O Regresso dos Flamingos à Ria de Aveiro

O testemunho de um sonho cor-de-rosa nas margens da Ria de Aveiro.

Friday, January 24, 2020,
Por João Nunes da Silva
Flamingo
Um flamingo caminha numa manhã fria de Outono numa das margens da Ria de Aveiro durante a maré baixa.
Fotografia de João Nunes da Silva

A luz já vai baixa quando ao longe, no horizonte, um grupo de cerca de vinte flamingos iluminados pelos últimos raios desce junto a uma das margens da Ria de Aveiro. No lusco-fusco, a presença do bando apenas será detectada pelas silhuetas que mal se distinguem do azul escuro das águas da ria, ou pelo som espontâneo e rouco de um ou outro flamingo. O batimento sincronizado da água da ria contra a margem abafa o som das aves, e quem caminha pela pequena estrada da Bestida (numa das margens da Ria de Aveiro), nem se apercebe que a pouco menos de trinta metros da berma se encontra ali um grupo de flamingos. É um dia frio de Outono e será ali que o grupo de aves irá pernoitar.

No entanto, se recuássemos alguns anos, avistar flamingos na Ria de Aveiro seria um acontecimento surpreendente, já que o flamingo-comum (Phoenicopterus roseus), a espécie existente em Portugal, era raro e estava confinada a zonas como os estuários do Tejo e do Sado, à ria Formosa e ao sapal de Castro Marim onde apareciam em números pouco expressivos. A partir dos anos noventa, a situação começou-se a alterar em Portugal, com a presença de um maior número de flamingos nalgumas zonas húmidas portuguesas. Mas foi sem dúvida a partir dos anos dois mil que a grande expansão e presença habitual de flamingos em novas áreas começou a ocorrer no centro e sul do Portugal.

Um grupo de flamingos descansa ao final da tarde nas margens da Ria de Aveiro na zona da Bestida.
Fotografia de João Nunes da Silva

Nos dias que correm passou a ser habitual observarem-se bandos de flamingos (alguns com mais de uma centena de aves), em áreas com a Ria de Aveiro o Baixo Mondego, Lagoa de Óbidos, Lagoa de Santo André, Ria de Alvor e Lagoa dos Salgados assim como noutras lagunas mais pequenas. Quem resolver passear junto ao Parque Tejo em Lisboa, não deixará de ficar surpreendido se avistar flamingos a poucos metros das margens a alimentar-se nas águas do Tejo.

Uma ave fascinante
O flamingo é umas das aves que mais fascínio causa às pessoas que a observam. Em voo é inconfundível, iluminando o horizonte de rosa vivo, com uma envergadura de asas que pode ultrapassar um metro e sessenta. Possui um porte grande, com patas e pescoço compridos e um bico curto e grosso, com a ponta ligeiramente curvada para baixo e é uma ave pode ser reconhecida a grande distância. Os adultos possuem uma tonalidade cor de rosa, enquanto os juvenis são acinzentados. A cor rosa deve-se um pequeno crustáceo denominado de Artemia salina que lhe serve de alimento. Este crustáceo por sua vez alimenta-se da microalga Dunaliella, que contém betacarotenos e se encontra presente em áreas como estuários, salinas, etc. Embora os flamingos possam ser avistados ao longo de todo o ano em Portugal, uma vez que alguns indivíduos (sobretudo imaturos) permanecem no nosso país, o seu número aumenta bastante durante os meses de Outono e Inverno com as migrações que ocorrem.

Um flamingo alimenta-se numa manhã fria de Outono numa das margens da Ria de Aveiro durante a maré baixa.
Fotografia de João Nunes da Silva

São as zonas húmidas portuguesas, que constituem um importante abrigo para as diversas aves que migram até nós durante os meses mais frios, que acolhem os largos milhares de aves entre elas os flamingos. É nestas alturas que o número de flamingos no nosso território atinge os milhares de indivíduos. No ano de 2017, só no estuário do Tejo, contaram-se perto de 12.000 flamingos, um número recorde.  Apesar de já ter havido tentativas de nidificação de flamingos na região do Algarve, nomeadamente na Lagoa dos Salgados, continua a ser uma espécie não nidificante em Portugal e vulnerável. O flamingo é uma espécie que nidifica em colónias e necessita de largas áreas com planos de água baixos, como as salinas, para poder nidificar. Nos últimos anos entre grupos de flamingos-comuns que ocorrem em Portugal, também têm sido observados esporadicamente um ou outro indivíduo de flamingo-pequeno (Phoeniconaias minor), que é uma espécie nativa de África subsariana e do subcontinente indiano.

