Animais

Comércio Ilegal de Tartarugas-Marinhas Prospera no Japão

A demanda japonesa por carapaças de tartaruga está a deixar as tartarugas-de-pente – espécie ameaçada e que está protegida – à beira da extinção.quinta-feira, 3 de outubro de 2019

Por Justin Grubb
O comércio internacional de tartarugas-de-pente (espécie em perigo de extinção) é ilegal, mas o crescimento do mercado interno japonês está a dificultar a recuperação da espécie.

ENOSHIMA, JAPÃO – Esta saga começou há muito tempo com um par de óculos.

Tokugawa Ieyasu, que governou o Japão no início do século XVII, adquiriu uns óculos novos para si, com uma armação criada delicadamente a partir de uma carapaça de tartaruga-de-pente. Pouco tempo depois, todas as pessoas queriam uma carapaça de tartaruga – ou bekko – com os seus agradáveis tons de castanho, laranja e branco. E os artesãos japoneses começaram a fazer um pouco de tudo – pentes, caixas para cigarros e todo tipo de quinquilharia.

A moda espalhou-se pela Europa e pelas Américas. Em meados do século XIX, o comércio prosperava, e os artesãos japoneses eram considerados os melhores bekko do mundo. Com o crescimento do comércio, as populações de tartarugas-de-pente caíram abruptamente e, em 2008, entraram para a lista de espécies ameaçadas da União Internacional para a Conservação da Natureza.

De acordo com um estudo recente, entre 1844 e 1992 morreram mais de 9 milhões de tartarugas, em grande parte devido ao comércio de carapaças. O número de tartarugas-de-pente continuou em queda e de momento existem menos de 25.000. Além do comércio bekko, as principais ameaças que as tartarugas enfrentam são a captura acessória (são apanhadas como dano colateral); a perda de habitats de nidificação; e a poluição da água que provoca a morte através da ingestão acidental de plástico e de outros tipos de lixo produzido pelos humanos.

Contudo, na pequena vila piscatória de Enoshima, que fica 48 km a sul de Tóquio, e nas outras vilas e cidades ao longo da costa, a taxidermia de tartarugas-marinhas e a joalharia finamente entalhada de carapaça de tartaruga tem um lugar de destaque nas vitrines das lojas de souvenirs.

Todos os anos, milhares de turistas vêm até ao Japão para visitar os santuários coloridos e as lojas de souvenirs. Mas muitos dos compradores, talvez quase todos, desconhecem a terrível situação que estes animais enfrentam – e a importância que têm no ecossistema oceânico.

As tartarugas-marinhas, que se encontram nos trópicos, alimentam-se principalmente de esponjas marinhas que competem pelo espaço que têm para crescer com as espécies de coral. De acordo com a Associação Oceânica e Atmosférica Nacional dos EUA, a ausência de tartarugas faz com que as esponjas minem os recifes de coral. Os recifes detêm mais de 25% da vida marinha conhecida e provavelmente contribuem com mais de 375 mil milhões de dólares todos os anos para a economia mundial.

Demanda constante

Nas ruas de Enoshima, no Japão, as lojas de souvenirs exibem peças – como este colar – feitas a partir de carapaças de tartarugas-de-pente que estão em perigo de extinção.

Em 1977, o comércio internacional de tartarugas-de-pente e suas partes foi banido pela Convenção sobre o Comércio Internacional de Espécies da Fauna e da Flora Selvagem Ameaçadas de Extinção (CITES), órgão que regula o comércio transfronteiriço de animais selvagens.

Em 1980, quando o Japão assinou a convenção da CITES, fez uma reserva formal nos regulamentos sobre o comércio de tartarugas-de-pente, para preservar a prosperidade da indústria bekko. Isto significava que o país podia continuar a importar tartarugas-de-pente e manter boas relações com a CITES.

A Polícia Invade a Maior Quinta de Tartarugas Ilegal da Europa
A Polícia Invade a Maior Quinta de Tartarugas Ilegal da Europa
23 de agosto de 2018 - A aplicação da lei ultrapassou as 1100 tartarugas e cágados de uma incubadora agrícola ilegal na ilha espanhola de Maiorca. Segundo a polícia espanhola, esta é a maior quinta ilegal da Europa. Segundo a Europol, entre os animais que foram medidos, 14 das 50 espécies analisadas, eram das espécies em maior risco do mundo. O comércio destas espécies é habitualmente banido, segundo a Convenção sobre o Comércio Internacional das Espécies em Perigo (CITES). Os suspeitos enfrentam acusações de contrabando de espécies protegidas e lavagem de dinheiro. A investigação está a decorrer.

Em 1994, a pressão internacional forçou finalmente o Japão a respeitar a convenção da CITES na sua totalidade. De acordo com a Traffic, a organização que monitoriza o comércio de animais selvagens, as importações de tartarugas-de-pente dispararam imediatamente, com os artesãos e colecionadores japoneses a prepararem-se para o fim do comércio legal, e o Japão armazenava as suas reservas de tartaruga.

Estas reservas iriam abastecer a indústria no futuro. Enquanto isso, o comércio interno, que é legal, continuou. Dois outros países, Granada e Palau, também autorizam o comércio interno de tartarugas-de-pente.

