Estas Zebras Raras Dependem dos Humanos

Alimentar animais selvagens é uma prática geralmente desencorajada, mas pode ser a única forma de ajudar a zebra-de-grevy, animal em perigo de extinção, a sobreviver à seca.quinta-feira, 30 de janeiro de 2020

As zebras-de-grevy – ou loiborkoram na língua Samburu – são criaturas imponentes. Chegando a pesar quase 450 quilos, são os maiores animais selvagens da família dos cavalos. A suas orelhas proeminentes parecem arredondadas à distância, e as suas listas são mais finas do que as de uma zebra-comum. “São animais completamente impressionantes”, diz Belinda Low Mackey, cofundadora do Fundo Zebra-de-Grevy, sediado em Nairobi.

E também são animais perigosamente ameaçados. Restam apenas 2 mil adultos em estado selvagem e o seu alcance diminuiu de uma faixa significativa, no Corno de África, para algumas zonas no norte do Quénia e junto à fronteira do lado da Etiópia.

A caça no século XX e a competição crescente por alimentos cada vez mais escassos, com gado que também pasta no mesmo habitat árido, motivaram o declínio da sua população. Desde 2009, a região também sofreu secas de forma regular, pelo que as ervas que as zebras comem estão murchas. Em outubro, o fotógrafo Heath Holden acompanhou alguns dos guardas florestais do Fundo Zebra-de-Grevy no condado de Samburu, no Quénia. A terra estava “incrivelmente seca”, diz Heath. “Todos os rios estavam secos.”

Juntamente com o pastoreio excessivo de gado, estes eventos podem ceifar um enorme número de zebras-de-grevy. Perante isto, o Fundo optou por alimentar as zebras. Os guardas florestais colocaram fardos de palha durante as secas de 2011, 2014, 2017 e novamente no final do ano passado, ao longo das rotas das zebras até às zonas com água. O feno vem de uma província vizinha que tem mais chuva e é transportado de camião ou de mota. Em 2017, durante a pior seca da última década, o Fundo colocou mais de 3.500 fardos de palha nas rotas das zebras.

Mas será que é correto alimentar animais selvagens? Em muitos dos casos, a resposta é não. A filósofa Clare Palmer, que estuda a ética humano-animal na Universidade Texas A&M, diz que, em teoria, podemos argumentar que alimentar as zebras diminui a sua natureza selvagem, tornando-as mais dependentes dos humanos. E ficar dependente dos humanos é algo que, sem dúvida, limita a liberdade dos animais.

“Visto deste prisma, limitar a liberdade dos animais pode ser encarado como uma espécie de sobranceria – a arrogância humana em tentar controlar tudo o que acontece no mundo”, diz Clare.

Sem planos cuidadosos, a alimentação de animais selvagens pode fazer com que estes se habituem de forma perigosa aos humanos, e alterar o seu comportamento. Em alguns casos, os animais migratórios mudaram ou abandonaram por completo as suas viagens anuais; e noutros casos, os animais habituados aproximam-se demasiado dos humanos, assustando as pessoas ou danificando as suas habitações, correndo o risco de morrer em retaliação. Neste caso, as zebras comem o feno durante a noite, sem pessoas por perto, e não sabem quem entrega a comida.

E quando a alternativa é morrer de fome, uma pequena redução no fator selvagem é algo que os tratadores no Quénia consideram um preço aceitável a pagar pela sobrevivência dos animais. Para além disso, argumenta Clare, a vida das zebras foi moldada pelos animais de pastoreio ao longo de milénios, e pelas alterações climáticas das últimas décadas. “Para estas zebras, não existe uma opção de vida independente do impacto humano”, diz Clare.

Prevenir uma ‘tragédia dos comuns’
Belinda Mackey diz que, de qualquer forma, esse não é o objetivo. O objetivo é a coexistência entre humanos, o gado e as zebras-de-grevy. Belinda espera que o fornecimento de alimentos seja “uma intervenção a curto prazo”, enquanto as comunidades trabalham para restaurar a terra para suportar todos os animais de pastoreio, tanto selvagens como domésticos.

O trabalho de restauração das terras inclui o abate de acácias que os animais não podem comer e uso dos ramos dessas árvores para preencher ravinas e controlar a erosão. Também são plantadas sementes de gramíneas e existem várias ações de formação, feitas junto das comunidades que possuem os terrenos, para ajustar as práticas de pastoreio a um modo de vida que está a deixar de ser nómada.

“Iniciámos um processo de visão”, diz Belinda Mackey. “E foi inspirador para estas comunidades: porque sabem que podem ser proativas em relação ao seu futuro.”

De certa forma, é como se fosse uma versão real de um famoso artigo apresentado pelo ecologista Garrett Hardin: A tragédia dos comuns, que sugere que os recursos comuns, como as áreas de pastagem, serão inevitavelmente sobre-explorados porque não existem incentivos para cada indivíduo mostrar contenção quando os outros colocam cada vez mais animais nas terras.

Se os pastores que possuem as terras conseguirem chegar a um acordo sobre a forma de gestão das mesmas, para que haja vegetação para as zebras e também para o gado, podemos estar perante mais uma história onde a previsão pessimista de Hardin se mostra errada. Elinor Ostrom, vencedora do Prémio Nobel da Economia em 2009, estudou casos semelhantes de sucesso – lugares onde os recursos comuns são geridos de forma justa e sensata. Na Suíça, por exemplo, os pastores que partilhavam os prados alpinos concordaram em apenas pastar um determinado número vacas nos terrenos comuns durante o verão, porque podem dar-se ao luxo de alimentar os animais nos celeiros durante o inverno.

Em última análise, a história das zebras-de-grevy é como uma metáfora para a conservação das espécies a nível global. As espécies podem ser salvas, a curto prazo, por uma injeção direta de recursos – sejam dinheiro, atenção política ou, como acontece neste caso, feno. Mas, a longo prazo, a preservação da biodiversidade na Terra pode beneficiar de uma gestão de paisagens inteiras, para que os humanos e outras espécies consigam prosperar em uníssono.
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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