Por que Razão as Avós Orcas Vivem Tanto Tempo?

As orcas fêmeas têm menopausa, vivendo até aos 90 anos – um mistério de longa data. Agora, um novo estudo sugere que existe uma razão para isso.

Friday, December 20, 2019,
Por Carrie Arnold
Uma família de orcas emerge no noroeste do Pacífico.
Uma família de orcas emerge no noroeste do Pacífico. Estes animais trabalham em conjunto para caçar.
Fotografia de KENNETH BALCOMB, CENTER FOR WHALE RESEARCH

A orca é um dos poucos mamíferos conhecidos que tem a menopausa. Até agora, não se sabia porquê, mas as novas investigações sugerem um motivo: as avós aumentam as probabilidades de sobrevivência dos seus netos.

Os cientistas que analisaram décadas de dados sobre populações de orcas no noroeste do Pacífico descobriram que as crias de orcas que têm avós são mais propensas a sobreviver do que as outras. Para além disso, o risco de morte de uma cria aumenta dramaticamente durante os dois anos seguintes à morte da avó. Como as sociedades de orcas são matriarcais, é provável que estas fêmeas mais velhas tenham adquirido conhecimentos essenciais sobre recursos alimentares, fator que pode significar a diferença entre a vida e a morte dos seus familiares.

"A sapiência e liderança de uma avó orca, sobretudo em tempos difíceis, ajudam as crias a sobreviver", diz o autor do estudo, Dan Franks, ecologista evolucionário na Universidade de York, no Reino Unido.

As orcas vivem em grupos familiares de até 40 indivíduos, desde as regiões polares até ao Equador. Estes predadores trabalham em conjunto para caçar uma variedade de presas, sejam peixes ou baleias, dependendo de onde vivem. Geralmente, as orcas macho e fêmea permanecem nas suas regiões nativas durante a vida inteira, embora ambos os sexos procurem parceiros de outras regiões para evitar a consanguinidade. As fêmeas deixam de reproduzir por volta dos 40 anos e podem viver até aos 90, enquanto que os machos têm uma esperança média de vida a rondar os 50 anos.

Embora as orcas estejam classificadas com a designação “dados insuficientes” pela União Internacional para a Conservação da Natureza, as suas populações estão em declínio – incluindo as orcas no noroeste do Pacífico que são as orcas mais estudadas no mundo. A exposição a produtos químicos tóxicos conhecidos por PCB, a queda das populações das suas principais fontes de alimentação, como o salmão, e a poluição sonora dos grandes navios são fatores que contribuem negativamente para a subsistência destes animais.

É por isso que este estudo, publicado no dia 9 de dezembro na Proceedings of the National Academy of Sciences, é uma evidência poderosa para os defensores da natureza protegerem as orcas de tais ameaças, diz Dan Franks.

"A morte de uma avó pós-menopausa tem um impacto enorme no grupo familiar, daí a sua importância em termos de conservação."

"É um trabalho realmente importante", acrescenta Janet Mann, especialista em comportamento animal na Universidade de Georgetown, em Washington. "E isto é apenas um vislumbre do que estas avós estão a fazer."

Explicar a menopausa
A menopausa intriga os cientistas há muito tempo. Geralmente, a esperança média de vida de uma mulher é mais longa do que a de um homem, e as mulheres continuam a viver muitos anos depois de poderem ter filhos, ao passo que os homens podem procriar até à hora da morte.

“Os machos não têm menopausa. Conseguem ter descendentes, mesmo até ao fim”, diz Janet.

Para os machos, em termos evolutivos, faz sentido – mas para uma fêmea, viver mais 40 anos para além da sua capacidade de reproduzir, nem por isso, diz Janet.

Aparentemente, a seleção natural dá prioridade à capacidade de uma fêmea ter o maior número possível de crias e deixar de reproduzir muito antes de a velhice poder interferir no processo.

VEJA 13 FOTOGRAFIAS DE ORCAS

Os biólogos evolucionários desenvolveram várias hipóteses que podem explicar este dilema. Por um lado, a menopausa pode ajudar a impedir que as avós e mães disputem recursos escassos necessários para alimentar as crias. Dar à luz em idades mais avançadas também pode ser arriscado, colocando em perigo não apenas a mãe e a cria, como as crias já existentes.

Depois, temos a hipótese da avó que foi popularizada pela antropóloga americana Kristen Hawkes e pelo seu trabalho feito com os Hadza, um grupo moderno de caçadores-coletores da Tanzânia. O trabalho de Kristen argumenta que as avós aumentam as probabilidades de sobrevivência dos seus netos, complementando a alimentação com cuidados.

Esta teoria é suportada por vários estudos, incluindo uma análise de 2004 feita com finlandeses e canadianos que mostrou que as crianças com avós tinham muito mais probabilidades de atingir a idade adulta.

As avós são importantes
Intrigados por esta investigação feita com humanos, Franks e os seus colegas queriam descobrir se este efeito também se verificava nas orcas. Os cientistas analisaram mais de 40 anos de conjuntos de dados com detalhes sobre nascimentos, mortes e vários eventos da vida de duas populações de orcas que nadam nas costas do estado de Washington e da Colúmbia Britânica.

Ao todo, a equipa analisou a taxa de sobrevivência de 378 “netos” e descobriu que o risco de morte de uma cria era menor quando a avó deixava de reproduzir, e quando a cria era do sexo masculino. Franks diz que as orcas pós-menopáusicas podem ser capazes de dedicar mais recursos aos seus netos, o que significa que as mortes eventuais das avós são particularmente devastadoras; o fator masculino é outro mistério.

O risco também é mais elevado quando as populações de salmão são baixas ou moderadas, sugerindo que as avós são mais úteis em tempos de escassez.

“Sabemos que estas orcas lideram o seu grupo familiar em busca de áreas de alimentação, sobretudo em tempos de necessidade, e sabemos que partilham as suas capturas de salmão com os netos”, diz Franks. “Mas suspeitamos que existe mais para descobrir sobre a forma como estas avós mantêm as suas famílias.”

“Mas com as populações de orcas do noroeste do Pacífico em declínio, podemos nunca vir a descobrir”, diz Janet.

“Estamos a perder uma oportunidade para compreender como é que a menopausa está a evoluir, e a culpa é nossa.”
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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