A viagem dos flamingos da Ria de Aveiro
A Ria de Aveiro é uma zona húmida que espelha um pouco daquilo que se passa por outros locais do país, onde a presença de flamingos se tornou habitual. Esta zona húmida estende-se ao longo do litoral, desde Mira até Ovar, numa extensão de aproximadamente cinquenta quilómetros. Como quase todas as zonas húmidas, é um lugar de excepção para a presença de largos milhares de aves, não só de flamingos, mas de outras aves como pilritos, maçaricos, borrelhos, andorinhas-do-mar, pernilongos e alfaiates ente outras. A Ria de Aveiro recebe largos milhares de aves durante as migrações de Inverno, com destaque para as limícolas. Esta zona húmida sofre uma grande influência marinha e é afectada pelos caudais doces dos rios que nela desaguam, sendo o mais importante o rio Vouga. A presença desta enorme mancha de água que constitui a Ria de Aveiro, condiciona bastante as características climatéricas não só da ria, mas também das áreas envolventes.

Montes de sal nas salinas de Aveiro durante a altura da safra anual no Verão.
Fotografia de João Nunes da Silva

Uma das imagens de marca de Aveiro são as salinas ou marinhas como também são conhecidas. A exploração do sal na região de Aveiro é uma actividade bastante antiga. É anterior à existência da própria ria e foi responsável por modelar uma boa parte da paisagem em torno da Ria de Aveiro. A realidade actual é que após anos de abandono, nos últimos anos, assistiu-se à recuperação de diversas salinas que passaram a oferecer serviços na área do turismo tais como passeios pelas salinas, banhos, spas e observação de aves. Também foram criados novos e inovadores produtos relacionados com o sal que é extraído na safra anual pelos marnotos. À entrada da cidade de Aveiro uma das salinas está transformada num pequeno museu vivo, o Ecomuseu da Marinha da Troncalhada e a poucos metros o CMIA - Centro Municipal de Interpretação Ambiental, onde pode ficar a conhecer os valores naturais da Ria de Aveiro e da arte milenar da produção de sal. É frequente junto ao CMIA encontrarem-se bandos de flamingos, sobretudo ao início da manhã e ao final da tarde.

Atraídas pela brancura e beleza da principal imagem da zona, uma boa parte das pessoas que se deslocam às salinas, não imagina a importância que estas representam para inúmeras aves, quer como local de refúgio, de alimentação, e mesmo de nidificação. As salinas são um excelente habitat para os flamingos que as utilizam, inúmeras vezes, sobretudo quando se encontra maré cheia na Ria de Aveiro. Com uma magnífica e sempre diferente luz, tornou-se habitual ver pessoas a olhar e a fotografar os flamingos que regularmente se encontram nas salinas coladas à ria, à entrada da cidade de Aveiro. Este cenário é semelhante a outros locais no Mediterrâneo onde existem salinas como na Laguna de Fuente de Piedra na vizinha Espanha ou na região da Camargue em França. A única diferença é que nestes locais, onde os flamingos nidificam, a área das salinas é bastante superior, e os números atingem os largos milhares de flamingos. Na Laguna de Fuente di Piedra, em Espanha, existem registos de mais de 50 mil flamingos e nascimentos de mais de 15 mil crias. Para além dos dois países referidos, os flamingos nidificam ainda em Itália, Grécia e Tunísia e é destes locais que muitas aves se deslocam para Portugal nos meses mais frios. O aumento nos últimos anos do número de flamingos na região do Mediterrânico está relacionado com diversas medidas de conservação. Desde modo, com o aumento dos flamingos nas suas zonas de “origem”, torna-se natural que muitas aves procurem novos lugares para se refugiarem e alimentarem.

Os movimentos dos flamingos, assim como de outras aves, são estudados entre outros métodos, com recurso à anilhagem. Trata-se de uma anilha metálica e/ou plástica com um código numérico e/ou alfanumérico que é colocada na pata da ave quando esta é juvenil. Muitas vezes, é acompanhada por outra anilha de cor, com outro código ou para melhor identificação. Cada país possui um conjunto de códigos e torna-se relativamente fácil observar esses códigos da anilha da pata da ave, com recurso a uns binóculos, telescópico e ou fotografando quando a ave se encontra por perto. Todos os códigos das anilhas dos respectivos países e locais encontram-se reunidos numa base de dados que os especialistas consultam quando querem identificar a origem de um flamingo. Foi desta forma que se conseguiu identificar que sete flamingos fotografados na Ria de Aveiro entre os anos de 2013 e 2017 provinham de locais como a região da Andaluzia (Espanha) 4 aves, Sardenha (Itália) 1 ave, França 1 ave e Turquia 1 ave. Algumas entidades em Portugal possuem dados sobre a origem de muitos dos flamingos que nos visitam durante as migrações das outras regiões do Mediterrâneo. Não deixa de ser interessante prever com o aumento que tem acontecido nos últimos anos com esta espécie em Portugal, se possa assistir, num futuro, à sua nidificação por cá. Seria um feito notável!
 

João Nunes da Silva é jornalista e fotógrafo de natureza, contribuidor frequente de várias revistas nacionais e internacionais, e autor de quatro livros sobre natureza portuguesa.

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