Ébola: Gorilas em Perigo

A disseminação do vírus entre gorilas-do-oriente, uma subespécie ameaçada de extinção, pode ser um fator catastrófico para a sua sobrevivência.quinta-feira, 28 de novembro de 2019

No início dos anos 2000, um terço da população global de gorilas-do-oriente, uma subespécie em perigo crítico de extinção, pode ter sido exterminada pelo Ébola. Agora, os gorilas-das-montanhas e os gorilas-de-grauer também podem estar em risco.

Embora o atual surto de febre hemorrágica viral na região oriental da República Democrática do Congo (RDC) não tenha transbordado para os grandes símios, os grupos de conservação estão em alerta máximo. Em agosto de 2018, quando surgiram notícias de que um caso de Ébola tinha sido confirmado na província de Kivu do Norte, na RDC, os grupos de conservação intensificaram os esforços de observação e monitorização dos gorilas-das-montanhas e de Grauer na região.

"Assim que o Ébola é identificado dentro de uma população local de gorilas, as consequências são sempre catastróficas", diz Peter Walsh, ecologista de primatas que trabalhou no desenvolvimento de uma vacina contra o Ébola para primatas na Universidade de Cambridge. (O que é o Ébola? Pode ser travado?)

Proteger os gorilas é uma tarefa perigosa por si só. O Parque Nacional de Virunga, na RDC, abriga uma das maiores populações de gorilas-das-montanhas remanescentes. Nos últimos 20 anos, mais de 170 guardas florestais morreram no cumprimento do dever, incluindo um, em março deste ano, às mãos de grupos rebeldes armados e milícias locais.

Ébola nos gorilas
Na região leste da RDC, a fatura humana do Ébola continua a aumentar. No dia 5 de novembro, a Organização Mundial de Saúde confirmou 2185 mortes desde que o surto foi declarado há 15 meses. Os avanços nas vacinas, a consciencialização e os melhoramentos nos protocolos de contenção significam que a taxa de mortalidade humana diminuiu drasticamente desde que o primeiro surto foi registado em 1976: agora ronda os 50%.

Alguns surtos devastaram populações de primatas, um grupo que inclui chimpanzés, macacos e gorilas. E apesar de não existirem dados em concreto, a mortalidade documentada nas populações de gorilas é particularmente alarmante.

"O impacto é um bocado tudo ou nada: zonas com 90 a 95% de mortalidade podem estender-se ao longo de centenas ou até milhares de quilómetros", diz Walsh.

Em 2002 e 2003, durante um surto da vertente Ebolavírus Zaire, na fronteira entre o Congo e o Gabão, morreram 130 dos 143 gorilas que os investigadores estavam a observar. Durante o mesmo período, noutro surto um pouco mais a sul, morreram 91 dos 95 gorilas. Muitos dos corpos, que só foram descobertos mais tarde, foram analisados e acusaram positivo para a presença do vírus.

Walsh diz que a disseminação do patógeno nas populações de gorilas parece imitar a sua evolução entre os humanos – as principais diferenças são a densidade populacional e a capacidade de intervenção médica. Os gorilas não conseguem explicar os sintomas que sentem, muito menos restringirem-se a algo que se assemelhe a uma quarentena, resultando numa taxa de mortalidade muito mais elevada.

"Não sabemos exatamente como é a infeção (Ébola) num gorila selvagem, porque os surtos que afetaram os grandes símios selvagens na África Ocidental só foram descritos após a ocorrência das mortalidades", diz Amy Bond, porta-voz da Gorilla Doctors, uma organização veterinária sem fins lucrativos que protege e cuida de gorilas na RDC, no Ruanda e no Uganda.

O Ébola é apenas mais uma ameaça, entre muitas outras, enfrentada pelos gorilas da região. De acordo com a União Internacional para a Conservação da Natureza, os gorilas-das-montanhas e os gorilas-de-grauer, ambas subespécies do gorila-do-oriente, têm populações a rondar os 1000 e 3800, respetivamente. A perda de habitats, devido à agricultura, mineração ilegal e desflorestamento para fazer carvão, afetou gravemente os animais. Os gorilas ficam muitas vezes presos em armadilhas feitas para outros animais. As alterações climáticas também são uma ameaça: embora os gorilas sejam adaptáveis, movendo-se para elevações mais altas para se adaptarem às temperaturas mais quentes, essas áreas já são densamente povoadas e quase não têm floresta.

