Séculos de Criação Moldaram os Cérebros dos Cães

De acordo com um estudo que analisou 33 raças, o papel para o qual cada cão foi criado – como recolher pássaros na caça, por exemplo – tem reflexos na sua estrutura cerebral.terça-feira, 10 de setembro de 2019

Os humanos influenciaram a evolução canina de várias maneiras, incluindo a forma como os seus cérebros são estruturados.
Os humanos influenciaram a evolução canina de várias maneiras, incluindo a forma como os seus cérebros são estruturados.
fotografia de Robert Clark, Nat Geo Image Collection

Existem centenas de raças de cães em todo o mundo, desde o pequeno Chihuahua ao enorme São Bernardo – tudo graças aos séculos de criação seletiva feita pelos humanos. Com uma variedade tão grande de tamanhos e temperamentos de cães, não é surpreendente que, no processo, tenhamos remodelado os seus corpos e cérebros.

Um novo estudo, feito com imagens de ressonância magnética em 33 raças, descobriu que a forma como um cão foi criado se reflete na sua estrutura cerebral.

Por exemplo, os cães que foram criados para serem pequenos – como o Lhasa apso – têm cabeças arredondadas e cérebros igualmente arredondados, que ocupam a maior parte do crânio. Uma raça maior, como o Golden retriever, tem uma cabeça longa e estreita e, consequentemente, um cérebro mais alongado que não preenche todo o espaço do crânio.

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"Para mim, o mais fascinante foi simplesmente poder analisar as imagens", diz a autora do estudo, Erin E. Hecht, neurocientista evolucionista na Universidade de Harvard. "Na ciência, quando obtemos resultados que não nos obrigam a calcular estatísticas sofisticadas para poder afirmar que algo está a acontecer, é realmente muito bom".

Esta observação inédita sobre a mente canina oferece uma compreensão mais aprofundada sobre a forma como as raças são concebidas. E ajuda os potenciais donos de cães a escolherem a raça correta para a sua casa, acrescenta Hecht, cujo estudo foi publicado na revista Neurosci. (Veja a nossa galeria com fotografias adoráveis de cães.)

Cérebros caninos
Para este estudo, Hecht e os seus colegas recrutaram 62 cães de lares americanos, incluindo raças como Beagle, Yorkshire Terrier, Dobermann, Boxer e muito mais.

Depois de observarem as diferenças no tamanho e forma do cérebro, a equipa analisou mais aprofundadamente as diferenças no interior do cérebro, estudando a forma como certas regiões variavam entre raças com determinadas características comportamentais.

O Buldogue, por exemplo, foi originalmente criado para lutar contra touros em cativeiro, mas mais tarde foi criado para ser um animal de estimação adorável, colocando-o nos grupos de "cão de luta" e "cão de companhia". A equipa do estudo usou o site American Kennel Club para obter dados sobre o papel original de cada raça.

Depois, mapearam 6 redes cerebrais que podiam ser diferenciadas pelo comportamento de um cão, como caçar pelo faro ou fazer companhia.

Por exemplo, na parte do cérebro chamada córtex pré-frontal, uma área associada ao tamanho e interação social, a variação é a mesma entre cães criados para o pastoreio, para a polícia, para fins militares e de guerra, controlo de vermes, afugentar e apanhar pássaros na caça e desportos de luta.

“É algo que faz sentido, visto que essas raças desempenham papéis cognitivamente mais complexos e exigentes, pelo que necessitam de um suporte maior do córtex pré-frontal", diz Hecht.

Daniel Horschler, estudante de doutoramento na Universidade do Arizona que estuda a anatomia cerebral dos cães, elogiou a abordagem do estudo. (Descubra como os olhos dos cães evoluíram para comunicar connosco.)

"Eles não tentaram dividir o cérebro por regiões e acredito que isso foi uma boa abordagem, porque ainda não sabemos muito sobre a organização cerebral dos cães", diz Horschler, que não participou na investigação.

“Creio que foram muito perspicazes em observar áreas dos cérebros que tendem a mudar da mesma maneira, e depois relacionar essas alterações com características específicas de cada raça”, disse Horschler.

"É muito emocionante", acrescenta. "Os cães são um ótimo modelo para este tipo de coisas e ninguém tinha realmente explorado esta vertente."

Melhor amigo da ciência?
Embora os cães domésticos já tenham sido catalogados pelos cientistas como "um animal falso", diz Horschler, um animal que não era digno de investigação científica, a verdade é que são cada vez mais objetos de estudo – sobretudo em estudos de emoção e cognição. Por exemplo, 20.000 anos de coabitação fizeram dos nossos animais de estimação excelentes intérpretes das emoções humanas – possivelmente mais do que qualquer outra espécie.

A autora do estudo e a sua equipa também fizeram uma análise estatística que mostra que as variações cerebrais na árvore genealógica dos cães só aconteceram mais recentemente, em vez de variações profundas que aconteceram no passado – sugerindo que "a evolução do cérebro dos cães aconteceu rapidamente", diz Hecht.

“É a prova de como os humanos alteram o mundo à sua volta. Saber que os nossos cérebros alteram outros cérebros no planeta é uma coisa profunda.”
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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