Peixes Surreais Preservados Contam Uma História Urgente de Extinção

Um estranho “bunker” de vida aquática preservada demonstra a forma como a humanidade tem condenado algumas espécies. quinta-feira, 26 de setembro de 2019

Por Richard Conniff
Fotografias Por Craig Cutler

Esta coleção de história natural é o sonho de qualquer realizador de filmes de terror. Para a encontrarmos, só precisamos de conduzir 16 km a sudeste de Nova Orleães, até um pedaço de terra com pântanos e floresta, numa curva do rio Mississippi, por um caminho de terra batida chamado Wild Boar Road. Nestes bosques contorcidos encontramos jacarés e cobras aquáticas. E também encontramos o bunker de munições A3 – as laterais do bunker estão fortemente protegidas devido ao perigo de explosão, e a sua doca de carga está rachada e um pouco inclinada devido aos efeitos do tempo.

Nesta região, existem 26 bunkers amplamente distribuídos por uma propriedade com 161 hectares, muitos estão abandonados. Durante a Segunda Guerra Mundial, os navios da marinha norte-americana paravam nesta região para recolher ogivas de artilharia, antes de rumarem ao oceano. Mais tarde, a CIA treinou guerrilheiros cubanos nesta propriedade para a desastrosa invasão da Baía dos Porcos em 1961.

A Universidade de Tulane é agora a proprietária do bunker, e os seus visitantes costumam ser biólogos, atraídos pelos quase 8 milhões de peixes mortos que estão conservados nos bunkers A3 e A15 (outro bunker nas proximidades que mantém a coleção de peixes da Universidade Louisiana Monroe).

No interior do bunker, os peixes estão embebidos em álcool, em frascos hermeticamente selados de tamanhos variados, alinhados em prateleiras com 3 metros de altura e 11 metros de comprimento... fileira após fileira após fileira. Alguns dos espécimes são muito estranhos – mais de 20 peixes-espátula amontoam-se num jarro de 20 litros, todos virados para cima, como se estivessem a participar numa reunião de oração extraterrestre. Porém, das 22 fileiras da coleção principal, 9 exibem a espécie Cyprinidae, vairões e peixes muito pequenos. A estética orientadora do lugar é modesta.

Esquerda: A coleção tem maioritariamente peixes de água doce da região. As espécies de outras fontes incluem este tamboril (Lophiodes miacanthus), capturado nas águas profundas do Havai. Direita: Moxostoma lacerum, uma espécie que agora está extinta. Os cientistas dizem que este peixe morreu de fome devido à exploração madeireira e à agricultura da região sudeste que cobriram de lodo as suas áreas de alimentação.
Fotografia de CRAIG CUTLER

É a maior coleção de peixes do mundo, um título que vem acompanhado de um asterisco.

"Na realidade, é a maior coleção pós-larval do mundo", diz Justin Mann, de 38 anos e gerente da coleção, que passa a maior parte do tempo a lutar contra o oídio que se acumula nas paredes internas do bunker. É a maior coleção em número de espécimes, acrescenta Justin, não de espécies. De facto, mais de 1 milhão de espécimes pertencem a uma única espécie, a Cyprinella venusta – peixes muito pequenos. A coleção inclui exemplares de lugares distantes como a Indonésia. Mas a maioria dos peixes que aqui encontramos está em casa, são da região sudeste dos Estados Unidos, desde a costa do Golfo do Texas até à Carolina do Norte.

A coleção Tulane tinha apenas 2 peixes quando um jovem biólogo ambicioso, chamado Royal D. Suttkus, aqui chegou em 1950. Suttkus decidiu alterar esta situação, com o princípio de que não podemos compreender o mundo aquático a não ser que o consigamos estudar, e é pouco provável que o consigamos proteger a não ser que o consigamos compreender. Suttkus foi um biólogo de campo implacável, nos 50 anos que se seguiram, percorreu as águas da região com água até ao pescoço, enquanto puxava a ponta de uma rede de cerco com 3 metros de comprimento – tinha um estudante de pós-graduação do outro lado da rede que o tentava acompanhar.

Muitos dos biólogos de peixes costumam andar de um lado para outro, a recolher um pouco aqui, um pouco ali, sempre há procura de algo novo e interessante. Mas Suttkus, que morreu em 2009, recolhia normalmente peixes nos mesmos locais, nos mesmos rios, ano após ano, durante décadas, fazendo frequentemente as obrigatórias investigações de impacto ambiental para as fábricas de papel e para outros poluidores. Para estes biólogos, a prática habitual é definir as capturas no fim da desova, escolher alguns peixes que vale a pena preservar e libertar os restantes. Porém, para Suttkus, tudo o que apanhava na rede acabava num frasco.

