Animais

Os Azuis dos Açores

Os tubarões-azuis, que hoje atraem mergulhadores de todo o mundo a águas Açorianas, estão ameaçados. A esperança para estes animais reside numa aliança entre imaginação, conhecimento científico, tecnologia e vontade coletiva.quinta-feira, 31 de outubro de 2019

Por Nuno Vasco Rodrigues
Tubarão-azul marcado com transmissor desenvolvido pelo ECODIVE-AZ.
Tubarão-azul marcado com transmissor desenvolvido pelo ECODIVE-AZ.

“O tubarão mais pescado dos oceanos.”

Esta é uma das conclusões incluídas num relatório recentemente publicado pela TRAFFIC* (organização que trabalha no combate ao tráfico de animais selvagens e plantas a nível global) relativamente ao tubarão-azul (também conhecido como tintureira), reforçando o que já outros estudos tinham concluído. Portugal é um dos principais responsáveis por estes números, que derivam sobretudo de pesca acessória, ou seja, pesca não dirigida a esta espécie, mas a outras (exemplo: espadarte), que ocupam o mesmo habitat, mas cujo valor de mercado é substancialmente mais elevado. Atualmente, o tubarão-azul está classificado pela IUCN Red List (Lista Vermelha da União Internacional para a Conservação da Natureza) como “Quase Ameaçado” a nível global, e como “Criticamente Ameaçado” no Mediterrâneo, fruto de um declínio de 90% da população desta região em apenas três gerações, resultante de sobrepesca constante.

Taxa de crescimento lenta, maturação sexual tardia e baixo número de descendentes são algumas das características inerentes à biologia do tubarão-azul (e de grande parte das espécies de tubarão), que o tornam especialmente vulnerável à exploração humana.

O tubarão-azul é a espécie de tubarão mais pescada a nível mundial.
O tubarão-azul é a espécie de tubarão mais pescada a nível mundial.

Como predadores de topo, estes animais têm um papel fundamental na manutenção do equilíbrio dos ecossistemas, daí que seja crítico a implementação de estratégias que permitam a sua conservação, combatendo o declínio e simultaneamente promovendo a recuperação das suas populações. Tal implicará, obrigatoriamente, um conhecimento profundo acerca da sua ecologia fundamental, algo que ainda estamos longe de possuir.

O projeto ECODIVE-AZ (PO Açores 2020), liderado pelo biólogo marinho e investigador Jorge Fontes, do centro de investigação OKEANOS da Universidade dos Açores, dedica-se ao estudo da ecologia e comportamento dos tubarões-azuis em águas açorianas. Ecologia espacial e identificação de habitats essenciais (habitats necessários para que as espécies desovem, se reproduzam, se alimentem e cresçam até à maturidade), dinâmica e ecologia dos movimentos horizontais e verticais e impactos da atividade humana (pesca, turismo, poluição) são alguns dos temas que a equipa do projeto considera de estudo prioritário, devendo o conhecimento adquirido ser incorporado em planos de gestão e conservação. Ou seja, é preciso saber por onde andam estes animais, o que fazem e como se relacionam com o seu ambiente.

Dada a impossibilidade de os monitorizar fisicamente em permanência, a equipa recorre a novas ferramentas de biologging (técnica de marcação de animais com dispositivos de registo de dados), desenhadas à medida, para melhor entender os seus movimentos e estratégias de vida. Mais concretamente, fixam aos tubarões transmissores eletrónicos que registam e armazenam informação diversa, em alta resolução (localização, aceleração, velocidade, profundidade, temperatura, rumo, registo em vídeo, etc.), durante alguns dias, libertando-se e ascendendo à superfície, sendo então recuperados pela equipa, graças à combinação de um sistema de localização por rádio e satélite. A equipa desenvolveu um método inovador, minimamente intrusivo, ao contrário de outros métodos clássicos, que frequentemente implicam capturar os animais para implantar os transmissores (por vezes recorrendo a cirurgia) e voltar a capturá-los para recuperar a informação registada.

Em setembro de 2019, tive a oportunidade de acompanhar a equipa do projeto numa das campanhas de marcação, ao largo da ilha do Faial.

A bordo do lendário veleiro PEN-DUICK VI, saímos do porto da Horta em direção ao monte submarino Condor, cerca de 10 milhas náuticas (cerca de 18,5 km) a sudoeste da ilha do Faial e cujo topo se situa a cerca de 180 metros de profundidade. As características topográficas deste monte propiciam condições biológicas favoráveis à agregação de vida marinha, que aqui se alimenta, cresce e reproduz. Tal riqueza atrai, naturalmente, predadores de topo como os tubarões. Daí que seja o local de eleição pelas empresas marítimo-turísticas do Pico e Faial para o já internacionalmente famoso “blue shark diving” dos Açores.

Tubarão-azul nada junto à superfície, sobre o monte submarino Condor.
Tubarão-azul nada junto à superfície, sobre o monte submarino Condor.

Esta modalidade de mergulho, oferecida pelas empresas, recorre ao chumming, ou seja, uso de engodo (feito à base de restos de peixes gordos como sardinha e atum), para atrair os tubarões. Esse engodo é habitualmente inserido numa caixa com orifícios suspensa a cerca de 10 metros de profundidade e presa por um cabo à embarcação. À medida que o sangue, óleo e restos de peixe vão abandonando a caixa pelos orifícios, vai-se formando um “corredor de odor” que alastra para águas circundantes, com auxílio da corrente, atraindo assim os predadores, que rapidamente se aproximam em busca de uma refeição.

