Animais

Cemitérios: Fonte Surpreendente de Vida

Os cemitérios transformaram-se em refúgios urbanos para plantas e animais – como uma nova espécie de besouro descoberta na cidade de Nova Iorque.segunda-feira, 4 de novembro de 2019

Em Nova Iorque, o Cemitério Green-Wood tem 7000 árvores de mais de 700 espécies diferentes, tornando-o um paraíso para a biodiversidade na selva urbana.
Em Nova Iorque, o Cemitério Green-Wood tem 7000 árvores de mais de 700 espécies diferentes, tornando-o um paraíso para a biodiversidade na selva urbana.

No coração de Brooklyn, em Nova Iorque, um dos lugares mais densamente povoados do planeta, os investigadores descobriram uma nova espécie animal: um besouro cintilante, mais pequeno do que um grão de arroz, com um exoesqueleto verde e vermelho.

Marc DiGirolomo, técnico de biologia no Serviço Florestal dos EUA, encontrou o inseto no Cemitério Green-Wood, que tem 193 hectares de túmulos e vegetação e vistas deslumbrantes sobre a parte baixa de Manhattan. O besouro, que perfura madeira, foi descoberto numa faia europeia.

Besouro desconhecido da ciência encontrado no Cemitério Green-Wood.
Besouro desconhecido da ciência encontrado no Cemitério Green-Wood.

"Não esperávamos encontrar algo novo para a ciência", diz Marc, que encontrou a nova espécie enquanto fazia um estudo de identificação de insetos para o Departamento de Agricultura dos EUA (USDA).

Uma das razões que levou o USDA a fazer o estudo em Green-Wood foi a sua elevada concentração de plantas nativas, não nativas e raras. O cemitério tem 7000 árvores de mais de 700 espécies diferentes, estando assim repleto de insetos e animais maiores. Esta biodiversidade não existe por acaso: a equipa de horticultura de Green-Wood trabalha o ano inteiro para plantar e manter uma enorme variedade de plantas, árvores e arbustos, conquistando o estatuto de Arboreto Credenciado Nível III para o cemitério – só existem 29 no mundo.

Mas muito antes de Green-Wood receber estas credenciais em 2015, o cemitério já era um refúgio para os mortos e para os vivos, incluindo uma enorme variedade de plantas e animais. E o Cemitério de Green-Wood não está sozinho. Há quase 200 anos que muitos dos cemitérios dos EUA são um repositório de biodiversidade urbana, lar de espécies inesperadas, algumas belas e até desconhecidas.

Eis como tudo começou...

Ao início
Em meados do século XIX, os cemitérios americanos não eram bonitos. Na época, os colonos enterravam os seus mortos da mesma forma que os europeus, nos cemitérios das igrejas. Em cidades como Nova Iorque, cujas populações dispararam no início de 1800, estes pequenos lotes foram invadidos por cadáveres. Os habitantes queixavam-se de odores pungentes e as cenas horríveis de caixões enterrados superficialmente, colocados a descoberto com as fortes chuvadas, eram comuns.

Antes de os cientistas compreenderem como é que os germes se espalhavam, culpavam o “ar mau” por muitas das doenças que, especulavam eles, emanavam dos cemitérios. Estes lugares desagradáveis ficaram sob um forte escrutínio por parte dos médicos e habitantes.

A infraestrutura funerária não foi a única que não conseguiu acompanhar o aumento da população: não existia um sistema formalizado para o lixo, os esgotos corriam a céu aberto e as doenças disseminavam-se facilmente. E também não existiam muitos espaços de lazer. Na altura, os EUA não tinham grandes parques ou jardins.

Em 1831, Henry Dearborn, político de Massachusetts, fez uma parceria com o médico e botânico Jacob Bigelow e com o arquiteto paisagista Alexander Wadsworth para criar o Cemitério Mount Auburn. Este cemitério enorme nos arredores de Boston criou uma área mais espaçosa para os mortos, para além de proporcionar um local agradável para os vivos. Em Mount Auburn, os mortos eram enterrados, mas também se plantavam árvores.

O Cemitério Père-Lachaise, em Paris, é um dos lugares mais famosos do mundo e um dos mais visitados da capital francesa, em parte porque muitas das pessoas aqui enterradas são de renome internacional.
O Cemitério Père-Lachaise, em Paris, é um dos lugares mais famosos do mundo e um dos mais visitados da capital francesa, em parte porque muitas das pessoas aqui enterradas são de renome internacional.

Nos EUA, os fundadores do “movimento cemitério rural” inspiraram-se em Paris. Depois de um cemitério sobrelotado do século XVIII ter colapsado e entrado pelas paredes de uma cave, os arquitetos e urbanistas decidiram que estava na hora de uma nova abordagem. Em 1804, abriram o agora famoso Cemitério Père-Lachaise, um cemitério parecido com um jardim na então periferia da cidade. Hoje, os seus 44 hectares de árvores e colinas são o lugar de descanso de estrelas como Gertrude Stein, Jim Morrison e Oscar Wilde.

