Esta Raia Gigante Pode Ser o Maior Peixe de Água Doce

Bastante mais pesada do que o atual detentor do recorde, o peixe-gato-gigante do Mekong, a raia pesava alegadamente perto de 400 quilos.

Wednesday, January 8, 2020,
Por Stefan Lovgren
Kamar, um pescador indonésio, posa para a fotografia enquanto segura na pele seca de uma raia-gigante-de-água-doce ...
Kamar, um pescador indonésio, posa para a fotografia enquanto segura na pele seca de uma raia-gigante-de-água-doce que capturou em 2016. Os investigadores que estudam este peixe ouviram relatos de que, quando foi capturado, pesava quase 400 quilos, fazendo dele o maior peixe de água doce alguma vez documentado.
Fotografia de Stefan Lovgren

BUNGIN, INDONÉSIA – Sabemos que o tubarão-baleia é o maior peixe do oceano, mas qual é o maior peixe de água doce? A resposta para esta pergunta aparentemente simples tem permanecido um mistério tão turvo quanto as águas do Sudeste Asiático onde provavelmente o maior peixe de água doce habita.

Oficialmente, o título de pesos pesados pertence ao peixe-gato-gigante do Mekong, com um espécime capturado em 2005 no norte da Tailândia a atingir uns impressionantes 293 quilos. Mas os investigadores acreditam há muito tempo que existem peixes maiores, como é o caso de uma misteriosa raia gigante.

Agora, existem cada vez mais evidências de que estes investigadores podem estar corretos. Uma investigação feita recentemente nos rios da Indonésia sugere que uma espécie conhecida por raia-gigante-de-água-doce consegue ser muito maior do que o peixe-gato-gigante, e houve uma raia capturada por um pescador em Sumatra do Sul que pesava mais de 360 quilos, ou duas vezes mais o peso de um gorila adulto. Relatórios não verificados do Bornéu sugerem capturas de raias de tamanhos similares ou até superiores.

Habitantes de Bungin, uma vila piscatória em Sumatra do Sul, seguram na pele seca de uma raia-gigante-de-água-doce que, segundo eles, pesava quase 400 quilos na hora da captura.
Fotografia de Stefan Lovgren

Zeb Hogan, biólogo de peixes na Universidade do Nevada e Explorador National Geographic, investiga as maiores espécies de peixes de água doce do mundo há mais de 15 anos. Hogan diz que é quase impossível confirmar estes relatos, mas está convencido de que as raias gigantes podem atingir tamanhos recorde. No Camboja e na Tailândia, onde concentrou a sua pesquisa, ouviu relatos de raias com mais de 450 quilos. "Não fico surpreendido com estas histórias de Sumatra e de outros lugares", diz Hogan. "Parece bastante provável que esta raia gigante seja o maior peixe de água doce do mundo."

A verdade é que o estudo desta espécie assumiu uma urgência maior devido ao declínio de algumas populações de raias, declínio que se junta ao de muitos outros peixes de água doce de corpos grandes. Um estudo recente mostrou que as populações globais de gigantes de água doce caíram quase 90% nos últimos 40 anos – o dobro da perda de populações de vertebrados em terra ou no oceano.

Venenosa mas curiosa
Grande parte das pessoas conhece apenas as raias que vivem nos mares, mas existem dezenas de espécies de raias que vivem nos rios e lagos de todo o mundo. A maioria é pouco conhecida, incluindo a raia-gigante-de-água-doce. Esta raia, identificada pela primeira vez na Indonésia em 1852 pelo ictiólogo holandês Pieter Bleeker, caiu praticamente no esquecimento durante mais de um século, antes de ser descrita como uma nova espécie em 1990. Depois, em 2008, os cientistas concluíram que esta nova espécie era de facto a mesma que Bleeker tinha identificado, e passou a ter a denominação de Urogymnus polylepis.

Uma das principais razões pelas quais os cientistas sabem tão pouco sobre as raias-gigantes-de-água-doce deve-se ao facto de estas se esconderem no fundo dos rios. No Sudeste Asiático não são consideradas boas para comer, ou seja, raramente são um alvo dos pescadores, embora fiquem ocasionalmente presas nas redes. E quando ficam emaranhadas nas redes, as raias do tamanho de carros conseguem dar muita luta, existindo relatos de barcos arrastados pelos rios durante horas.

Apesar de estas raias terem um ferrão venenoso e serrilhado de até 40 cm de comprimento, geralmente não são agressivas e são criaturas muito curiosas, diz Hogan, que viu pela primeira vez uma raia-gigante-de-água-doce no rio Mekong, no Camboja, há mais de 15 anos. Mais tarde, Hogan começou a trabalhar com investigadores tailandeses e pescadores no rio Mae Klong, perto de Bangkok. A equipa capturou vários peixes enormes ao longo dos anos, mas nunca conseguiu um peso verificado que batesse recordes.

Relatos credíveis
Em finais de novembro, Mohammed Iqbal, biólogo na Universidade Sriwijaya de Sumatra, e eu fomos conferir um relato numa pequena vila em Sumatra do Sul, onde em 2016 um pescador chamado Kamar capturou acidentalmente uma raia-gigante-de-água-doce.

Acelerámos pelo Rio Musi durante 4 horas numa lancha velha de madeira, acompanhados por chuvas torrenciais que apareciam e desapareciam. Passámos por inúmeras plantações de óleo de palma, selvas desflorestadas e por batelões enormes que transportavam carvão rio acima. Os sinais da pressão humana sobre o ecossistema estavam por todo o lado.

