Animais

‘Supermães’ de Elefantes-Marinhos Têm a Maior Parte das Crias

Esta espécie, quase extinta no início do século XX devido à caça, está a recuperar – e algumas progenitoras formidáveis podem ser as responsáveis.quarta-feira, 2 de outubro de 2019

Por Carrie Arnold
Uma mãe elefante-marinho-do norte com a sua cria.

Todos os anos, em dezembro, mais de 3.000 elefantes-marinhos-do-norte abandonam as águas geladas do Pacífico em direção às margens do Año Nuevo State Park, no norte da Califórnia.

Para as mães desta espécie, a viagem é uma corrida contra o tempo. Os animais de 680 quilos têm apenas um mês para dar à luz, amamentar e desmamar as crias, antes de regressarem ao oceano para se alimentar e recuperar energias.

É um estilo de vida extremamente brutal, com muitas das fêmeas a terem apenas algumas crias antes de morrer. Mas, de acordo com uma nova análise, baseada em 50 anos de dados sobre mais de 7.700 progenitoras de elefantes-marinhos-do norte, existe uma pequena proporção de supermães que vive mais tempo e é responsável pela maioria das crias na colónia. Algumas destas mães criaram 17 filhotes durante uma vida de 23 anos.

As denominadas supermães começam a ter crias com uma idade um pouco mais avançada do que o normal, que geralmente acontece aos 4 anos – numa altura em que são maiores, mais saudáveis e mais experientes – e as suas crias são robustas e têm mais probabilidades de ter as suas próprias proles.

"Para nós, isto foi uma surpresa", diz Burney Le Boeuf, ecologista na Universidade da Califórnia, em Santa Cruz, e um dos autores principais do novo estudo apresentado na Canadian Journal of Zoology. "São estas mães que vão determinar o futuro da colónia."

A caça em excesso, feita no início do século XX, deixou os elefantes-marinhos-do-norte muito perto da extinção, e compreender a sua estrutura populacional pode informar os cientistas sobre as suas possibilidades de recuperação.

Viver no limite, morrer jovem
Le Boeuf e os seus colegas já tinham reparado que a maioria das fêmeas avistadas em Año Nuevo eram jovens – com poucos anos de idade. Mas, como constituíam a maior parte da população, os cientistas acreditavam que estas mães eram responsáveis pela maioria das crias nascidas na colónia. Porém, os dados revelaram algo completamente diferente.

Quando os cientistas levaram em consideração a quantidade de crias que sobreviveram o tempo suficiente para acasalar e ter filhotes, perceberam que só 6% das fêmeas tiveram 10 ou mais filhos, mas produziam cerca de 55% das crias na colónia. E uma percentagem ainda mais ínfima das chamadas supermães – menos de 1% de todas as fêmeas – teve até 20 filhotes ao longo do seu tempo de vida.

Le Boeuf, que está praticamente aposentado, estuda este viveiro de elefantes-marinhos desde que os viu pela primeira vez, quando fez a formação de professor na Universidade da Califórnia, em Santa Cruz, em 1967.

“Fiquei impressionado com o que vi. No caminho de regresso à universidade, comecei logo a escrever para uma bolsa”, diz Le Boeuf, que se tornou num dos primeiros cientistas a reunir a história de vida de uma espécie que passa a maior parte do tempo no mar. Para rastrear os elefantes-marinhos de forma individual, Le Boeuf desenvolveu uma etiqueta de plástico colorida, com uma combinação única de letras e números, que podia ser inserida de forma inofensiva numa das barbatanas traseiras.

Os dados iniciais deste projeto a longo prazo confirmaram algumas hipóteses: dado que as fêmeas amadureciam por volta dos 4 anos de idade, geralmente começavam a ter uma cria por ano até morrerem. Algumas tiveram filhos antes dos 4 anos, mas tiveram de gastar energias para suportar a gravidez – energias que normalmente iriam para o seu próprio crescimento e desenvolvimento – o que significa que tinham crias mais pequenas e com menores probabilidades de sobrevivência. As mães mais jovens também tinham volumes corporais mais pequenos, sendo por isso mais propensas a morrer cedo.

Mais para amar
A mortalidade das crias também é elevada, devido aos predadores, à fome e ao abandono – no estudo, 75% morreram antes de conseguir procriar. São valores astronómicos, sobretudo se os compararmos com as taxas de sobrevivência do elefante-marinho-do-sul, espécie intimamente relacionada, observa Elena Salogni, doutoranda em biologia marinha na Universidade Memorial, em Terra Nova, que estudou os dois grupos elefantes-marinhos, mas que não participou neste estudo mais recente.

Mas as crias das supermães costumam conseguir sobreviver. “Estas mães são maiores, mais experientes e conseguem proteger melhor os seus filhotes ”, diz Salogni.

Elena também diz que este trabalho destaca a importância dos estudos feitos a longo prazo nas populações de animais. “A maioria dos estudos feitos a curto prazo não explica a longevidade.” Mas, neste estudo, a longevidade é uma variável crucial – quando só conseguimos ter uma cria por ano, só conseguimos ter mais filhotes se vivermos mais tempo.

Le Boeuf admite que não sabe o que distingue estas supermães.

“Se me pedissem para identificar as supermães no meio de um grupo de elefantes-marinhos, acho que não o conseguia fazer. Mas elas existem.”
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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