De acordo com a Sea Turtle Conservancy, uma organização de conservação sediada na Flórida, o comércio de carapaças de tartaruga continua a ser uma ameaça contínua na recuperação das tartarugas-de-pente, apesar do progresso significativo na redução do volume global de comércio. As populações de tartarugas-de-pente não receberam proteção suficiente para iniciar a sua recuperação, e a falta de gestão e a não aplicação da lei são desafios complicados.

Para serem legais, todos os produtos de tartaruga à venda no Japão devem ter uma de duas origens. O item no seu estado natural ou depois de esculpido só é legal se tiver sido adquirido antes da proibição de importação de 1994, ou as tartarugas devem ser capturadas vivas nas águas do Japão.

Dada a omnipresença dos produtos de tartarugas-marinhas à venda desde 1994, "as reservas de bekko já se deviam ter esgotado, mas o setor permanece intacto e a demanda por itens feitos a partir de carapaças de tartaruga é alta", diz Marydelle Donnelly, diretora de política internacional na Sea Turtle Conservancy.

De acordo com a Traffic, desde 1994, os aeroportos de Tóquio, Nagoya e Osaki já apreenderam mais de uma tonelada de produtos de tartaruga-de-pente. Coincidentemente, nas últimas décadas, o Triângulo de Coral na Indonésia assistiu a uma redução de 90% nas populações de tartarugas-de-pente entre os recifes. As autoridades indonésias não responderam aos pedidos da National Geographic para comentar.

Ajudar a indústria bekko
Na era pós-proibição, para apoiar os fabricantes bekko, foram criadas organizações financiadas pelo governo, como a Associação Japonesa Bekko. A intenção original era pesquisar materiais alternativos às carapaças de tartaruga para os artesãos usarem – como materiais sintéticos e plásticos.

Mas, de acordo com a Sociedade Japonesa de Conservação de Vida Selvagem, uma organização de conservação com sede no Japão, também começaram a ser feitos empreendimentos para aumentar as reservas, cada vez mais escassas, de tartarugas-de-pente. A Associação Japonesa Bekko enviou lobistas para as conferências internacionais com o objetivo de reduzir as proteções da CITES à tartaruga-de-pente, reabrir o comércio com Cuba (tentativas feitas sem sucesso em 1997, 1999 e 2002) e pressionar as autoridades locais japonesas para permitir uma exploração interna mais abrangente das populações de tartarugas para fins bekko.

A Associação Japonesa Bekko também explorou a viabilidade de criação de tartarugas, como uma forma independente para adquirir carapaças de tartaruga de forma legal. As crias recolhidas dos ovos de tartarugas-marinhas são criadas para as suas carapaças serem colhidas na idade adulta, décadas mais tarde, já que as tartarugas-de-pente conseguem viver até aos 50 anos.

UM VISLUMBRE DO MUNDO DAS TARTARUGAS

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O tempo, os recursos e a paciência necessários para fazer algo assim é impressionante, diz Brad Nahill, presidente da SEE Turtles, uma organização de conservação comunitária dos EUA.

"Não acreditamos que a criação de tartarugas-de-pente seja uma alternativa viável, pois está provado que é um processo muito moroso, dispendioso, e que precisa de começar com os ovos nas praias de nidificação, com um impacto ainda maior nas populações selvagens ”, diz Brad.

O comércio de produtos de tartarugas-marinhas não se limita às atividades bekko. No Japão, vendem-se espécimes completos, preservados através de taxidermia, como curiosidades. Desde 1994 que os vendedores são obrigados a reportar a origem de cada tartaruga à Lei de Conservação de Espécies Ameaçadas da Fauna e da Flora, a autoridade japonesa que regula a venda interna de produtos de vida selvagem.

Se o espécime for proveniente de águas japonesas, a documentação oficial não é necessária. De acordo com a Traffic, este processo expõe uma brecha crítica na garantia da legalidade do comércio, pois os vendedores colocam produtos ilegais à venda com a suposição de que foram adquiridos localmente. (O governo japonês não respondeu aos nossos pedidos para comentar.)

De acordo com a Sociedade Japonesa de Conservação de Vida Selvagem, atualmente não existem formas de regulamentação governamental para o comércio a retalho de produtos bekko, impossibilitando a diferenciação entre os itens feitos a partir de produtos legais e os que são traficados ilegalmente.

Poder do povo
Donnelly, da Sea Turtle Conservancy, diz que a educação das pessoas é o aliado mais forte de qualquer tartaruga-marinha: compreender a relação entre as populações selvagens e os seus produtos derivados é fundamental para travar a exploração de populações vulneráveis. Porém, não se sabe se existe alguma campanha de sensibilização educacional no Japão.

Nahill concorda e diz que "o comércio de carapaças de tartaruga pode ser encerrado com leis mais rigorosas e com a educação dos consumidores".

Por exemplo, Cartagena, na Colômbia – que já foi o centro do comércio de tartarugas-marinhas nas Américas – em 5 anos sofreu uma redução de 80% no mercado, graças à programação educacional direcionada e ao desenvolvimento da comunidade, diz Nahill.

Conhecer a autenticidade dos produtos e evitar a sua compra pode ajudar a abrandar o declínio das tartarugas-marinhas.

"Esperamos que o governo do Japão perceba rapidamente que o comércio de carapaças de tartaruga é insustentável e o encerre de uma vez por todas."
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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