Animais

Devemos Manter Polvos em Cativeiro?

Especialistas em cefalópodes temem que o comércio esteja a pressionar algumas espécies mais cobiçadas.terça-feira, 22 de outubro de 2019

As espécies mais comuns de polvos não vivem mais do que dois anos. Algumas espécies, como o polvo-da-califórnia, parecem dar-se relativamente bem em cativeiro. Mas os polvos mais solitários e delicados não lidam bem com estas condições.
As espécies mais comuns de polvos não vivem mais do que dois anos. Algumas espécies, como o polvo-da-califórnia, parecem dar-se relativamente bem em cativeiro. Mas os polvos mais solitários e delicados não lidam bem com estas condições.

"Estou constantemente a ouvir esta pergunta: pode vender-me polvos?'", diz Jeff Slemp, proprietário da loja Cuttlefish and Corals Sustainable Saltwater Aquariums, em Portland, nos EUA. Jeff não se opõe a que as pessoas mantenham estes moluscos invulgarmente inteligentes como animais de estimação, mas não vai vender polvos a ninguém. "Temos de garantir que as pessoas sabem o que estão a fazer, e que têm o conhecimento necessário para lidar com as situações que possam surgir.”

Uma dessas situações são os próprios polvos que, como são solitários, conseguem dar-se melhor em cativeiro do que alguns animais cujas vidas familiares e sociais não são possíveis de reproduzir nesse ambiente. Os polvos são verdadeiros artistas de evasão, capazes de passar entre fendas pequenas e por todo lado, exceto sair de tanques bem selados – uma das muitas características que os tornam animais complicados e dispendiosos de gerir.

Estes atributos fazem dos polvos verdadeiras estrelas. Existem vários trabalhos de investigação, livros, artigos de revistas e documentários que celebram a inteligência improvável deste animal (um molusco com um cérebro do tamanho de um vertebrado que tem capacidades de resolução de problemas), e que destacam as suas alterações proteicas, tanto na forma como na cor, a sua disposição para a brincadeira e a personalidade idiossincrática.

Nos EUA, no início de outubro, estreou a nova temporada da série Nature da PBS, "Polvo: Estabelecer Contacto", que contava a história adorável da relação estreita entre um professor do Alasca, a sua filha e o polvo de estimação. E todos os verões, em Seattle, os artistas, escritores, músicos e cientistas da Cephalopod Appreciation Society reúnem-se para celebrar tudo o que é polvo, lula e choco através de imagens, palestras e música.

Com 1,000 fêmeas, este é o maior 'berçário' de polvos nas profundezas do oceano
Com 1,000 fêmeas, este é o maior 'berçário' de polvos nas profundezas do oceano
29 de Outubro de 2018- Este é um 'berçário' de polvos diferente de qualquer outro alguma vez visto. Os polvos aparecem de dentro para fora, uma vez que se encontram numa postura fetal. 29 fêmeas envolvem os seus tentáculos em torno do seu corpo de modo a proteger os ovos. Foram observadas aproximandamente 1000 crias. A espécie Muusoctopus robustusis é raramente vista. Este é apenas o segundo 'berçário' observado nas profundezas - o primeiro foi descoberto na Costa Rica, na Primavera de 2018.

E nos grandes aquários de todo o mundo, os polvos são agradáveis para as multidões. O Seattle Aquarium realiza uma festa anual no Dia de S. Valentim para marcar o possível acasalamento dos seus polvos-gigantes-do-pacífico (a maior espécie do mundo, chegando a pesar 45 quilos e com uma extensão de braços de até 7 metros).

"Os polvos são muito carismáticos", diz James Wood, biólogo marinho e operador de aquários sediado em Palm Beach, na Flórida. “Hoje em dia está na moda sermos nerds, e os polvos são os animais mais nerd.” Portanto, é natural que os entusiastas de aquários e fãs de oceanos tenham o desejo de ter as suas próprias maravilhas de 8 braços. “As pessoas, quando olham para todas as informações, revêm-se nestes animais”, diz o gestor de vendas de um grande importador de animais marinhos que pediu para não ser identificado – estava a fazer declarações sem autorização.

Porém, não se sabe até que ponto todo este fascínio pode estar a prejudicar os polvos. Isto acontece, em parte, porque os registos de importações de cefalópodes são irregulares e desatualizados. Wood e outros especialistas temem que este entusiasmo possa colocar em risco duas das espécies mais deslumbrantes e mediáticas, mas pouco estudadas e potencialmente raras: o polvo às listas Wunderpus photogenicus (descoberto na década de 1980) e o seu parente, o polvo-mímico, Thaumoctopus mimicus (identificado apenas em 1998). E os polvos com círculos azuis, Hapalochlaena, também atraem amadores ingénuos, mas são letalmente venenosos.

