Para Salvar Aves, Devemos Matar Gatos?

Os nossos amigos felinos matam milhares de milhões de aves todos os anos. Um fã de ambos os animais acredita que existem soluções mais dignas.quarta-feira, 25 de setembro de 2019

O meu gato, Bernstein, gosta de observar aves tanto quanto eu. Bernstein tem 3 anos, é um gato tranquilo, tem o pelo curto e é malhado. As suas outras paixões incluem ponteiros a laser, elásticos para o cabelo e fio dental. Eu sou uma pessoa de 33 anos, tenho o cabelo curto, sou louro e, sem querer, sempre gostei de gatos. Bernstein e eu costumamos passar tempo juntos na sala, apreciando a ordem natural dos beija-flores e chapins pela nossa janela.

Quando foi resgatado do celeiro onde tinha sido abandonado, Bernstein era um gatinho minúsculo, incapaz de comer ou abrir os olhos. (O seu companheiro de ninhada, Woodward, ainda está com um jornalista amigo que os resgatou.) Bernstein é um gato com sorte – e eu interrogo-me se a sua personalidade genial se pode dever, pelo menos em parte, a uma gratidão eterna por se ter esquivado a uma vida de fome, aos abrigos e aos outros destinos da vida selvagem.

Mas, infelizmente, na primavera passada percebi que não existem cuidados que consigam suprimir os seus instintos de felino. Durante uma tarde quente, deixei o Bernstein sair para o quintal, para apanhar um pouco de sol. Passados alguns minutos, regressou orgulhosamente, trazia uma bola de penas entre as garras: era um tordo de Swainson, uma ave com um padrão maravilhoso. Este tordo tinha acabado de voar milhares de quilómetros, desde a América Central até ao Oregon, para cantar e encontrar um parceiro no meu quintal. Agora, estava sem sombra de vida

Eu não podia culpar o Bernstein. Ele estava apenas a colocar os seus instintos e capacidades de ninja em prática. Ainda assim, com o tordo a arrefecer nas minhas mãos, o meu coração despedaçou-se.

“Por ano, nos Estados Unidos, os gatos domésticos matam entre 1 a 4 mil milhões de aves, 6 a 22 mil milhões de pequenos mamíferos e centenas de milhões de répteis e anfíbios.”

Há vários anos, uma equipa de investigadores do Instituto Smithsonian e do Serviço de Pesca e Vida Selvagem dos EUA combinou os dados de dezenas de estudos para fazer uma estimativa, o mais rigorosamente possível, da quantidade de aves mortas anualmente por gatos nos Estados Unidos. Os resultados foram surpreendentes. Depois de quantificarem cuidadosamente as populações de gatos e as suas taxas predatórias (e as incógnitas de ambas), os cientistas calcularam que os gatos domésticos atacam entre 1 a 4 mil milhões de aves por ano, para além de 6.3 a 22.3 mil milhões de pequenos mamíferos e centenas de milhões de répteis e anfíbios.

Cerca de dois terços das mortes de aves foram atribuídas a gatos selvagens que vivem na natureza. Estima-se que a população total de aves dos EUA oscile entre os 10 e os 20 mil milhões, pelo que o número de mortes atribuído aos gatos selvagens pode exceder toda a mortalidade provocada por acidentes, atropelamentos, pesticidas, poluição e todas as outras causas não naturais combinadas, exceto a perda de habitat e possivelmente as alterações climáticas.

Algumas pessoas não acreditaram nas estimativas e atacaram incansavelmente os cientistas dizendo que eram "anti-gato". Outras sentiram que fazia sentido, e que os seus pontos de vista encaixavam nas novas evidências. A comunicação social conseguiu meter os donos de gatos contra os donos de pássaros, os defensores dos direitos dos animais contra os ecologistas, e os donos de animais contra os académicos. Um dos investigadores, que escreveu o livro Cat Wars – livro que não acalmou propriamente as coisas – diz ter recebido ameaças de morte.

Apesar de todo este alarido, não se perdeu de vista uma das descobertas mais importantes: quando os gatos são introduzidos como predadores – ou seja, quando são introduzidos num ecossistema onde vão atacar animais nativos, mas onde não têm predadores – transformam-se num caso sério de mortalidade para as aves e outras formas nativas de vida selvagem.