Os fundadores do Cemitério Mount Auburn usaram este exemplo para construir o seu jardim de túmulos longe do calor, dos odores e das multidões do centro urbano de Boston, mas perto o suficiente para ser visitado.

Seis anos depois da criação de Mount Auburn, um nova-iorquino abastado, chamado Henry Evelyn Pierrepont, deu continuidade a esta tendência. Tirando partido da depressão financeira conhecida por Pânico de 1837, começou a comprar lotes em Brooklyn. No ano seguinte, abriu o Cemitério Green-Wood. Localizado no ponto natural mais alto da cidade, este espaço servia para os enterros, mas também era uma espaço de renovação – oferecia passeios à sombra das árvores e vistas impressionantes.

“Na cidade de Nova Iorque, não existiam parques decentes”, diz Jeff Richman, historiador do Cemitério Green-Wood. Não existia o Central Park, nem o Jardim Botânico de Nova Iorque, ou o Museu Metropolitan. "Onde é que as pessoas podiam passar os seus dias de folga? Iam passear para Green-Wood.”

Nos EUA, na década de 1850, o Cemitério Green-Wood só era ultrapassado em popularidade pelas Cataratas do Niágara. O cemitério chegou a ter a sua própria força policial para manter os enlutados e os turistas em harmonia.

A entrada do Cemitério Green-Wood, fotografada em 1880.
A entrada do Cemitério Green-Wood, fotografada em 1880.

Os visitantes vinham pela arte, pelos monumentos, para visitar os seus entes queridos e para desfrutar dos exuberantes espaços verdes.

"No virar do século, muitos destes cemitérios eram os locais de introdução de novas espécies de árvores na América do Norte", diz Joe Charap, diretor de horticultura do Cemitério Green-Wood. As ruas do cemitério tinham nomes que faziam referência a estas espécies e a outras belezas naturais: Avenida Sassafras, Avenida Abeto, Avenida Crocus. O design foi pensado para criar um ambiente romântico e silvestre –  o oposto da cidade. "Eles queriam que sentíssemos que estávamos em comunhão com a natureza", diz Richman.

Um homem a descansar debaixo de uma árvore, em Green-Wood, numa imagem criada depois de 1850. Na década de 1850, o Cemitério Green-Wood era a segunda maior atração turística dos EUA, a seguir às Cataratas do Niágara.
Um homem a descansar debaixo de uma árvore, em Green-Wood, numa imagem criada depois de 1850. Na década de 1850, o Cemitério Green-Wood era a segunda maior atração turística dos EUA, a seguir às Cataratas do Niágara.

Green-Wood também inspirou alguns dos parques mais famosos de Nova Iorque. Numa dissertação de 1848, Andrew Jackson Downing, famoso arquiteto paisagista e um dos designers do Central Park, escreveu: “A julgar pela multidão de pessoas em carroças e a pé, que lotam constantemente Green-Wood e Mount Auburn, parece óbvio que os nossos cidadãos de todas as classes desfrutariam muito mais de parques públicos com uma escala semelhante.”

Mas a diversidade de plantas era o grande apelo. "De facto, estes cemitérios são os únicos lugares no país que podem dar a um americano que nunca viajou uma ideia da beleza de muitos dos parques e jardins públicos que existem no estrangeiro", escreveu Downing na época.

Antes dos parques
Em muitas cidades dos EUA, estes cemitérios enormes, parecidos com jardins, foram os primeiros espaços verdes acessíveis ao público, antecedendo os parques e os departamentos de horticultura universitários. Muitos cemitérios também já existiam antes do USDA fazer os mapas das Zonas de Resistência, que informavam os jardineiros sobre o tipo de plantas e de plantações a cultivar consoante as regiões climáticas do país.

Portanto, como é que os gestores dos cemitérios adquiriram os seus conhecimentos sobre horticultura? A partir de 1887, a recém-formada Associação de Superintendentes dos Cemitérios Americanos começou a fazer conferências anuais, onde se passava muito tempo a conversar sobre plantas. Os superintendentes descreviam quais eram as espécies que podiam crescer com sucesso e ajudavam as pessoas a determinar quais eram as plantas propícias para cada região. E também abordavam técnicas de cultivo, com muitos debates empolgantes sobre como evitar adequadamente as infestações de vermes e recomendavam espécies de árvores decorativas recém-introduzidas de países distantes.

“Estas conversas eram sempre sobre diversidade, sobre tentar algo novo”, diz Paul Aarestad, diretor paisagístico do Cemitério Lakewood, em Minneapolis, que coleciona folhetos destas reuniões iniciais.

Tal como o Cemitério Green-Wood, também Lakewood começou mais de uma década antes dos grandes parques e atraiu muitos visitantes com os seus jardins meticulosamente plantados. Hoje, Paul faz a gestão dos 100 hectares de Lakewood, que abrigam cerca de 3000 árvores, e colhe quase 100.000 flores todos os anos na estufa do cemitério – em funcionamento desde 1888. Paul encara o seu trabalho de plantio como uma continuação dos esforços dos primeiros horticultores de cemitérios.

