Aumento de Cancros Raros Entre Criaturas Marinhas

As descobertas mais recentes, sobre a forma como algumas doenças conseguem infetar espécies marinhas diferentes, estão a mudar a nossa visão do cancro.terça-feira, 19 de novembro de 2019

Há muito tempo, algures no Hemisfério Norte, um mexilhão da espécie Mytilus trossulus desenvolveu um cancro semelhante à leucemia. Começou com uma mutação numa só célula, que se copiou repetidamente e disseminou pela hemolinfa do mexilhão – um fluido com funções semelhantes às do sangue e linfa nos animais vertebrados.

Mas aparentemente o cancro fez algo inesperado: conseguiu infetar outros mexilhões pela água. Clonando-se repetidamente nos novos hospedeiros, o cancro continuou a proliferar e a infetar outros indivíduos.

Ainda mais estranho, a doença não se ficou pelos mexilhões desta espécie: agora foi encontrada noutras duas espécies de moluscos em extremos opostos do mundo: no mexilhão-comum, em França, e no mexilhão-do-chile, na Argentina e no Chile.

Esta descoberta, publicada no dia 5 de novembro na eLife, é a mais recente de uma série de estudos que revelam que o cancro transmissível é mais comum do que se pensava – sobretudo no oceano. Este novo campo de investigação pode ajudar-nos a compreender melhor como é que o cancro se desenvolve nos animais e nos humanos, para além de levantar o véu sobre a vida desconhecida destas criaturas marinhas.

"O facto de estar a cruzar duas espécies novas e diferentes é fascinante", diz Elizabeth Murchison, que estuda cancros transmissíveis na Universidade de Cambridge, "e também é preocupante". Para além da sua importância em termos ambientais, os mexilhões são o alimento preferido de diversas culturas – embora ainda não existam evidências de que a ingestão de moluscos infetados com algum tipo de cancro tenha impacto na saúde humana.

Terra e mar

Os cancros transmissíveis, que não ocorrem naturalmente nos humanos, foram reconhecidos pela primeira vez nos animais terrestres nas últimas décadas. Em 2006, investigadores descobriram que o tumor facial que infeta o diabo-da-tasmânia (animal em perigo de extinção na Austrália), se pode disseminar quando os animais se mordem uns aos outros no seu comportamento natural. Desde então, mais de 80% dos animais foram infetados ou morreram, e existe um segundo cancro transmissível, muito semelhante, que também está a dizimar a espécie.

Também em 2006, os cientistas descobriram que os cães domésticos podem disseminar tumores venéreos, que provocam o aparecimento de massas cancerígenas nos órgãos genitais. Tal como acontece com todos os cancros transmissíveis, as células são idênticas e, no caso dos cães, derivam de um único canino que viveu há cerca de 11.000 anos.

Estas descobertas alteram completamente a nossa perceção do cancro – pensava-se que o cancro estava confinado a mutações celulares nos indivíduos. Embora existam vários tipos de vírus nocivos que conseguem abrir caminho para o cancro, como o papilomavírus humano (HPV) ou o vírus da leucemia felina nos gatos domésticos, a descoberta de que as células cancerígenas individuais se podem espalhar entre uma população é chocante.

Na última década, os investigadores descobriram mais uma série de cancros que infetam moluscos. Michael Metzger, autor principal do novo artigo e investigador no Instituto de Pesquisa Pacific Northwest, em Seattle, identificou vários cancros, incluindo um numa população de mexilhões da Colúmbia Britânica, o supracitado Mytilus trossulus.

Há cerca de dois anos, Michael começou a colaborar com laboratórios em França e na Argentina, onde descobriram um novo tipo de cancro nas populações locais de mexilhões; quando vistas ao microscópio, estas células cancerígenas destacam-se devido à sua aparência estranhamente arredondada. E apesar de Michael Metzger acreditar que se tratavam de cancros diferentes, o cancro era o mesmo: as doenças no mexilhão-comum (Mytilus edulis) e no mexilhão-do-chile (Mytilus chilensis) eram idênticas – e claramente derivadas do Mytilus trossulus, porque as células cancerígenas têm a assinatura genética dessa espécie.