Os estudos de acompanhamento confirmaram a escala desta ameaça. Por exemplo, a investigação mais abrangente do Canadá, país onde existem menos gatos do que nos Estados Unidos, estimou que anualmente são capturadas entre 100 a 350 milhões de aves por gatos.

Todas as pessoas sabem que os gatos são predadores mas, até há pouco tempo, o impacto dos gatos na vida selvagem era pouco reconhecido. Mesmo com os dados brutos sobre as taxas de mortalidade infligidas pelos felinos, muitas pessoas, incluindo a esmagadora maioria das pessoas que tem gatos, ainda duvidam de que os felinos afetam adversamente as populações de aves selvagens. Talvez isto reflita a nossa dificuldade inerente em calcular os efeitos mais amplos e incrementais de algo como, por exemplo, as alterações climáticas.

Ou se calhar devíamos abrandar todos um pouco. Nenhum dos estudos vinculou definitivamente as atividades predatórias dos gatos às tendências populacionais de aves no continente (embora nas ilhas a história seja diferente). É difícil isolar um fator que justifique o declínio generalizado de tantas aves, porque existem muitas outras variáveis em ação.

"O estatuto das aves mundiais continua a deteriorar-se, e algumas das aves mais comuns estão a desaparecer", diz um relatório da BirdLife International. O relatório cita a agricultura e a exploração madeireira como as duas principais fontes de ameaça para as espécies em perigo, remetendo os predadores para um distante terceiro lugar. Em termos de destruir o planeta, os humanos são claramente os piores criminosos. E culpar os gatos só serve para descartar a nossa responsabilidade para cima de um animal que não tem noção do conceito “salvar o mundo”.

Na sua generalidade, as pessoas concordam que a população de gatos selvagens é demasiado grande. Mas este acordo divide-se, em parte, porque de momento não existem boas soluções. Para além das aves, os gatos selvagens também representam todo o tipo de dilemas intratáveis relacionados com a saúde, segurança e todos os outros dilemas filosóficos que sobrecarregam os nossos sistemas atuais. Independentemente da forma que cada um acha que os gatos devem ser tratados, o mundo tem demasiados gatos para gerir.

Algumas pessoas já estão a tentar solucionar parte do problema. Os defensores de gatos adotaram de forma abrangente os programas prender-castrar-devolver, que esterilizam e devolvem gatos selvagens à natureza. Os grupos de conservação de aves opõem-se de forma veemente a esta prática, e o grupo de direitos dos animais PETA opõe-se do ponto de vista moral, mas estas organizações oferecem poucas alternativas viáveis – para além de mantermos os nossos gatos dentro de casa (uma excelente ideia). Entretanto, nos EUA, os abrigos para animais sacrificam mais de 1 milhão de gatos todos os anos, uma solução indesejada que não resolve o problema de fundo.

Eu não sei qual é a melhor resposta, mas tenho uma sugestão. Quando levei o Bernstein para ser castrado pelo veterinário, queria que ele também ficasse com um microchip, não como um complemento voluntário, mas como prática padrão. Um chip do tamanho de um grão de arroz é mais fácil de administrar do que um exame ao sangue, mas parece que os microchips ainda não têm muita presença no mundo dos gatos domésticos. Se todos os gatos estivessem identificados, teríamos menos gatos à solta: os animais perdidos podiam ser facilmente devolvidos aos donos, e os animais abandonados podiam ser atribuídos às pessoas que os abandonaram. Eu não tinha problemas absolutamente nenhuns em pagar uma taxa extra por isso, especialmente se parte dessa contribuição fosse destinada à construção de um sistema de acolhimento, ou de outros programas focados na gestão de populações de gatos selvagens com os meios adequados. Nos Estados Unidos, uma taxa única, para cada gato de estimação, mesmo que ínfima – seria sempre insignificante quando equacionamos o custo de alimentar um gato durante a sua vida inteira – poderia gerar milhares de milhões de dólares. Tenho a noção de que não é uma solução perfeita, ou completa, e era preciso resolver uma miríade de detalhes. Mas regulamentar os gatos seria um bom começo para mitigar o que acontece agora com os nossos felinos, onde vale tudo.

Nenhuma pessoa que goste de animais quer deixar este tipo de legado. Temos de fazer o melhor possível para cuidar do nosso planeta, porque os responsáveis somos nós. O Bernstein está muito ocupado a observar pássaros – em segurança, pela janela da sala.
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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