Cães Vadios Percebem Naturalmente os Gestos Humanos

Esta investigação pode dar origem a uma coexistência mais pacífica entre os caninos que vagueiam livremente – centenas de milhões pelo mundo inteiro – e as pessoas.quinta-feira, 30 de janeiro de 2020

Os humanos domesticaram os cães e, ao longo do nosso relacionamento de 15 mil anos, criámos cães para serem companheiros amigáveis e ansiosos – e também hábeis a interpretar as nossas emoções.

Agora, um novo estudo revela que até os cães vadios – animais que nunca viveram com pessoas – conseguem compreender os nossos gestos.

Pelo planeta vagueiam cerca de 300 milhões de cães vadios, e 30 milhões vivem na Índia. Estes caninos que vivem em liberdade acabam por entrar em conflito com as pessoas e, sobretudo na Índia, representam um risco para a saúde pública – são portadores de raiva, um vírus mortal que, de acordo com a Organização Mundial de Saúde, mata perto de 20 mil pessoas por ano na Índia, a maioria crianças.

Estes eventos fazem com que a gestão de cães vadios seja um tema polarizador, com algumas pessoas a matarem os animais de forma desumana, diz Anindita Bhadra, especialista em comportamento animal no Instituto Indiano Kolkata. Os cães vadios, acrescenta Anindita, nunca têm a certeza se as pessoas os querem alimentar, acariciar, ou magoar.

“É por isso que aprender mais sobre os cães vadios e sobre o seu comportamento é crucial para resolver os problemas com as pessoas”, diz Anindita Bhadra, que estuda caninos há uma década.

Nas suas experiências mais recentes, Anindita descobriu que a maioria dos cães vadios sabia para onde olhar quando um humano apontava para um objeto, sugerindo que a sua capacidade de perceção dos humanos é inata.

“As descobertas feitas por este estudo podem ajudar a educar adultos e crianças – que são frequentemente mordidos e infetados com raiva quando partilham comida com os cães – sobre como interagir com eles, levando a uma convivência mais pacífica”, diz Anindita.

Direto ao assunto
No estudo, publicado no dia 17 de janeiro na Frontiers in Psychology, Anindita Bhadra e os seus colegas abordaram 160 cães vadios solitários em várias cidades indianas. Um dos investigadores colocou duas tigelas tapadas no chão perto dos cães, uma com frango cru e a outra vazia mas com cheiro a comida. Um segundo investigador, que não sabia qual era o conteúdo das tigelas, ficava de pé e apontava para uma delas, às vezes apenas por um segundo, ou durante a experiência toda. As mãos deste segundo investigador nunca estiveram perto das tigelas.

Cerca de metade dos cães nem sequer chegou perto dos investigadores; muitos pareciam ansiosos e provavelmente tiveram encontros negativos com pessoas, diz Bhadra.

Dos que se aproximaram, cerca de 80% foram para a tigela para onde o segundo investigador tinha apontado, o que significa que compreenderam o gesto humano. E quando os cães descobriam que a tigela estava vazia, as probabilidades de seguirem a mesma indicação diminuíam.

Nos estudos feitos anteriormente, os investigadores estavam muito mais perto das tigelas. Afastar a pessoa permite que o canino "consiga julgar o que o humano pretende e depois tomar uma decisão", diz Bhadra, para além de processar as novas informações sobre a gratificação, ou não, de ter seguido uma determinada pista.

No geral, o estudo sugere que os cães sem treino conseguem relacionar-se com os humanos, apesar de provavelmente terem sofrido experiências traumatizantes.

“Isto é mais uma prova de que os cães que vagueiam livremente são tão bons como qualquer outro cão a interpretar gestos básicos humanos, e que são tão inteligentes como muitos pensam”, diz Brian Hare, fundador e diretor do Centro de Cognição Canina da Universidade Duke.

Compreender os cães vadios
Os cães vadios não são um fenómeno recente. O antigo texto indiano Vedas aconselha que um bom chefe de família deve dar os restos de comida aos animais, incluindo os cães vadios.

“Apesar de estes cães vadios terem vidas mais difíceis do que as dos animais domésticos, adaptaram-se a nós na mesma, desde a Revolução Industrial às autoestradas, passando por tudo o resto”, diz Bhadra.

“Esta adaptabilidade e resiliência, assim como a sua sofisticação psicológica, significa que os caninos que vagueiam em liberdade não são assim tão diferentes de qualquer outro cão”, acrescenta Hare – "e merecem todo o nosso respeito".
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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