Do passado ao presente
Ao longo do tempo, muitas das cidades expandiram-se e rodeiam agora os seus cemitérios – outrora na periferia – facilitando o acesso aos habitantes da cidade. Muitos cemitérios, como Lakewood e Green-Wood, continuaram a expandir-se como parques públicos, criando jardins cada vez mais belos e variados.

O papel de oásis verde, no meio das selvas de betão, juntamente com a arquitetura distinta, faz com que os cemitérios se posicionem de forma única enquanto viveiros de biodiversidade urbana. Nas catacumbas seladas do enorme Cemitério Highgate de Londres foi encontrada uma espécie de aranha rara – que depende da escuridão total para sobreviver. Neste cemitério, foram encontradas cerca de 100 aranhas desconhecidas a viver entre os mortos. E há 5 cinco anos, foi descoberta uma população de salamandras Plethodon cinereus escondida no Cemitério de Green-Wood.

E quando Marc DiGirolomo descobriu o besouro invulgar no cemitério, usou uma "chave taxonómica" para o identificar. Estas chaves orientam os cientistas através de uma série de características como coloração, segmentação corporal e hospedeiro. Marc esgotou todas as descrições disponíveis e verificou o trabalho duas vezes, mas não conseguiu identificar a criatura. Mas sabia que era um tipo de besouro que pertence a um grupo de insetos perfuradores de madeira.

O Lago Silver no Cemitério Green-Wood. O cemitério foi projetado para criar um ambiente romântico e silvestre.
O Lago Silver no Cemitério Green-Wood. O cemitério foi projetado para criar um ambiente romântico e silvestre.

Marc enviou um email aos seus colegas pelo mundo inteiro para ver se tinham encontrado algo semelhante. Mas o besouro era desconhecido da ciência e foi provisoriamente denominado Agrilus sp. 9895. Para além do seu exoesqueleto colorido, este besouro também tem uma testa notável – verde nos machos e vermelha nas fêmeas. Os machos têm órgãos genitais únicos, diferentes dos de todas as espécies conhecidas. Mas este artrópode que vive num cemitério é mais parecido com as espécies europeias e, até agora, só foi encontrado nas faias europeias de Green-Wood, levando os cientistas a acreditar que o animal migrou para os EUA.

Este tipo de migração não é invulgar: suspeita-se que muitos dos insetos não nativos possam viajar acidentalmente à boleia do comércio global. Muitos dos besouros que perfuram madeira passam grande parte das suas vidas sob a forma de larvas, dentro de uma árvore, dificultando a sua deteção. As árvores são cortadas pela sua madeira e transformadas em paletes, e as paletes são transportadas pelos oceanos.

Foi a proximidade de Green-Wood com um dos principais portos (e a sua biodiversidade) que levou o USDA a selecionar o cemitério para o estudo. O objetivo deste estudo é ajudar a identificar os insetos potencialmente invasivos. Apesar dos regulamentos mais apertados, que exigem que a madeira seja fumigada ou tratada termicamente, algumas larvas sobrevivem à viagem transoceânica. E quando estas criaturas emergem, podem provocar danos a árvores que não estão preparadas para as receber, pois escavam túneis por baixo da casca e dificultam a passagem de água e seiva.

Para já, o novo besouro não parece ser perigoso, mas os investigadores têm bons motivos para estar atentos. Nos EUA, desde o início dos anos 2000, dezenas de milhões de árvores, desde a costa leste ao centro-oeste, sucumbiram a um besouro invasivo diferente – que foi introduzido nos EUA vindo da China, e atingiu gravemente cemitérios como Green-Wood e Lakewood. Os arboristas de Green-Wood não querem que isto se repita com as faias europeias, que têm mais de um século e são parte integrante da paisagem.

"Estas faias são belas", diz Sara Evans, gerente de projetos de paisagismo e design de Green-Wood. “A casca destas faias parece a pele de um elefante.” As árvores suscitam admiração em Evans, e foram plantadas para fazer exatamente isso. Mas existe outra razão pela qual esta espécie europeia foi selecionada. A faia europeia cresce muito mais depressa do que a faia americana.

E isto faz sentido: os primeiros gerentes de cemitérios concentravam-se na biodiversidade, mas também procuravam eficácia e beleza, o que significava que muitas vezes plantavam áreas enormes só com um tipo de árvore, geralmente uma variedade exótica de crescimento rápido. Porém, estes métodos de monocultura são vulneráveis.

Nos últimos anos, os cemitérios como Green-Wood têm diversificado as suas plantas para promover o fator resistência, algo que é ainda mais importante no contexto das novas ameaças às árvores – possibilitadas pelo comércio global e pelo aumento das temperaturas que permite migrações de pragas para norte, diz Sara. E tal como os primeiros gerentes dos cemitérios faziam nas suas reuniões, os funcionários de cemitérios como Green-Wood também continuam a reunir e a partilhar os seus conhecimentos sobre biologia – para o bem das paisagens públicas.
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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