3 Mil Milhões de Aves Perdidas Desde 1970 nos EUA

Com a perda de habitats, pesticidas e muito mais, as primaveras na América do Norte estão a ficar cada vez mais silenciosas.quinta-feira, 3 de outubro de 2019

Quando caminhamos pela floresta ou passeamos pela cidade nem nos apercebemos, mas de acordo com um novo estudo, as populações de pássaros estão em queda livre.

De facto, se levarmos em consideração as contagens feitas em 1970, os cientistas estimam agora que os Estados Unidos e o Canadá, que abrigam 760 espécies de aves, perderam cerca de 3 mil milhões de pássaros.

O estudo, publicado no dia 19 de setembro na revista Science, analisou uma combinação de investigações populacionais feitas a longo prazo, bem como dados de radar meteorológico, para encontrar uma tendência. No geral, os investigadores descobriram que os pássaros encontrados nas pradarias – incluindo os mais comuns como pardais, toutinegras, melros e fringilídeos – foram os mais atingidos, com as suas populações a sofrerem um decréscimo de 53% nos últimos 48 anos.

Com quase 75% destas espécies em declínio, parece que estes biomas, que incluem os campos dos agricultores, são particularmente vulneráveis à perda de habitat e à exposição aos pesticidas tóxicos. Mas o número de aves em declínio também pode estar associado às enormes quedas nas populações de insetos – uma presa aviária importante, dizem os investigadores.

"Estas notícias são chocantes e devastadoras", diz o autor principal do estudo, Peter Marra, diretor da Iniciativa Ambiental de Georgetown na Universidade de Georgetown.

Isto acontece porque os pássaros são cruciais para o funcionamento saudável dos ecossistemas. Os nossos amigos com penas não ajudam apenas a controlar pragas e outros insetos, também desempenham um papel fundamental na distribuição de sementes, no descarte de carcaças em decomposição e até na polinização de plantas.

O que está a matar as aves?
Para este estudo, Peter e os seus colegas analisaram estimativas populacionais abrangentes em 529 espécies de aves, algumas das quais forneceram dados com cerca de meio século. E também incluíram estimativas sobre a biomassa, com os dados fornecidos pelo radar meteorológico, que consegue detetar aves a voar durante a noite, para determinar as suas migrações semestrais. Isto ajudou a equipa a calcular a forma como as populações se alteraram em áreas onde a monitorização feita a partir do solo é mais escassa.

Uma vez somadas todas as alterações, concluiu-se que, desde 1970, houve uma perda de 2.9 mil milhões de aves – uma redução total de 29%. (Leia sobre as 8 espécies de aves que desapareceram durante esta década.)

Embora as aves norte-americanas sejam muito diversas, existem alguns fatores em comum nestas mortes. "Basta voarmos pelo país para perceber que mudámos drasticamente o formato da terra", diz Peter. "Existem muitos habitats que acabaram de desaparecer."

A vasta utilização de pesticidas não só afetou as populações de insetos, como as próprias aves: um estudo recente descobriu que, quando as aves comem sementes tratadas com pesticidas que contêm neonicotinóides, perdem peso imediatamente, o que, por sua vez, tem repercussões na sua capacidade migratória.

As outras causas de morte incluem colisões com janelas de vidro, que podem matar cerca de 600 milhões de aves por ano, e gatos domésticos, que se estima caçarem entre 1 e 4 mil milhões de aves por ano.

Mas os números continuam a avolumar-se.

Não é demasiado tarde
Lucas DeGroote é o coordenador de investigações de aves no Museu de História Natural de Carnegie, que administra uma das mais antigas estações de identificação de aves na América do Norte, fora da Reserva Natural de Powdermill, no sudoeste da Pensilvânia. Lucas diz que o novo estudo "não é de todo surpreendente".

"Apanhamos e identificamos aves desde 1961 e, durante os últimos 60 anos, o número de aves tem vindo a diminuir. A composição das espécies também se alterou", diz DeGroote. "Portanto, é bom ver uma análise que coloca os números na realidade".

Apesar da magnitude das descobertas, os dois especialistas acreditam que ainda temos tempo para reverter esta tendência. Por exemplo, as pessoas "podem garantir que os gatos são mantidos dentro de casa, podem plantar plantas nativas e minimizar os impactos que as janelas têm", diz Peter.

“Existe um ditado que diz que a melhor altura para se plantar uma árvore foi há 20 anos atrás. E que a próxima boa oportunidade para o fazer é agora”, acrescenta DeGroote.

Por outras palavras, as escolhas que fazemos agora vão determinar o que acontece a seguir. “Penso que este é o tipo de otimismo de que precisamos na conservação.”
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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