O Wunderpus e o polvo-mímico são os melhores artistas a mudar rapidamente de cor, escondendo-se à vista de todos, imitando um pouco de tudo, desde rochas e algas a cobras marinhas e peixes-leão. E rapidamente se tornaram no centro das atenções dos programas sobre natureza. Mas sabe-se muito pouco acerca destas espécies, sobretudo os mímicos, incluindo os seus números populacionais nos fundos marinhos pouco profundos ao largo das Celebes, na Indonésia, e de outras ilhas no Indo-Pacífico.

Por vezes, os fornecedores e importadores confundem as espécies, mas isso não os impede de as vender a colecionadores dispostos a pagar 200 euros ou mais por cada exemplar. Nos EUA, durante os poucos anos para os quais existem dados oficiais de importação, a demanda parece ter começado a aumentar, embora os números ainda sejam reduzidos. Em 2008, foi registada uma importação de um polvo-mímico, duas em 2009 e 30 em 2011, o último ano disponibilizado pelos dados.

Mas, mesmo que esta procura aumentasse exponencialmente, continuaria a ser legal: nenhuma das mais de 300 espécies conhecidas de polvos está listada na Convenção sobre o Comércio Internacional de Espécies da Fauna e da Flora Selvagem Ameaçadas de Extinção (CITES), que regula o comércio transfronteiriço de animais selvagens, ou na Lei das Espécies Ameaçadas dos EUA. Isto pode refletir a falta de informação – como acontece no caso do polvo-mímico. No site Cephalopod Page, editado por Wood, o aquarista Christopher Shaw, a Universidade da Califórnia e o biólogo Roy Caldwell publicaram um pacote de artigos com o título: "Polvos-Mímicos: Vamos Matá-los de Amor?

O polvo Wunderpus foi descoberto na década de 1980. Não se conhece bem o comportamento desta enigmática criatura.
O polvo Wunderpus foi descoberto na década de 1980. Não se conhece bem o comportamento desta enigmática criatura.

“Há uma coisa que sabemos sobre os polvos-mímicos: são raros”, escreve Shaw. E também refere que o habitat costeiro indonésio está a ser destruído pelo escoamento e pelas atividades mineiras, e que os animais se dão mal em cativeiro. Isto significa que muitos polvos acabam por morrer para que um consiga sobreviver alguns meses dentro de um aquário. Shaw também incita os aquários públicos a resistirem à tentação deste troféu: "Sinceramente, receio que, se não conseguirmos impedir este tipo de captura, não teremos mais polvos-mímicos para venerar dentro de poucos anos".

Atração fatal
Há outro polvo muito adorado que acarreta outro tipo de preocupações. Existe a possibilidade de todos os polvos possuírem alguma quantidade de veneno, mas só as espécies com círculos azulados, polvos do tamanho de uma bola de golfe, encontrados entre o sul do Japão e a Austrália, são conhecidas por conter uma dose letal. A saliva destas espécies contém tetrodotoxina, uma neurotoxina poderosa, o mesmo composto que faz de alguns sapos tão mortíferos. Um dos chamados círculos azuis pode conter uma dose suficiente para matar 10 pessoas ou mais.

Todos os anos são registados casos de picadas na Austrália, mas se os cuidados de saúde forem administrados rapidamente, conseguem impedir as fatalidades. Durante o século passado, foram confirmadas 3 mortes por este tipo de envenenamento, nenhuma envolveu aquários. Mas as mortes provocadas por estes polvos podem não ser identificadas porque as picadas são indolores e a causa de morte – paralisia respiratória – pode ser provocada por outras toxinas e condições nervosas, musculares e pulmonares.

Roy Caldwell lembra-se de um momento que podia ter sido complicado. Quando ele estava a estudar camarões Stomatopoda na Ilha Lizard, na Austrália, recrutou a sua filha adolescente para o ajudar a procurar amostras nos recifes. A rapariga sentiu "algo mole e macio" dentro de uma concha de ostra. "Presumi que fosse um pepino-do-mar e ignorei o comentário da minha filha. Mas quando abri a concha, saiu de lá um emaranhado de braços cobertos com pequenas manchas azuis. Só que o polvo, em vez de se tentar esconder, como a maioria dos polvos faria, começou a recuar com dois pares de braços levantados, expondo a boca. Percebi obviamente que estava perante um polvo pronto para atacar. E era um polvo potencialmente letal que a minha filha, sem saber de nada, tinha lidado momentos antes."