Monitorizar de perto
Amy Bond diz que, nos Parques Nacionais de Virunga e Kahuzi-Biega, os veterinários estão a monitorizar os gorilas. Cerca de 60% dos gorilas-das-montanhas que vivem na natureza estão habituados à presença de humanos devido às equipas de conservação, aos turistas e aos investigadores que os observam regularmente, facilitando assim a monitorização.

"Qualquer coisa fora do normal é devidamente documentada, sejam lesões óbvias, dificuldades respiratórias, tosse, corrimentos oculares ou nasais, diarreia, letargia ou dificuldades na alimentação,” disse Amy.

“Quando um gorila demonstra sinais de doença, os médicos da Gorilla Doctors relatam o caso imediatamente às autoridades do parque e tomam uma decisão conjunta sobre a intervenção.” Um porta-voz do Parque Nacional de Virunga disse que a família de gorilas seria isolada e colocada sob vigilância veterinária, 24 horas por dia, 7 dias por semana. Para proteger a segurança dos funcionários, só as pessoas vacinadas contra o vírus seriam envolvidas nestas ações.

Gorilas em perigo
Com esta monitorização rigorosa, qualquer surto é passível de ser rapidamente identificado, ao contrário do que acontece com os surtos em populações selvagens não habituadas às pessoas. Porém, o facto de estes gorilas não terem receio de humanos, coloca-os em risco exclusivo de exposição – através do contacto direto com fluidos corporais.

Os médicos da Gorilla Doctors e os funcionários do parque intensificaram os seus esforços para garantir que os trabalhadores florestais, e as suas famílias, estão cientes de como funciona a transmissão de doenças zoonóticas – transmissão de uma infeção de humanos para animais ou vice-versa. Existem medidas adicionais de saneamento – que já de si eram rígidas, porque os gorilas podem ficar infetados com todos os tipos de doenças dos humanos – e interdições para os funcionários não visitarem áreas com casos relatados de Ébola, disse o porta-voz do parque de Virunga.

Tal como acontece com os humanos, uma das formas pelas quais a doença se pode disseminar entre uma população de gorilas é através do luto. Apesar de os cientistas não conseguirem confirmar se os gorilas choram realmente os seus mortos, o comportamento demonstrado por alguns gorilas é muito semelhante. Sabe-se que, quando os gorilas se despedem de um ente querido, ou até de um desconhecido, tocam no seu corpo, preparam-no e chegam até a lambê-lo.

Fabian Leendertz, especialista de renome mundial em doenças de primatas e diretor do Laboratório Leendertz, em Berlim, refere a dinâmica humana presente neste surto como uma ameaça potencial de transmissão entre espécies. Com a desconfiança crescente da qual as autoridades de saúde são alvo, o risco de pessoas infetadas se esconderem em áreas povoadas por primatas é ainda maior, diz Fabian.

E a estrutura social dos gorilas gira em torno do macho alfa, ou seja, caso este adoeça ou morra, as fêmeas partem em busca de novos companheiros – criando novos vetores de infeção.

Vacinas ajudam?
Walsh acredita que uma das melhores formas de proteger os gorilas do Ébola é a vacinação proativa, algo que este ecologista tem pedido repetidamente. Walsh diz que o Ébola representa uma ameaça existencial para as populações de gorilas, para além das doenças respiratórias mais comuns, às quais os primatas são particularmente suscetíveis.

“A perceção comum é a de que a vacinação é perigosa, dispendiosa e tecnicamente impossível, mas factualmente isto está errado”, diz Walsh, observando, por exemplo, que foram vacinados milhões de animais de pequeno porte contra a raiva, incluindo gorilas-do-oriente vacinados contra o sarampo, que não apresentaram efeitos negativos.

Apesar de Fabian Leendertz não encarar a vacinação proativa como uma medida prática ou realista para todas as espécies de gorilas, admite que os gorilas-das-montanhas se adaptavam bem a um programa de vacinação.

“Grande parte da população de gorilas-das-montanhas está habituada a humanos, o que significa que nos podemos aproximar deles. Seria muito fácil aplicar um dardo com a vacina contra o Ébola. O problema é que, quando temos Ébola numa população de gorilas, já é tarde demais. A vacina precisa de algum tempo para surtir efeito.”
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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