Austrália: Calor Extremo Devasta Raposas-Voadoras

Num período de três dias, antes do Natal, milhares de mamíferos de um parque de Melbourne sucumbiram ao calor de 43 graus.terça-feira, 14 de janeiro de 2020

Por Natasha Daly
Fotografias Por Doug Gimesy

As 30.000 raposas-voadoras-de-cabeça-cinzenta do Parque Yarra Bend, nos arredores do coração de Melbourne, na Austrália, estavam a ter um início antecipado de primavera bastante normal.

Em setembro e outubro – primavera na Austrália e época do nascimento destes morcegos-da-fruta de 28 centímetros de envergadura – muitas das raposas-voadoras estavam a regressar ao parque, vinham da sua migração de inverno até à costa. As fêmeas estavam a ter as suas crias normalmente, diz o biólogo Stephen Brend, chefe do programa de monitorização de raposas-voadoras-de-cabeça-cinzenta na província de Victoria, incluindo o Parque Yarra Bend, que abriga uma colónia significativa de morcegos. Estava tudo normal.

“Depois, começou o horror”, diz Stephen. “Ficou muito quente, demasiado depressa.”

Incapazes de sobreviver ao calor extremo e implacável que se fez sentir em Melbourne em dezembro, as raposas-voadoras começaram a morrer. Ao longo de três dias, pouco antes do Natal, quando as temperaturas estavam acima dos 43 graus, morreram 4.500 raposas-voadoras-de-cabeça-cinzenta no parque – 15% da população da colónia.

A tragédia das raposas-voadoras deste parque ecoa as cenas de vida selvagem em sofrimento que se repetem por todo o país e coloca em evidência os perigos do calor extremo, que para algumas espécies pode ser tão mortífero quanto o fogo. Grandes e pequenos, rápidos e lentos, os animais endémicos da Austrália são vítimas das ondas de calor e dos incêndios que assolam o país com uma escala sem precedentes. É o verão mais quente e seco da Austrália de que há registo. À medida que o planeta aquece, os incêndios em grande escala tornam-se mais frequentes e as épocas de incêndios também ficam mais longas.

Para as raposas-voadoras-de-cabeça-cinzenta, classificadas pela União Internacional para a Conservação da Natureza como vulneráveis à extinção, o evento de Yarra Bend não é um caso isolado. "A colónia em Adelaide sofreu ainda pior", diz Stephen Brend. Entre novembro e janeiro, na colónia de Adelaide, morreram milhares de crias de raposas-voadoras devido ao calor extremo, diz Justin Welbergen, professor de ecologia animal na Universidade Western Sidney e presidente da Sociedade Australasiana de Morcegos. No dia 4 de janeiro, vários milhares de crias de raposa-voadora morreram, dentro e nas regiões circundantes de Sidney, em Nova Gales do Sul, onde as temperaturas recorde atingiram os 49 graus. A equipa de Welbergen, que monitoriza as condições de stress de calor nas raposas-voadoras, ainda está a calcular o número total de mortos.

Calor extremo e interminável
Um dia na vida de uma raposa-voadora debaixo de uma onda de calor é implacável. Às 5:30 da manhã, quando o sol começa a despertar, os morcegos, depois de terem passado a noite a alimentarem-se de néctar e frutas, regressam às suas árvores. Às 8 horas da manhã, diz Brend, começa a ficar quente nas árvores. “Os morcegos batem as asas para se refrescarem, mas só o conseguem fazer durante algum tempo, antes de começarem a ficar cansados. Ao meio-dia, começam a ficar exaustos e as temperaturas continuam a subir. Os morcegos ficam ofegantes, acelerando assim a sua desidratação.”

Quando atingem este ponto, os morcegos podiam voar até ao rio para se hidratarem (o rio Yarra atravessa o parque de 258 hectares), “mas é o mesmo que ir a correr até uma loja no meio de uma onda de calor", diz Brend. Voar exige energia e, quando estão exaustos e desidratados, os morcegos ficam simplesmente imóveis.

Em sofrimento e a entrar em pânico, os morcegos tentam encontrar um lugar mais fresco. As mães colocam as suas crias noutros ramos e separam-se, diz Brend, tentando assim encontrar zonas nas árvores onde não esteja muito quente. Mas os morcegos seguem-se uns aos outros, e encontrar um morcego num determinado tronco pode sinalizar que é um refúgio para todos. E começam a agrupar-se. "É como uma multidão num jogo de futebol", diz Brend. “Para o observador, não faz muito sentido.” E os morcegos que chegaram primeiro ficam cercados e são sufocados por dezenas de outros.

“Quando atingimos este ponto, não há volta a dar”, diz Brend. É nesse momento que a sua equipa, composta por trabalhadores do parque e por voluntários, entra em ação e tenta dispersar os aglomerados de morcegos. A equipa rega-os com água, processo que ajuda não só os morcegos a separarem-se, mas também os refresca e hidrata.

Tragédia nas árvores
No dia 20 de dezembro, no auge do evento de três dias que matou 4.500 raposas-voadoras, "nunca chegou a arrefecer", diz Brend. Às 21:00 horas, a equipa andava pelo parque a regar tudo o que podia, mas estava uma noite cerrada, os ramos das árvores caíam e havia cobras venenosas no mato. “Tivemos de cancelar a operação. Não conseguíamos ver nada, estavam 38 graus, foi profundamente angustiante. Foi uma carnificina."