A perigosidade destas espécies, juntamente com a sua beleza, exerce um fascínio poderoso sobre alguns fãs de aquariofilia – Jeff Slemp apelida estes entusiastas de "temerários”. Nos EUA, as importações de polvos venenosos têm crescido de forma constante, superando todas as outras espécies de polvos: foram registadas 11 importações em 2004; 348 em 2008; 494 em 2009; e 1.148 em 2011. Mas é quase certo que os números não representam todos os polvos desta espécie que entraram no país. “Às vezes, vêm à boleia [de pedaços de recifes de coral] e nem sabemos que os trazemos connosco”, diz Wood.

De acordo com os escassos dados disponíveis, nos EUA, as importações de polvos Hapalochlaena, espécie altamente venenosa, superaram as de todas as outras espécies. Estes polvos têm uma neurotoxina poderosa com concentrações capazes de matar 10 pessoas ou mais.
De acordo com os escassos dados disponíveis, nos EUA, as importações de polvos Hapalochlaena, espécie altamente venenosa, superaram as de todas as outras espécies. Estes polvos têm uma neurotoxina poderosa com concentrações capazes de matar 10 pessoas ou mais.

"Já vi estes polvos à venda em lojas de animais, e também em aquários domésticos, em situações onde os proprietários nem sabiam o que eram", diz Jeff Slemp. “Manter esta espécie é uma péssima ideia e recuso-me a vendê-los. Os polvos conseguem escapar e acabamos por ter algo potencialmente mortal à solta, algo pelo qual as crianças se sentem atraídas."

Mas há quem os venda, incluindo online. O Pete's Aquariums, em Nova Iorque, vende estes espécimes por 199.99 dólares, embora estejam esgotados. Quando liguei para a loja e fiz questões sobre a espécie, a rececionista desligou abruptamente.

‘Não é um animal para se encarar de ânimo leve’
O crescente fascínio público por polvos não se parece ter traduzido em vendas – pelos menos até agora. O gerente de vendas que pediu o anonimato diz, "pelo que vejo, as vendas até parecem ter abrandado ao longo dos anos".

Isto pode acontecer, em parte, porque algumas lojas de aquários pararam de fazer o que Rich Ross, biólogo aposentado do Steinhart Aquarium, em São Francisco, chama de armazenamento de animais exóticos de estimação ao estilo dos "supermercados". (Ross colabora agora com o Laboratório Albright, um centro de investigação e restauração de recifes de coral afiliado ao aquário de São Francisco.) Em vez disso, os vendedores estão a adotar uma abordagem de pedidos personalizados, o que reduz o excesso de remessas de animais e, consequentemente, a sua mortalidade. Os pedidos personalizados também permitem aos fornecedores – que se preocupam realmente – avaliar os compradores e aconselhá-los sobre as melhores práticas a adotar.

Este abrandamento também reflete os esforços de Wood e de outros especialistas que tentam educar os entusiastas e fornecedores sobre os custos e riscos de manter estes moluscos. Para além dos preços elevados de cada espécime e respetivas dietas – ricas em caranguejo e camarão – os polvos precisam de tanques enormes à prova de fugas, com esconderijos amplos, e acessórios capazes de resistir aos braços poderosos e adulteração inquisitiva, sem quaisquer peixes ou companhia (porque os polvos comem tudo).

"É coisa para custar uns 2 mil de dólares a montar", diz Reyna Bueno, da Barrier Reef Aquariums, um dos principais fornecedores da área de Seattle.

Mas pode ser um investimento a curto prazo. A maioria das espécies vive apenas um ou dois anos, e um polvo recém-importado pode ter apenas algumas semanas de vida. Algumas espécies comuns mais robustas, como o polvo-da-califórnia, dão-se relativamente bem em cativeiro. Mas outros, como o lendário, mas delicado, mímico, nem por isso. (O polvo-mímico é muito recluso e notívago, e dificilmente exibirá a sua famosa mudança de forma dentro de um tanque.)

"A palavra espalhou-se", diz Ross. “Este não é um animal para se encarar de ânimo leve.” O facto de os polvos parecerem muito inteligentes impede que, por princípio,  algumas pessoas não os comprem. Mas Ross acrescenta que, nos grandes aquários, alguns criadores aceitam os custos elevados e a rotatividade como um preço a pagar pela exibição destas carismáticas criaturas: "Olham para estes animais como se fossem flores que precisam de ser trocadas”.

