7 Vitórias da Vida Selvagem em 2019

Proteções mais fortes no comércio, novas crias de vaquitas e outras histórias de sucesso na luta contra os crimes de vida selvagem.

Thursday, January 9, 2020,
Por Rachel Fobar
O ano que agora findou marcou um ponto de transição onde se tornou mais difícil para ...
O ano que agora findou marcou um ponto de transição onde se tornou mais difícil para os países africanos enviarem os seus elefantes selvagens para zoos fora do continente.
Fotografia de Beverly Joubert, Nat Geo Image Collection

Quanto se trata de vida selvagem e conservação, é difícil ficar otimista. Em 2019, a girafa-masai foi declarada ameaçada, os incêndios na Amazónia ceifaram jaguares, tartarugas e outros animais selvagens, e investigadores que acompanhavam chitas no Irão foram acusados de espionagem e condenados a anos de prisão. Acredita-se que a demanda por animais selvagens e produtos derivados – como tartarugas de estimação, ossos de leão, cachecóis feitos a partir de lã de antílopes tibetanos raros e não só – esteja a aumentar. E o alegado cabecilha das redes de caça furtiva, Bach "Boonchai" Mai, que foi acusado de contrabandear chifres de rinoceronte, foi libertado depois de uma testemunha-chave se ter retirado do caso.

Mas, com a ajuda dos conservacionistas e defensores dos animais, também assistimos a histórias de sucesso, sobretudo quando se trata de proteger a vida selvagem do crime e da exploração. Eis algumas conquistas da vida selvagem em 2019.

Na conferencia mundial sobre o tráfico de vida selvagem foram protegidas mais espécies. Nove animais receberam proteções do comércio internacional e mais de 130 espécies receberam, pela primeira vez, proteções na reunião de 2019, em Genebra – na Convenção sobre o Comércio Internacional de Espécies da Fauna e da Flora Selvagem Ameaçadas de Extinção (CITES), o acordo global que regula o comércio transfronteiriço de animais selvagens. As girafas e os tubarões-anequim, respetivamente listados como vulneráveis e em perigo pela União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN) – a autoridade global sobre o estatuto de conservação das espécies – foram dois dos animais que viram as suas proteções reforçadas. Nenhuma destas proteções pode ser negociada, a não ser que se demonstre que isso não ameaça a sobrevivência das suas populações na natureza. Embora uma proteção mais forte aos animais signifique que o comércio afetou gravemente estas espécies, também pode incentivar os governos a fazer algo mais para as proteger.


Crias de vaquita avistadas ao largo da costa do México. As vaquitas, as toninhas mais pequenas do mundo, ficaram à beira da extinção, restando cerca de 10 indivíduos no total – mas em novembro, os cientistas avistaram mães com crias no Golfo da Califórnia. As vaquitas são danos colaterais do mercado lucrativo da medicina tradicional. Os pescadores ancoram redes de emalhar no fundo do oceano para capturar peixes chamados totoaba, cujas valiosas bexigas são comercializadas ilegalmente na China para tratar doenças como a artrite. As vaquitas precisam de respirar à superfície, mas ficam presas nas redes e sufocam. "Enquanto restarem alguns animais, há esperança", disse Eva Hidalgo no início de 2019 à National Geographic – Eva é coordenadora científica do grupo de conservação marinho Sea Shepherd. "Precisamos de dar o nosso melhor para garantir que têm uma possibilidade para recuperar, não importa quão pequena seja essa possibilidade."

Seguros de saúde chineses já não cobrem comércio de escamas de pangolim. Em agosto, o governo chinês anunciou que os fundos destinados aos seguros de saúde não iriam cobrir mais a medicina tradicional que recorre a escamas de pangolim – usadas para tratar problemas de lactação e má circulação. Todas as oito espécies destes mamíferos escamosos, que parecem papa-formigas, estão em perigo de extinção. De acordo com a ONG China Biodiversity and Green Development Foundation, as suas escamas são usadas em mais de 60 curativos produzidos comercialmente. O Seguro Médico Nacional e o Departamento de Segurança Social também anunciaram que os produtos derivados de tartarugas-marinhas, cavalos-marinhos, corais, chifres de antílopes saiga, entre outros, também não seriam cobertos. Daisy He, advogada na empresa internacional CMS, em Pequim, disse à National Geographic por email: "O governo chinês e o público chinês perceberam a importância de proteger estes animais."

