Novo Estudo: os Papagaios Entreajudam-se

O altruísmo não é uma característica exclusiva dos humanos: é sabido que os morcegos, as ratazanas e agora os papagaios ajudam outros membros da sua espécie, e até desconhecidos.

Wednesday, January 22, 2020,
Por Jake Buehler
Os papagaios-cinzentos estão entre as aves com capacidades sociais mais complexas, e são animais de estimação ...
Os papagaios-cinzentos estão entre as aves com capacidades sociais mais complexas, e são animais de estimação muito populares devido à sua capacidade de “falar”.
Fotografia de Joel Sartore, National Geographic Photo Ark

Os papagaios-cinzentos ajudam outros membros da sua espécie – esta foi a primeira vez que este tipo de comportamento foi documentado entre aves.

Os cientistas já sabiam que estes papagaios africanos eram particularmente inteligentes, com cérebros grandes e capacidades excecionais na resolução de problemas. Mas também queriam saber se estas aves – separadas dos hominídeos por cerca de 300 milhões de anos de evolução – também possuíam capacidades sociais mais complexas, como ajudar os outros. Até agora, os corvídeos, outro grupo das denominadas aves "inteligentes", ainda não demonstraram esta capacidade, diz Désirée Brucks, bióloga no Instituto Federal de Tecnologia de Zurique, na Suíça.

“Mas os papagaios ainda não tinham sido testados”, diz Désirée. “Por isso, era uma questão em aberto, não sabíamos se a capacidade proativa de entreajuda tinha evoluído nas aves.”

Désirée Brucks e a sua colega, Auguste von Bayern, do Instituto Max Planck, na Alemanha, colocaram 8 pares de papagaios-cinzentos em gaiolas de vidro, com uma abertura numa parede divisória para permitir a interação entre duas aves. Depois, ensinaram os papagaios a trocar fichas de metal por nozes com uma pessoa através de outro orifício.

Quando os papagaios ficavam sem fichas para trocar, os seus companheiros ofereciam-lhes algumas fichas através da divisória. E geralmente davam mais fichas aos seus conhecidos e familiares, mas também ajudavam papagaios que nunca tinham visto. É importante salientar que os papagaios não ajudaram os seus parceiros quando estes tinham o seu acesso ao alimentador bloqueado pelos cientistas, sugerindo que conseguem reconhecer quando é que a sua assistência é necessária ou até útil.

Este comportamento, detalhado no estudo publicado no dia 9 de janeiro na Current Biology, é possivelmente a consequência de uma evolução que aconteceu em bandos enormes, onde ter uma reputação altruísta é útil, dizem as autoras.

Katherine Cronin, zoóloga no Zoo Lincoln Park, em Chicago, elogia o estudo por encontrar uma explicação para a doação, ou não, das fichas. "Podemos estar bastante confiantes de que os papagaios-cinzentos consideram os benefícios disponíveis para os seus parceiros", diz Katherine.

Nikki e Jack, dois papagaios-cinzentos, trocam fichas um com o outro durante a experiência.
Fotografia de Anastasia Krasheninnikova

“Esta investigação aumenta as evidências crescentes da abnegação existente por todo o reino animal – e lembra-nos de que não é uma característica exclusiva dos humanos.”

Chimpanzé e bonobo
Alguns dos exemplos mais evidentes de comportamentos de entreajuda espontânea vêm dos nossos parentes mais próximos: os chimpanzés e os bonobos, ou chimpanzés-pigmeu.

Existem provas de que os chimpanzés conseguem avaliar as necessidades de outro chimpanzé e responder de acordo com a situação – partilhando o item correto para  resolver um problema. Por exemplo, já foram observados chimpanzés em cativeiro a dar a ferramenta apropriada a um parceiro que precisava de um determinado tipo de ajuda.

“Este estudo é semelhante [ao dos papagaios], pois os chimpanzés também ajudaram os seus parceiros consoante as suas necessidades e sem proveito a nível pessoal”, salienta Katherine.

E os bonobos, uma espécie em perigo de extinção nativa de África, oferecem livremente a sua comida a estranhos.

Morcego-vampiro
Não se assuste com as presas afiadas – os morcegos-vampiros também têm outra faceta.

Estes pequenos mamíferos são extraordinariamente generosos com as suas refeições à base de sangue, regurgitando parte do que comem para os outros morcegos que precisam desesperadamente de se alimentar – independentemente de serem familiares ou não.

A reciprocidade na entreajuda e doação de alimentos é muito mais importante do que a relação de parentesco, e ajuda a prever se determinado animal pode ou não partilhar comida.

Ratazana
A humilde ratazana é um dos poucos animais que, para além de ajudar os outros membros da sua espécie, também se lembra de quem a ajudou, retribuindo o gesto. Nas experiências publicadas em 2015, os investigadores treinaram ratazanas para doar um item de qualidade elevada (uma banana) ou de baixa qualidade (uma cenoura) a outra ratazana.

Quando os investigadores deram às ratazanas recetoras a oportunidade de retribuir o favor, distribuindo cereais, as ratazanas que tinham oferecido as bananas receberam os seus cereais mais depressa.

Baleia-jubarte
Este cetáceo têm o misterioso hábito de interferir nas caçadas das orcas, colocando-se entre estes predadores e as suas presas, mexendo as imponentes barbatanas e caudas quando as orcas se aproximam demasiado. E já foram observadas baleias-jubarte a proteger focas, leões-marinhos e outras espécies de baleias dos seus predadores.

Não se sabe de que forma é que este comportamento ajuda as baleias-jubarte, mas estas táticas defensivas podem resultar do facto de as crias de baleia-jubarte serem regularmente alvo de ataques de orcas.

Ou talvez estas baleias – tal como os humanos, outros primatas e, aparentemente, os papagaios-africanos – tenham aprendido a valorizar a bondade como uma coisa normal.
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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