“Assim que um morcego cai, os outros caem todos a seguir, esmagando e sufocando-se uns aos outros. Estavam dezenas, senão centenas, de morcegos mortos ou moribundos junto aos troncos das árvores”, diz o fotojornalista Douglas Gimesy, de Melbourne, que documentou os esforços de resgate em dezembro. "Nós olhamos para os morcegos e vemos que estão completamente ofegantes. Estão a aquecer e a sufocar. Os voluntários entram e separam os corpos e encontram alguns que ainda estão vivos. Mas temos cerca de 20 ou 30 socorristas para 4.500 morcegos. É como uma zona de guerra. É triste, angustiante e comovente, e sabemos que é algo que se vai repetir uma e outra vez.”

"Às vezes, conseguimos chegar a tempo", diz Tamsyn Hogarth, uma das socorristas. "Outras vezes, morrem nas nossas mãos. No terceiro dia, em 20 de dezembro, o ar estava denso com o cheiro a morte.” Tamsyn Hogarth dirige a clínica Fly By Night, um abrigo para animais selvagens em Melbourne que se dedica a resgatar, reabilitar e libertar raposas-voadoras-de-cabeça-cinzenta. No Parque Yarra Bend, Tamsyn e outros voluntários resgataram 255 crias durante os eventos de calor extremo de dezembro. Atualmente, duas dezenas de voluntários, vindos de toda a província de Victoria, cuidam de morcegos com idades a rondar as duas e as 12 semanas.

As vagas de calor são normais para os morcegos – mas isto é diferente.

Os dias quentes, capazes de matar morcegos, são normais no Parque Yarra Bend. "Estamos sempre preocupados com os eventos de calor. Não vamos passar pelo verão sem enfrentar dias muito quentes”, diz Brend. “No verão passado, por exemplo, morreram algumas centenas de morcegos.” Um estudo descobriu que, entre 1994 e 2007, morreram aproximadamente 30.000 raposas-voadoras-de-cabeça-cinzenta em eventos de calor extremo na Austrália.

Mas o momento do calor extremo deste ano – imediatamente a seguir ao nascimentos das crias – contribuiu para uma mortalidade extraordinariamente elevada. Como as crias ainda estavam em idade de amamentação, esgotaram os níveis energéticos das suas mães, e todos os morcegos – pais e jovens crias – estavam mais vulneráveis, diz Brend. O primeiro fim de semana de dezembro foi extremamente quente, e foi seguido por uma sucessão de dias quentes que se estenderam pelo mês inteiro, culminando no referido evento de três dias, atingindo o pico nos 43 graus, em Yarra Bend, no dia 20 de dezembro.

Esquerda: Uma mãe raposa-voadora-de-cabeça-cinzenta, pendurada num galho, no Parque Yarra Bend, com o seu bebé junto ao peito. Cerca de 80% das crias de raposa-voadora nascem em outubro. O momento do calor extremo que se fez sentir em dezembro atingiu severamente uma geração de morcegos recém-nascidos. Direita: Este plano aproximado mostra a asa frágil e membranosa de uma raposa-voadora-de-cabeça-cinzenta. Os morcegos batem as asas, que podem atingir os 90 centímetros de envergadura, na tentativa de arrefecer. Este bater repetido pode levar à exaustão.
Fotografia de DOUG GIMESY

"É comovente e assustador para a espécie. E isto está acontecer em todo o seu território”, diz Brend. Embora o Parque Yarra Bend não tenha sido atingido pelos incêndios, grande parte do habitat das raposas-voadoras fica diretamente nas zonas de incêndios ao longo da costa leste australiana.

Pombo-passageiro dos tempos modernos?
Um estudo feito em maio de 2019 estimava que existiam cerca de 589.000 raposas-voadoras-de-cabeça-cinzenta na Austrália. Embora os números da espécie pareçam robustos, estes morcegos enfrentam regularmente uma série de ameaças, desde eventos de calor extremo a colisões contra a infraestrutura urbana, sejam redes ou arame farpado, bem como a agressividade dos habitantes que os consideram uma praga.

Os morcegos são nómadas. Atualmente, grande parte do seu alcance fica nas zonas lavradas pelo fogo. Muitos dos morcegos viajam para norte durante o inverno, parando ao longo da costa em florestas que podem já ter ardido. “Os incêndios florestais destruíram recursos essenciais em escalas sem precedentes”, diz Welbergen. "Não existe refúgio para os morcegos", diz Brend. "Não é um caso de ser mau em Melbourne, mas não haver problema em Nova Gales do Sul – é mau em todo o lado.”

"Se isto se repetir em muitos ciclos, a população é afetada. Não quero ser alarmista ou dramático – ainda existem milhares de morcegos destes – mas não encontro razões para continuar otimista.”

"A nossa preocupação é a de estarmos perante um novo pombo-passageiro", diz Brend, referindo-se a uma das aves mais abundantes da América do Norte que no século XIX foi caçada até à extinção.

'Os morcegos precisam da floresta, e a floresta precisa dos morcegos.'
As raposas-voadoras desempenham um papel vital na floresta. "O seu papel ecológico é enorme, são como abelhas noturnas", diz Brend. As raposas-voadoras transportam sementes e polinizam as árvores, cultivando a floresta durante a noite. "Os morcegos precisam da floresta, e a floresta precisa dos morcegos."

E ainda estamos a meio do verão na Austrália. "Vamos lutar pelos nossos amigos invertidos", diz Lawrence Pope, um socorrista que cuida de cinco morcegos órfãos em casa, "mas o panorama parece muito sombrio".

“Neste ano de horror, todas as espécies estão em sofrimento. É muito assustador”, diz Stephen Brend. “Está muito quente para nós, está muito quente para os animais, é um pesadelo.”
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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