Mas os mexilhões Mytilus trossulus vivem apenas no Hemisfério Norte, ao longo da costa da América do Norte e da Europa. (O cancro também era diferente de outro tipo identificado anteriormente pela equipa de Metzger no M. trossulus.)

Nenhum destes mexilhões vive em áreas equatoriais; portanto, a doença deve ter alcançado os trópicos através de navios ou foi arrastada pela água de lastro, explica Metzger.

"O facto de este cancro se ter espalhado por um oceano inteiro é muito intrigante”, diz Elisabeth, que não participou no artigo da eLife. "Acho que devíamos prestar mais atenção ao potencial de propagação destes cancros devido à atividade humana."

Disseminação

Também foram encontrados cancros transmissíveis semelhantes – que infetam a hemolinfa – em amêijoas de casca mole da espécie Mya arenaria e em berbigões, outro tipo de marisco abundante por toda a Europa, incluindo a espécie Cerastoderma edule. Michael e a sua equipa também descobriram que o cancro que infetava as amêijoas Polititapes aureus surgiu pela primeira vez em amêijoas-machas, um molusco semelhante também encontrado na Europa Ocidental.

Estas foram as primeiras evidências de que estes cancros conseguem saltar entre espécies. Mas as descobertas mais recentes são ainda mais extraordinárias, pois o cancro espalhou-se por duas novas espécies.

“Apesar de estes mexilhões serem intimamente ligados, podendo partilhar vulnerabilidades semelhantes, não sabemos qual é a barreira", diz Metzger. É provável que as células cancerígenas se espalhem porque são libertadas e absorvidas pelos moluscos quando filtram os detritos pelos seus corpos, uma função normal da sua biologia. E saber como é que a doença prolifera ainda é um mistério.

Para já, o cancro não parece ser devastador para as populações de moluscos, embora muitas vezes seja fatal para os indivíduos infetados. Metzger diz que o cancro recém-descoberto nos mexilhões-comuns e chilenos infetou cerca de 10% da população local.

“Neste momento, não conhecemos realmente as proporções desta ameaça, mas aparentemente não está a dizimar as populações de mexilhões.”

Preocupações ecológicas

Estas espécies são muito comuns e comercialmente também são importantes, sendo geralmente consumidas por pessoas e por outras espécies animais. E apesar de, aparentemente, estes cancros serem inofensivos para os humanos, os cientistas temem que possam afetar seriamente outras espécies – estas doenças só começaram a ser identificadas recentemente, pelo que a sua prevalência pode ser muito maior.

"Estou muito preocupado com a ecologia", diz Jose Tubio, que estuda estes tipos de cancros transmissíveis no Centro de Investigação de Medicina Molecular e Doenças Crónicas em Espanha. A equipa de Tubio recebeu financiamento do Conselho Europeu de Investigação para identificar novos tipos de cancro, tendo já identificado 5 cancros novos e únicos em berbigões – investigação ainda por publicar.

“É provável que muitas espécies bivalves tenham os seus próprios cancros transmissíveis, mas ainda não sabemos quais são os impactos”, diz Tubio.

Beata Ujvari, investigadora na Universidade Deakin, em Victoria, na Austrália, diz que o cancro pode ser mais uma ameaça à vida marinha, exacerbado pelas alterações climáticas que reduzem os níveis de oxigénio e aumentam as temperaturas nos oceanos – as condições ideais para as células cancerígenas.

O movimento intencional ou acidental de moluscos entre áreas pode introduzir novos tipos de cancro com impactos graves, acrescenta Tubio.

O cancro surge geralmente de uma mutação nas células de um corpo e, se o sistema imunitário não o identificar e destruir, pode transformar-se num tumor. Mas na maioria das vezes, um tumor sozinho não é mortal – normalmente, o cancro é mortífero porque se espalha pelo corpo, processo conhecido por metástase.

“Mas nestes casos, parece que as metástases se estendem para além de um único hospedeiro”, diz Elisabeth.

“Compreender como é que as células cancerígenas sobrevivem ao transporte... pode desvendar os segredos das metástases das células cancerígenas”, diz Ujvari.

"Estudar os mecanismos subjacentes pode contribuir para nossa compreensão geral da fuga imunitária ao cancro, algo que pode ter aplicações para todas as espécies afetadas pela doença – incluindo humanos.”

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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