Animais

O Que Perdemos Com a Extinção Animal

Os animais estão a desaparecer a um ritmo centenas de vezes mais acentuado do que o normal, sobretudo devido à perda de habitat. A sua maior ameaça: humanos.terça-feira, 1 de outubro de 2019

Por Elizabeth Kolbert
Não são encontrados vestígios do tigre-do-sul-da-china, Panthera tigris amoyensis (ameaçado de extinção, possivelmente extinto na natureza), há mais de uma década. Os jardins zoológicos têm menos de 200 tigres desta espécie em programas de reprodução. Se um plano que a China tem para tentar devolver alguns destes animais à natureza falhar, podemos estar perante a quarta extinção de uma subespécie de tigre.

Grande parte dos animais que aqui mostramos fazem parte das mais de 28.000 espécies de animais e plantas que a União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN) afirma estarem em perigo de extinção. Mas, na realidade, este número é muito mais elevado. Em 1964, a UICN estabeleceu uma “lista vermelha” para as espécies ameaçadas e começou a compilar dados recolhidos pelo mundo inteiro. Esta lista tornou-se no banco de dados global mais proeminente sobre as ameaças sofridas pela vida selvagem – e uma ferramenta essencial para as políticas de conservação. Porém, das mais de 1.500 milhões de espécies de animais, e mais de 300.000 espécies de plantas, a UICN só conseguiu avaliar cerca de 106.000 espécies – já descritas e nomeadas por cientistas. Esta estimativa, acreditam os cientistas, não representa sequer 25% da realidade. O relatório publicado recentemente na Plataforma Intergovernamental sobre Biodiversidade e Serviços Ecossistémicos, sobre a crise na biodiversidade, estimava que esta extinção ameaça perto de 1 milhão de espécies animais e vegetais, conhecidas e desconhecidas. Até 2020, a UICN espera aumentar o número de avaliações de espécies para as 160.000. E a seguir, na agenda da convenção internacional: uma "lista verde" para os sucessos de conservação. Será muito mais curta do que a vermelha.

A tartaruga Chelonoidis denticulata (vulnerável), da América do Sul e Caraíbas, é caçada pela sua carne, considerada uma iguaria. Também é capturada e comercializada como animal de estimação.

MAIOR AMEAÇA: HUMANOS
A perda de habitat, estimulada principalmente pela expansão humana – através do desenvolvimento de terrenos para habitação, agricultura e comércio – é a maior ameaça enfrentada pela maioria dos animais, seguida da caça e pesca. Os habitats, mesmo que não se percam na sua totalidade, podem sofrer alterações às quais os animais não se conseguem adaptar. As vedações fragmentam pastagens e a indústria madeireira dizima áreas de floresta, destruindo os corredores migratórios; os rios estão a ficar tóxicos com a poluição; os pesticidas matam com um alcance vasto e de forma indiscriminada. E para cada uma destas ameaças locais, é preciso adicionar, cada vez mais, as ameaças globais: o comércio de vida selvagem, que propaga doenças e espécies invasoras de um lugar para o outro, e as alterações climáticas, que eventualmente afetarão todas as espécies da Terra – começando pelos animais que vivem em montanhas frias ou que dependem do gelo polar.  Todas estas ameaças estão ligadas, direta ou indiretamente, aos humanos e ao aumento da nossa presença. Grande parte das espécies enfrenta diversas ameaças. Algumas conseguem adaptar-se a nós; outras desaparecem.

Esquerda: Peixe-napoleão, Cheilinus undulatus (em perigo). Direita: Raposa-do-ártico, Vulpes lagopus (pouco preocupante).
Flamingo-pequeno, Phoeniconaias minor (quase ameaçado)

Se vivêssemos em tempos normais – no sentido de tempo a longo prazo e sem o ritmo de uma época geológica – seria quase impossível assistirmos ao desaparecimento de uma espécie. Tal evento ocorreria muito raramente para alguém o conseguir testemunhar no seu tempo de vida. No caso dos mamíferos, o grupo de animais mais bem estudado, o registo fóssil indica que a taxa de extinção "de fundo", a que prevalecia antes de os humanos entrarem em cena, era tão baixa que, ao longo de um milénio, só desaparecia uma única espécie.

Mas, como é óbvio, não vivemos em tempos normais. Para onde quer que olhemos, as espécies estão a diminuir. Só na última década, extinguiram-se duas espécies de mamíferos: um morcego conhecido por pipistrelle-da-ilha-do-natal, e um roedor, o Melomys rubicola.

A UICN tem mais de 200 espécies e subespécies de mamíferos listadas em perigo crítico. Em alguns casos, como o rinoceronte-de-sumatra, ou a vaquita – uma toninha nativa do Golfo da Califórnia – restam menos de 100 indivíduos. E noutros casos, como o baiji (também conhecido por golfinho do rio Yangtze), a espécie, embora ainda não esteja oficialmente declarada extinta, provavelmente desapareceu.