A curiosidade dos tubarões-azuis faz com que se aproximem dos mergulhadores destemidamente.
A curiosidade dos tubarões-azuis faz com que se aproximem dos mergulhadores destemidamente.

Durante o trânsito, a azáfama a bordo é grande. É importante ter tudo a postos à chegada ao ponto de mergulho, de modo a não perder qualquer oportunidade. Sílvio Solleliet, um dos membros da equipa, dá os últimos retoques num dos transmissores e certifica-se que está a funcionar, enquanto Jorge Fontes vai indicando as coordenadas de destino ao mesmo tempo que explica como tudo se vai processar bem como as regras básicas do mergulho para marcação de tubarões.

“Estes transmissores são únicos”, diz Jorge Fontes ao perceber a minha curiosidade. “São protótipos, não existe nada igual ou com características próximas. Uma ideia 100% portuguesa”, refere com orgulho.

Os transmissores, pequenos “mini-torpedos” vermelhos com diversos componentes eletrónicos no seu interior, encontram-se ligados por um cabo fino a uma espécie de arnês tipo laço. Uma das partes mais importantes deste arnês é o GTR (Galvanic Time Release), uma pequena peça constituída por uma liga metálica que, em contacto com a água do mar começa a dissolver-se lentamente, devido ao processo de corrosão galvânica. Passadas cerca de 24 horas, o grau de corrosão do olhal será tal que o arnês se abre, permitindo que todo o sistema flutue até à superfície sem deixar qualquer vestígio no tubarão.

Sílvio Solleliet faz uma última revisão aos transmissores prestes a serem usados.
Sílvio Solleliet faz uma última revisão aos transmissores prestes a serem usados.

Um pouco antes de chegarmos ao destino, Jorge Fontes pega no rádio e tenta perceber que operadores estão nesse dia no Condor e qual a situação.

“- Tenho aqui 2 azuis!”, diz Norberto Serpa do outro lado do rádio.

Norberto, a personificação de Santiago em ‘O Velho e o Mar’ de Ernest Hemingway, gere uma das várias marítimo-turísticas do Faial e conhece o mar como poucos.

“- Ok, estamos quase a chegar”, devolve o investigador.

Passados alguns minutos, encontramo-nos junto à embarcação de Norberto, que nos confirma ter ainda os animais uns metros abaixo, atraídos pelas caixas com engodo.

Todo o processo de marcação será feito em apneia. Os tubarões encontram-se a baixa profundidade e as bolhas resultantes do uso de mergulho autónomo (com garrafa) poderiam assustá-los ou perturbar as operações.

Entramos na água e pomos a máscara de mergulho na cara, abrindo-se abaixo o azul vertiginoso típico destas ilhas oceânicas. Imediatamente os nossos olhos detetam vários tubarões, para além dos dois “do Norberto”.  Após poucos minutos a nadar à nossa volta, começam a ganhar confiança e resolvem inspecionar-nos mais de perto. Numa dessas ocasiões, Jorge Fontes mergulha furtivamente por cima de um deles, passando-lhe o arnês pelo “focinho” e fazendo-o deslizar ao longo da cabeça, ficando alojado imediatamente antes das barbatanas peitorais. Este parece não dar por nada, continuando a circular o engodo e a investigar os mergulhadores. O transmissor já regista informação.

Jorge Fontes no processo de marcação de um tubarão-azul.
Jorge Fontes no processo de marcação de um tubarão-azul.

Mais uns minutos e um segundo tubarão é marcado recorrendo à mesma metodologia. Após cerca de 45 minutos de mergulho, os 6 transmissores trazidos pela equipa estão todos a reboque de tubarões e a registar informação preciosa, que, se tudo correr bem, estará disponível daí a cerca de 24 horas.

Já de volta ao PEN-DUICK VI, Jorge Fontes explica-me que os transmissores são os primeiros não-invasivos destinados a tubarões com barbatanas dorsais pequenas (uma vez que animais grandes podem ser marcados diretamente na dorsal) e os primeiros rebocáveis a integrar tecnologia de última geração e uma bateria de sensores de alta frequência (até 200 medições por segundo). Esta tecnologia é altamente avançada e permitirá perceber com alto rigor e exatidão os movimentos dos bichos. “E são recarregáveis e reutilizáveis” conclui.

O grau de otimismo da equipa em relação à performance dos transmissores é grande, prevendo-se que tal se converta na obtenção de uma grande quantidade de dados novos e com detalhe suficiente para caracterizar, em detalhe, o comportamento destes animais, o que permitirá dar resposta a várias questões ainda por responder acerca da ecologia fundamental desta espécie.

Se formos capazes de aliar a nova janela de conhecimento sobre esta espécie icónica que se abre com esta ferramenta inovadora, à vontade coletiva e entendimento generalizado da importância da preservação desta espécie, haverá esperança para os azuis dos Açores.

*Okes, N. & Sant, G. (2019). An overview of major shark traders, catchers and species. TRAFFIC, Cambridge, UK.


Nuno Vasco Rodrigues é biólogo marinho,  Assistente de Curador no Oceanário de Lisboa, investigador no MARE IPLeiria e fotógrafo subaquático.

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