Na China, os seguros de saúde já não cobrem a medicina tradicional que usa escamas de pangolim – um animal em perigo de extinção.
Fotografia de Brent Stirton, National Geographic

Salvo raras exceções, os elefantes-africanos não podem ser capturados e enviados para zoos longínquos. Graças a uma nova resolução da convenção CITES, os elefantes do Botsuana, do Zimbabué, da Namíbia e da África do Sul só podem ser exportados para outros países africanos onde os elefantes vivem ou costumavam viver, a não ser que fique demonstrado que o seu envio para outro lugar resulte num benefício de conservação para a espécie. Isto interrompe a prática controversa de vender elefantes selvagens para jardins zoológicos de todo o mundo. As investigações revelam que os elefantes são criaturas sociais altamente inteligentes e que criam laços ao longo da vida com outros animais. E também choram os seus mortos e, entre outras coisas, são capazes de criar empatia. "A proibição da captura de crias de elefante, que eram separadas das suas famílias para serem enviadas para jardins zoológicos, é uma grande vitória para o bem-estar dos animais", disse Frank Pope à National Geographic no momento da decisão – Frank é CEO da organização sem fins lucrativos Save the Elephants, sediada em Nairobi.

Autoridades internacionais reduziram os crimes de vida selvagem. As autoridades mundiais – incluindo a Interpol, a Europol e a Organização Mundial das Alfândegas – conduziram a Operação Thunderball, a maior operação contra os crimes de vida selvagem de todos os tempos, e a Operação Blizzard, a maior apreensão comercial de répteis feita até agora. A Operação Thunderball envolveu 109 países e resultou em quase 2 mil apreensões de animais selvagens protegidos. A missão consistia em revelar pontos críticos das organizações criminosas e prevenir crimes contra a vida selvagem, com o objetivo final de "desmantelar redes organizadas", disse Roux Raath, gerente do programa ambiental da Organização Mundial das Alfândegas. A Operação Blizzard identificou pequenos comerciantes ilegais, resultando em 12 prisões e mais de 4.000 apreensões de répteis vivos. Sergio Tirro, gerente da secção de crimes ambientais da Europol, espera que a aplicação da lei consiga obter informações sobre mais de uma dezena de suspeitos, para que se instaurem processos contra os principais traficantes. "O nosso foco são os grupos criminosos organizados que alimentam o comércio ilegal", disse Tirro à National Geographic.

O governo russo libertou o último grupo de animais da infame “prisão de baleias”. Em 2018, quatro empresas russas que fornecem mamíferos marinhos a aquários capturaram ilegalmente quase 100 baleias-brancas e orcas, e mantiveram-nas na Baía de Srednyaya, no extremo leste da Rússia. Com o início do inverno, e com a formação de gelo à superfície, os efeitos começaram a aparecer nos animais que estavam presos em cercados marinhos. A maioria apresentava lesões na pele e parecia estar em sofrimento. Ao longo de 2019, os animais foram gradualmente libertados e, em novembro, as autoridades transportaram as 50 baleias restantes para a Baía de Uspeniya, a cerca de 100 km de distância. Embora esta região não seja o seu habitat nativo, e dadas as restrições de financiamento, a baía foi considerada a melhor opção.

Depois de terem sido capturadas e mantidas durante meses numa “prisão de baleias”, cerca de 100 baleias e orcas foram devolvidas à natureza. Nesta imagem, uma das orcas é içada em preparação para o transporte até ao seu local de libertação, no Mar de Okhotsk.
Fotografia de Yuri Smityuk, TASS/Getty

Progressos tecnológicos ajudam a rastrear animais e a combater o comércio ilegal. Os engenheiros da empresa de inteligência artificial Synthetaic e da National Geographic Labs, uma iniciativa que coloca a tecnologia ao serviço da conservação, desenvolveram um sistema que usa inteligência artificial e câmaras montadas em aviões para identificar e contar, a grandes distâncias, animais em tempo quase real. Os investigadores já mapearam com sucesso o Parque Nacional de Garamba, na República Democrática do Congo, e a Lewa Wildlife Conservancy, no Quénia. E pela primeira vez foi usado um dispositivo portátil de sequenciamento de genes, chamado MinION, para determinar a proveniência de barbatanas de tubarão num mercado de peixe a noroeste de Mumbai. Este dispositivo também pode ser usado para identificar marfim, escamas de pangolim e outros produtos de vida selvagem comercializados de forma ilegal. "O MinION pode mudar o paradigma, porque pode ser usado pelas autoridades de vida selvagem localmente", disse por email Shaili Johri, investigadora de pós-doutoramento em biologia na Universidade Estadual de San Diego.
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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