Um rouxinol Vermivora bachmanii, (em perigo crítico, possivelmente extinto), uma das aves canoras mais pequenas nativas dos EUA, pode já estar extinta devido à perda severa de habitat provocada pelo desenvolvimento no sudeste dos EUA. O seu avistamento foi relatado pela última vez em 1988.

Infelizmente, o que acontece com os mamíferos também acontece com quase todos os outros grupos de animais: répteis, anfíbios, peixes e até insetos. Hoje, as taxas de extinção acontecem a um ritmo que é centenas – ou talvez milhares – de vezes mais acentuado do que a taxa de fundo. Estas taxas são tão elevadas que os cientistas afirmam que estamos à beira de uma extinção em massa.

A última extinção em massa, que aconteceu nos dinossauros há cerca de 66 milhões de anos, deveu-se ao impacto de um asteroide. Hoje, a extinção é provocada por fatores mais difusos: exploração madeireira, caça furtiva, propagação de patógenos, alterações climáticas, pesca em excesso e acidificação dos oceanos.

Se rastreamos as causas destes eventos até ao seu início, o culpado é sempre o mesmo. “Os humanos são a primeira espécie na história da vida a tornarem-se numa força geofísica”, diz o grande naturalista Edward O. Wilson. Muitos cientistas argumentam que entrámos numa uma nova era geológica – o Antropoceno, ou idade do homem. Por outras palavras, desta vez, o asteroide somos nós.

Macaco-Barrigudo-Cinzento, Lagothrix Cana (em perigo) Esta cria subnutrida de macaco-barrigudo do Brasil foi criada como animal de estimação. A mãe foi provavelmente morta quando a cria foi capturada. As autoridades ambientais conseguiram resgatar e cuidar deste animal, mas vai precisar de viver em cativeiro o resto da vida.

O que se perde quando um animal se extingue?

Pensar numa espécie, sejam macacos ou formigas, é como responder a uma questão: como viver no planeta Terra? O genoma de uma espécie é como se fosse um manual de instruções; quando a espécie desaparece, o manual desaparece. Neste sentido, estamos a pilhar uma biblioteca – a biblioteca da vida. Em vez de Antropoceno, Wilson apelidou a era em que estamos a entrar de Eremozóico – a era da solidão.

Este artigo é adaptado do livro “Vanishing”, de Joel Sartore, publicado pela National Geographic.

Joel Sartore fotografa animais para o seu projeto Photo Ark há 13 anos. E cada vez mais, os animais que são fotografados em jardins zoológicos ou em instalações especiais de cativeiro estão entre os últimos membros que restam da sua espécie. Em alguns casos, são os únicos membros.

Toughie, um sapo-arborícola da região centro do Panamá, vivia no Jardim Botânico de Atlanta. Este sapo ficou conhecido como o último do seu género quando uma doença fúngica varreu o seu habitat nativo – e o programa de reprodução em cativeiro falhou. Toughie morreu em 2016, e é provável que a sua espécie em específico esteja extinta.

Romeu, um sapo aquático que vive no museu de história natural de Cochabamba, na Bolívia, também era considerado o único sobrevivente da sua espécie. Os cientistas criaram um perfil de namoro para o sapo online. Era uma página de doações e os 25.000 dólares angariados através desta iniciativa ajudaram a financiar expedições ao leste dos Andes, onde a espécie já tinha sido abundante.

Surpreendentemente, a investigação revelou mais 5 sapos desta espécie, 2 machos e 3 fêmeas. Foram todos levados para Cochabamba; a única fêmea madura o suficiente para procriar com Romeu ficou com o nome de Julieta. Mas saber se Julieta vai ser uma companheira digna e se perpetuará a espécie, ninguém sabe.

Os sapos eram bonitos? Talvez não de forma tão apelativa como a arara-azul-de-spix (que se acredita estar extinta na natureza) ou o langur-de-ouro (que está em perigo). Mas os sapos, com os seus expressivos olhos castanhos e membros fininhos, tinham um encanto próprio.

Um caracol Partula nodosa (extinto na natureza) no Zoológico de Saint Louis, nos EUA.

Joel Sartore trata todas as criaturas – grandes ou pequenas, bonitas ou estranhas – com reverência. As suas fotografias captam algo singular e, podemos dizer, a alma de todos os seres vivos. Uma das minhas imagens favoritas de Joel é a do caracol Partula nodosa, que deixa um rasto viscoso. Antigamente, existiam dezenas de espécies de Partula no Pacífico Sul, e ocupavam ilhas diferentes, com diferentes nichos ecológicos. E, tal como os fringilídeos de Darwin, também são muito adorados pelos biólogos evolucionários – são ilustrações vivas e viscosas do poder da seleção natural. A introdução de caracóis carnívoros da Flórida na região deixou quase um terço das espécies de Partula à beira da extinção; muitas só sobrevivem graças aos programas de reprodução em cativeiro.

