.

Estas verdades transformaram-se em pontos de referência pessoais quando conheci Sudan, um rinoceronte-branco-do-norte e, eventualmente, o último macho da sua espécie.

Vi Sudan pela primeira vez em 2009, no Zoo Dvůr Králové, na República Checa. Lembro-me do momento exato. Ele estava cercado de neve, no seu recinto de tijolos e ferro, enquanto aprendia a entrar num contentor – a caixa gigante que o levaria quase 6.500 km para sul, até ao Quénia. Mexia-se devagar, com cautela. Parou algum tempo para cheirar a neve. Era gentil, pesado, parecia sobrenatural. Eu sabia que estava na presença de um ser antigo, com milhões de anos em formação (os registos fósseis sugerem que a linhagem tem mais de 50 milhões de anos), e cuja espécie tinha percorrido grande parte do nosso mundo.

Sudan (à esquerda) socializa na Ol Pejeta Conservancy, no Quénia, com a sua neta, Fatu, uma das duas últimas fêmeas vivas de rinoceronte-branco-do-norte.

Naquele dia de inverno, Sudan era 1 dos 8 rinocerontes-brancos-do-norte ainda vivos no planeta. Há um século atrás, existiam centenas de milhares de rinocerontes em África. No início da década de 1980, a caça reduziu o seu número para cerca de 19.000. Os chifres de rinoceronte, tal como as nossas unhas, são feitos de queratina, não têm poderes curativos especiais. Mas são valorizados há muito tempo por pessoas de todo o mundo, pessoas que acreditam que são um antídoto para doenças, seja febre ou impotência.

Quando conheci Sudan, os restantes rinocerontes-brancos-do-norte estavam todos em jardins zoológicos, a salvo da caça furtiva, mas com resultados muito limitados na reprodução. Os conservacionistas traçaram um plano ousado para transportar 4 dos rinocerontes para o Quénia. Esperava-se que os rinocerontes ficassem estimulados pelo ar, pela água, pela comida e pelo espaço do seu habitat ancestral. Iriam reproduzir-se e as suas crias poderiam repovoar África.

Quando ouvi falar deste plano pela primeira vez, parecia uma coisa saída de uma história para crianças. Mas rapidamente percebi que estava perante um último e desesperado esforço de salvação de uma espécie. O Zoo Dvůr Králové, a Ol Pejeta Conservancy, o Serviço de Vida Selvagem do Quénia, a Fauna & Flora Internacional, a Back to Africa e a Lewa Wildlife Conservancy trabalharam no duro para dar vida a este plano. E numa noite fria de dezembro, os 4 rinocerontes abandonaram o Zoo Dvůr Králové, na República Checa, para irem para a Ol Pejeta Conservancy, no Quénia.

O Que Aprendi a Documentar a Morte do Último Rinoceronte-Branco-do-Norte

Como é que chegamos a um ponto em que precisamos destas medidas desesperadas? É surpreendente que a demanda pelos chifres de rinoceronte, baseada em pouco mais do que uma superstição, tenha abatido uma espécie. Mas é encorajador ver um grupo tão díspar de pessoas reunido na tentativa de salvar algo único e precioso – algo que, uma vez perdido, se perderá para sempre.

Conhecer Sudan na República Checa mudou a trajetória da minha vida. Hoje, o meu trabalho não se concentra apenas na condição humana. Em vez disso, conto histórias sobre a natureza e, enquanto o faço, falo sobre a nossa casa, o nosso futuro e a interdependência de todas as formas de vida.

Nove anos depois daquele transporte aéreo, recebi um telefonema para ir depressa  para o Quénia. Com 45 anos, Sudan estava idoso para a sua espécie. Teve uma vida longa, mas agora estava a morrer. Nos últimos anos de vida sentiu novamente as suas pastagens nativas, embora acompanhado por guardas armados que o protegiam dos caçadores furtivos. E encontrou o estrelato – foi carinhosamente apelidado de "solteiro mais cobiçado do mundo".

A morte de Sudan não foi inesperada, mas ecoou na vida de muitos. Quando cheguei, o rinoceronte estava rodeado pelas pessoas que o amavam e protegiam. Joseph Wachira, o homem retratado com Sudan, e um dos seus guardiões mais dedicados, fez-lhe mais uma massagem atrás da orelha. Sudan apoiou a sua pesada cabeça na de Wachira. Tirei uma fotografia de dois velhos amigos, juntos pela última vez.

Os momentos finais foram silenciosos – com a chuva a cair e a tristeza abafada dos  seus tratadores. Estes guardiões passam mais tempo a proteger os rinocerontes-brancos-do-norte do que com os seus próprios filhos. Observar uma criatura a morrer – a última do seu género – é algo que nunca mais quero voltar a testemunhar. Foi como assistir à minha própria morte.

Os rinocerontes-brancos-do-norte podem não conseguir sobreviver à ganância do homem, mas existe uma pequena réstia de esperança. Hoje, só restam duas fêmeas no mundo, mas existem planos para se tentar fazer fertilização in vitro.

Para mim, esta não é apenas uma história. Estamos a testemunhar a extinção neste momento, no nosso tempo de vida. A caça furtiva não está a abrandar. Se a atual trajetória de matança continuar, é perfeitamente possível que todas as espécies de rinocerontes sejam funcionalmente extintas durante as nossas vidas. A remoção de uma espécie fundamental tem um efeito enorme no ecossistema – e em todos nós. Estes gigantes fazem parte de um mundo complexo que foi criado ao longo de milhões de anos, e a sua sobrevivência está entrelaçada com a nossa. Sem rinocerontes, elefantes e outros animais selvagens, perdemos a imaginação, perdemos a sensação de magia, e perdemos possibilidades maravilhosas. Quando olharmos para nós como uma parte integrante da natureza, perceberemos que salvar a natureza é, na realidade, a nossa salvação.

Sudan ensinou-me isso.
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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