As raias-gigantes-de-água-doce ainda não tinham sido documentadas em Sumatra em 2016, ano em que Mohammed começou a compilar um registo dos relatos que apareciam nos jornais e na internet sobre mais de uma dezena de capturas de raias nos rios da região. Muitos falavam de raias enormes, sendo que a maior tinha sido capturada na foz de um pequeno rio chamado Bungin. Mohammed ouviu dizer que pesava mais de 360 quilos.

A meio da tarde, chegámos finalmente à vila piscatória de Bungin, que consiste em algumas casas de madeira erguidas sobre palafitas que as mantêm acima da maré.

Enquanto outra tempestade fustigava a vila, o pescador Kamar, que usa apenas um nome, relatou como é que a captura aconteceu. Um dia, há 3 anos atrás, Kamar tinha lançado a sua rede no estuário aberto, onde vários rios desaguam no mar do Sul da China. Kamar deixou a rede no rio de um dia para o outro, esperando pescar algo para vender e para comer. De manhã, ficou chocado quando encontrou uma raia enorme presa na rede. O peixe era demasiado pesado para ser puxado para dentro do barco, pelo que Kamar teve de arrastar a rede e a raia com o barco de regresso à vila.

Foram necessários 15 homens para levantar a raia da água e para a colocar em terra. Os homens disseram que nunca tinham visto uma raia tão grande. Depois, pediram emprestada uma balança a um armazém local de peixe para a pesar. Kamar diz que pesava quase 400 quilos. Será que ele sabia que isso significava que tinha capturado o maior peixe de água doce do mundo? Kamar abana a cabeça a dizer que não.

A legitimidade deste relato depende da veracidade da palavra de Kamar. Mas o que confere credibilidade extra à sua descrição é o facto de o peixe ter sido pesado, e Kamar também guardou a pele da raia depois de esta ter sido limpa e vendida pela carne. Desde então, a pele enrugou, mas sugere uma raia com uma envergadura de quase 2.5 metros, possivelmente grande o suficiente para bater o recorde.

Apesar de a raia de Bungin ter sido capturada nas águas turvas e já salgadas da foz do rio, Mohammed tem a certeza de que, com base na sua forma e marcações, se trata de uma Urogymnus polylepis de água doce. As outras raias identificadas foram capturadas rio acima, às vezes a mais de 100 km do oceano. "Parece que a espécie vive em água doce, mas também é capaz de tolerar a água salgada", diz Mohammed.

No início de 2019, Mohammed fez uma pesquisa semelhante aos jornais e relatórios online sobre capturas de raias-gigantes-de-água-doce em torno do Bornéu e encontrou vários casos de peixes que podiam ter mais de 293 quilos, o peso do peixe-gato-gigante do Mekong, o atual detentor recorde.

Esquerda: Um pescador a trabalhar no Lago Melintang, no Bornéu indonésio. Direita: Barcos de pesca em Sungsang, a maior comunidade piscatória de Sumatra do Sul.
Fotografia de ELLIOT LOVGREN

Em novembro, numa comunidade de pescadores do Lago Melintang, no Bornéu indonésio, vários pescadores disseram que tinham apanhado raias recentemente. Um dos pescadores, El-Hadji Janadi, disse que, no início de 2019, capturou uma raia com quase 227 quilos usando uma rede de arrastão de 100 metros de largura que arrastou pelo fundo do lago. "Eu não queria apanhar a raia, a carne não rende muito dinheiro”, disse El-Hadji.

Populações em declínio
Os investigadores temem que a raia-gigante-de-água-doce possa desaparecer antes de ser possível determinar o seu tamanho e desvendar outros segredos. Apesar de a pressão da pesca e a perda de habitat ameaçarem a espécie em toda a região do Sudeste Asiático, outra grande preocupação é a poluição, diz Mabel Manjaji-Matsumoto, bióloga marinha da Universidade da Malásia que estuda esta espécie desde meados dos anos 1990. Mabel diz que o escoamento de fertilizantes usados nas plantações de óleo de palma pintaram partes dos rios no leste da Malásia com todas as cores do arco-íris, colocando em risco muitos dos animais selvagens do rio, incluindo as raias-gigantes-de-água-doce.

Há três anos, no Rio Mae Klong, na Tailândia, os resíduos lançados de uma fábrica de etanol mataram pelo menos 70 raias gigantes, com as carcaças das raias a subirem à superfície e a serem transportadas pelo rio como se fossem naves extraterrestres, uma visão chocante para os habitantes locais. A investigação subsequente mostrou que tinham sido libertadas quantidades significativas de cianeto no rio.

Em 2018, quando investigadores tailandeses da Universidade Chulalongkorn, em Bangkok, fizeram o primeiro estudo abrangente para colocar marcadores na população de raias do rio Mae Klong, encontraram muito menos indivíduos do que tinham contado antes do derramamento, e quase não encontraram raias grandes.

Nantarika Chansue, veterinária que chefiou o projeto de marcação financiado pela National Geographic Society, diz que provavelmente já não existem raias com mais de 300 quilos no Mae Klong. "Era uma população bastante saudável, mas com esta poluição incontrolável, o risco de as perdermos é muito elevado", diz Nantarika. “E as raias também foram direcionadas para o crescente mercado de aquários.”

Para Hogan, a busca para aprender mais sobre as raias – e sobre todos os grandes peixes ameaçados – ainda continua. Hogan sublinha que existe uma população pouco estudada, mas que é relativamente saudável, na rica biodiversidade do Mekong do Camboja e que se sobrepõe à distribuição de outros animais raros, como o golfinho-irrawaddy e a tartaruga-gigante-de-carapaça-mole de Cantor.

“Não se trata apenas de descobrir qual é o maior peixe. Talvez já o tenhamos encontrado nestas raias-gigantes-de-água-doce. O que me parece evidente é que precisamos de fazer mais para protegermos estes peixes, antes que eles desapareçam para sempre.”
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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