Os outros biólogos olhavam para Suttkus de lado. Fazer recolhas em excesso, no mesmo local, uma vez por ano, provavelmente não afetava a população, mas parecia uma coisa má. Um dos biólogos chegou a escrever uma música onde dizia que Suttkus era uma “Máquina Colecionadora”. Uma parte da letra parece digna de um filme de terror:

É melhor apanhares o teu cão e todos os peixes do aquário

Esconde a tua iguana de estimação e a catatua no armário

E mantém as tuas crianças debaixo de olho, não as deixes afastar por arrasto

Porque a Máquina Colecionadora está à solta, e vai mete-las num frasco.

Contudo, estes métodos sistemáticos (de recolher tudo) revelaram-se a força duradoura da Coleção de Peixes Royal D. Suttkus.

Estes peixes são "uma janela para o passado", sem as distorções que costumam aparecer nas prateleiras dos museus mais seletivos, diz Bernie Kuhajda, biólogo de conservação aquática no Aquário do Tennessee, em Chattanooga. A maioria dos investigadores de peixes, “se forem apanhar apenas 10 peixes, apanham os maiores”, diz Kuhajda, “para poderem contar as escamas e os raios espinhosos nas barbatanas – as características que lhes permitem identificar as espécies corretamente”. Com a recolha de Suttkus, que incluía tudo, sabemos qual era a estrutura etária naquele tempo e local, pois inclui todas as faixas etárias de uma população saudável, “algo que é útil”.

Útil como? Esta é uma questão que os administradores da universidade costumam colocar para encontrarem formas mais fascinantes de conseguir financiamento. A Universidade Louisiana Monroe tentou livrar-se recentemente da sua coleção de peixes, avisando com 2 dias de antecedência, porque os administradores estavam ansiosos para construir novas instalações desportivas na universidade. Mas um consórcio de instituições, incluindo Tulane, prestaram ajuda – foram adicionadas mais 11 fileiras de espécimes a um dos bunkers de Suttkus (com distribuição final pendente).

A coleção é útil porque oferece uma visão para um passado particularmente interessante. A recolha de Suttkus aconteceu numa altura em que as barragens para energia hidroelétrica e navegação ainda estavam a ser construídas nos rios. A poluição era maioritariamente desregulada. “Depois de uma fábrica de produtos químicos ter sido inaugurada no norte do Alabama, lembro-me de tirar peixes-sol do rio que tinham sangue a jorrar das guelras", diz John Caruso, estudante de pós-graduação de Suttkus na década de 1970.

Agora, os biólogos que estudam o desenvolvimento desenfreado do século XX viraram as suas atenções para a coleção de Suttkus. A coleção pode ser acedida virtualmente ou pessoalmente. A Fundação Nacional de Ciência dos EUA ajudou a fazer desta coleção um dos primeiros museus de história natural a colocar os dados e a localização de cada amostra online.

Um destes estudos, chefiado por investigadores do Serviço Geológico dos Estados Unidos, examinou o rio Alabama, onde as visitas regulares de Suttkus tinham registado uma queda abrupta no número de espécies, com uma diminuição a rondar os 65%, entre 1960 e o fim do século XX. Durante este período, as barragens transformaram o antigo fluxo do rio num sistema de 16 reservatórios. O escoamento agrícola, a urbanização, as águas residuais das estações de tratamento e as minas de superfície também provocaram estragos.

Entre as vitimas estão o esturjão-do-alabama, que viu as suas antigas rotas migratórias bloqueadas pelas barragens, e o esturjão-do-golfo, que quase desapareceu dos rios.

As espécies Alosa alabamae, Noturus munitus e Crystallaria asprella também desapareceram, e peixes mais pequenos, como o Macrhybopsis boschungi e outros vairões fluviais já não aparecem nos locais onde geralmente Suttkus os encontrava. Em 2005, 10 das espécies de peixes do rio foram listadas pelo governo federal como ameaçadas ou em perigo de extinção, com os especialistas a considerarem pelo menos mais 28 espécies vulneráveis ou em piores condições. Sem uma ação corretiva, o estudo alerta que "as extinções de espécies de peixes são inevitáveis".

Parece que afinal a história de terror não é a coleção de Suttkus, mas sim o que revela sobre a destruição humana de todo o planeta.


Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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