Estas atitudes incomodam Wood, que estudou polvos enquanto membro do corpo docente do Instituto de Ciências Oceânicas das Bermudas. Wood descobriu que estes animais inteligentes e curiosos precisam de espaços mais amplos, comida e água limpa.

"Todas as razões pelas quais melhoramos a vida dos vertebrados também se aplicam aos polvos.” Quando Wood começou a sua investigação, mantinha os polvos em recipientes abertos. “Alguns rastejavam para fora dos recipientes com água e secavam. Outros comiam os próprios braços.” Quando Wood melhorou as suas vidas, acrescentando elementos para os polvos se poderem movimentar e explorar, os comportamentos autodestrutivos pararam.

Alguns defensores dos animais acreditam que estas criaturas não devem ser mantidas em aquários. "A vida dentro de um tanque não é vida para polvos sensíveis e inteligentes", declara a PETA. A organização comemora a célebre fuga de um polvo chamado Inky do Aquário Nacional da Nova Zelândia em 2016: "Esta fuga ousada serve para enviar uma mensagem aos aquários de todo o mundo, para manterem os seus tentáculos longe dos polvos para sempre.”

Jennifer Mather, psicóloga de animais na Universidade de Lethbridge, no Canadá, investigadora pioneira em cognição e personalidade de polvos, diz que estas criaturas são o “rosto do bem-estar dos animais invertebrados" – dignos dos mesmos direitos gozados pelos animais que se parecem mais com os humanos. Os amantes de aquarismo podem ser aliados nesta causa, argumenta Jennifer, contribuindo para a compreensão pública e científica de animais que anteriormente eram subestimados: "Quando as pessoas têm polvos em casa, ficam realmente ligadas aos animais, e podem partilhar esse apreço".

‘Vácuo de dados’
Para determinar se, e como, as importações de polvos e outras espécies de aquário estão a afetar as populações selvagens, é necessário saber exatamente as quantidades de importação. Mas os volumes e tendências de comércio são, em grande parte, temas especulativos.

"Vivemos num vácuo de dados", diz Andrew Rhyne, biólogo na Universidade Roger Williams. "Os EUA e outros países não possuem sistemas para monitorizar o comércio e fornecer dados sobre a vida selvagem, como os polvos, que não esteja listada na CITES.”

O Serviço de Pesca e Vida Selvagem dos EUA, que regula o comércio de vida selvagem no país, exige que sejam apresentadas declarações de importação para todas as espécies à chegada, bem como uma fatura mais detalhada para cada remessa de vida selvagem. O serviço usa o volume de remessas recebidas para determinar as necessidades e os recursos da equipa nos portos de entrada. Mas não compila contagens de importação sobre polvos e outras espécies não listadas, nem liberta informações de imediato sobre as operações.

Mas Rhyne e a sua equipa conseguiram preencher parcialmente o vácuo de dados. A Administração Oceânica e Atmosférica Nacional (NOAA), em parceria com o Serviço de Pesca e Vida Selvagem, obteve as faturas de importação de espécies de aquário durante 3 anos completos (2008, 2009 e 2011) e partes de 2004 e 2005. A NOAA financiou o projeto Marine Aquarium and Biodiversity Trade Flow da Universidade Roger Williams para digitalizar e analisar as informações contidas nestes documentos.

O resultado sugeriu uma imagem do comércio de vida marinha nos EUA, mas este pequeno conjunto de dados – tudo o que temos sobre as importações de polvos – está incompleto e desatualizado. A equipa de Rhyne encontrou muitas discrepâncias entre as declarações de importação e as faturas mais detalhadas.

O biólogo Rich Ross, que já trabalhou no comércio de aquários, propõe uma solução do setor privado para a ausência de informações: “uma cooperativa de revendedores responsáveis de aquários de água salgada capaz de acompanhar o comércio e promover práticas sustentáveis. Seria algo parecido com algumas associações que representam instituições públicas.”

James Wood elogia a ideia, mas Ross reconhece que não é fácil reunir o consenso na  indústria; já foram feitos dois esforços que falharam.

Ross adverte que a aparente pausa nas importações de polvos se pode alterar a qualquer momento, sobretudo porque a maioria das espécies que as pessoas desejam, incluindo os polvos-mímicos e os Wunderpus, vêm de fornecedores pouco regulamentados na Indonésia e nas Filipinas – o velho oeste na captura de vida marinha. "É completamente possível assistirmos a um aumento deste comércio.”
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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