Atualmente, como a extinção ocorre com tanta frequência, é possível desligarmo-nos dessa realidade. Esta dessensibilização é o que torna as imagens de Sartore tão cruciais: mostram-nos o quão notável cada espécie é –  e o que estamos a perder.

Vivemos numa era extraordinária. E quiçá, se reconhecermos isso, podemos começar a imaginar a criação de uma maneira diferente – onde se preserva, tanto quanto possível, a diversidade maravilhosa da vida.

AMEAÇA: DOENÇA
Na década de 1980, uma doença fúngica chamada quitridiomicose, provavelmente disseminada pelo contacto direto e pela água infectada, devastou populações globais de anfíbios. Mais de 500 espécies foram afetadas; 90 podem estar extintas. O fungo interrompe a transmissão de eletrólitos através da pele de um sapo ou rã, parando eventualmente o seu coração.

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AMEAÇA: ESPÉCIES INVASORAS

Rhynochetos jubatus (em perigo) Tal como acontece com muitas espécies insulares, o “cagu”, que quase que não voa, nativo do território francês no Pacífico, na Nova Caledónia, foi seriamente afetado pela chegada, no início do século XVIII, dos colonos europeus e dos seus animais. O “cagu”, que tem aproximadamente o tamanho de uma galinha, continua a ser vítima de suínos, gatos e cães não nativos. Os pássaros nidificam no chão e os ratos comem os ovos. As estimativas recentes para a sua população sugerem que existem menos de 1.000. Apesar disso, os cientistas mantêm-se esperançosos em relação ao futuro: as décadas de criação em cativeiro conseguiram reintroduzir as aves na natureza, e o controlo de predadores permitiu a recuperação de algumas populações.

AMEAÇA: FRAGMENTAÇÃO

Gazela dama, Nanger dama mhorr (em perigo crítico) Esta subespécie de gazela dama já viveu numa área vasta do Saara ocidental. Agora, no Mali, Chade e Níger existem menos de 300 gazelas. O seu alcance foi reduzido pelas pastagens de gado, e também estão em perigo devido à caça. A reintrodução de gazelas dama criadas em cativeiro na natureza tem alcançado resultados medianos.

AMEAÇA: PERDA DE HABITAT
As borboletas conseguem voar distâncias enormes e alimentam-se de diversos tipos de flores, mas as suas lagartas só comem as plantas onde nascem, ou das quais estão perto. Com o desenvolvimento de terrenos, estas plantas desaparecem, e as borboletas também. As borboletas que aparecem nestas imagens não estão listadas pela UICN – que avaliou apenas 8.100 espécies de insetos – mas outras autoridades afirmam que estão em perigo.

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AMEAÇA: CAÇA FURTIVA

Elefante-asiático, Elephas maximus (em perigo) No início do século XX, a Ásia era o lar de provavelmente 100.000 elefantes. Desde então, a sua população pode ter descido para metade. Os elefantes são mortos não só pelas suas presas de marfim, mas também pela sua carne e peles – e às vezes em atos de vingança pelos danos provocados em plantações.

AMEAÇA: DESFLORESTAÇÃO
Para os lémures que habitam nas árvores, não há vida sem floresta – ou sem Madagáscar, o seu único lar. No entanto, a nação insular perdeu 80% das suas árvores devido ao desenvolvimento, à produção de carvão vegetal e à agricultura de corte e queima. Os lémures vivem espremidos em áreas protegidas muito limitadas; 38 espécies estão em perigo crítico. Para incentivar as pessoas a reduzir a utilização de madeira – e proteger o habitat florestal – estão a ser feitos esforços de introdução de fogões de consumo eficiente nos lares da região.

Propithecus diadema (em perigo crítico) As fêmeas desta espécie só são férteis um dia por ano, limitando a capacidade de reconstrução das populações fragmentadas.
Esquerda: Aie-aie, Daubentonia madagascariensis (em perigo) Apesar de raro, este lémure – o maior primata noturno do mundo, com perto de 3 quilos – ainda se encontra por toda a ilha. Mas a tradição local sustenta que os aie-aie dão azar e muitas vezes são mortos assim que são avistados. Direita: Lémure-castanho, Eulemur fulvus (perto de estar em perigo) Desde 1995, as populações de lémure-castanho diminuíram em 25%, e tudo indica que, com a desflorestação e a caça, esse número vai continuar a aumentar.

O livro mais recente de Elizabeth Kolbert, The Sixth Extinction, venceu o prémio Pulitzer. O fotógrafo Joel Sartore tem sido chamado de Noé dos tempos modernos, por ter construído a Photo Ark, a maior coleção do mundo de fotografias de estúdio de animais.
 

Photo Ark é um projeto conjunto da National Geographic e Joel Sartore. Descubra mais em natgeophotoark.org.


Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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