Qual a Diferença Entre Animais Tóxicos e Venenosos?

É fácil ficar confuso com a forma como as cobras, as aranhas e outras criaturas tóxicas usam as suas armas químicas. Eis o que precisa de saber.sexta-feira, 24 de janeiro de 2020

Se nos depararmos com uma espécie desconhecida de cobra, podemos tentar perceber se é tóxica ou venenosa – ou se existe sequer alguma diferença. A verdade é que "venenoso" e "tóxico" são conceitos únicos que descrevem os métodos específicos pelos quais os animais usam o seu armamento químico.

Tanto os animais tóxicos como os venenosos usam toxinas – substâncias que provocam efeitos fisiológicos nocivos quando aplicadas em pequenas doses – para se defenderem ou para subjugarem as suas presas.

As criaturas venenosas, como as vespas, usam as suas toxinas ferindo outros animais, geralmente através de um ferrão, e outros animais podem usar os dentes ou até espinhos. Por outro lado, os organismos tóxicos administram as suas secreções de forma passiva, geralmente através da pele – quando é tocada ou ingerida por outra criatura (como acontece com alguns sapos).

Escolha o seu veneno
As espécies tóxicas só usam as suas toxinas de forma defensiva, para evitar serem comidas por predadores, diz David Nelsen, biólogo na Universidade Southern Adventist, no Tennessee.

Quando ingeridas por um predador, por exemplo, estas toxinas viajam rapidamente pelo seu corpo, provocando danos temporários ou a morte, dependendo do veneno e da dose. Os peixes-balão, por exemplo, são especialmente mortais devido a uma neurotoxina que têm pele e nos órgãos e que é mais tóxica do que o cianeto.

Muitos dos animais tóxicos não fabricam as suas próprias defesas, em vez disso, recolhem-nas de fontes no ambiente. Os peixes-balão, por exemplo, obtêm a sua tetrodotoxina de uma bactéria marinha. As borboletas-monarca, quando são larvas, comem plantas tóxicas que, para as borboletas em idade adulta, têm um sabor amargo.

As cores e padrões de alerta também são abundantes entre a fauna tóxica, particularmente nos sapos nativos da América Central e do Sul.

"Os sapos tóxicos têm uma variedade de alcaloides neurotóxicos que variam entre o desagradável e o letal”, diz Rebecca Tarvin, bióloga evolucionária na Universidade da Califórnia, em Berkeley.

Um dos animais mais tóxicos do planeta, o sapo Phyllobates terribilis, da Colômbia, concentra a sua batracotoxina – que provavelmente vem dos pequenos besouros presentes na sua dieta – segregando-a através de glândulas que tem na pele. Um  destes animais consegue produzir toxinas suficientes para matar várias pessoas.

E acredita-se que outros besouros, que também produzem toxinas semelhantes, sejam os responsáveis pelas penas tóxicas do pássaro Pitohui dichrous, que é nativo da Papua Nova Guiné.

Dentadas e ferroadas
Mas nas criaturas venenosas, os venenos são geralmente produzidos pelos animais que os utilizam, sendo por isso fisicamente mais complexos e "devem ser administrados diretamente no corpo de outro organismo, ignorando o sistema digestivo", diz Nelsen.

E muitas das criaturas venenosas atacam com uma dentada tóxica. As aranhas e as cobras, por exemplo, injetam as suas toxinas através de presas ocas, ou dentes, que desligam os sistemas neurológicos e circulatórios das suas presas.

Mas a natureza também desenvolveu outras estratégias engenhosas. Alguns lagartos – incluindo o enorme dragão-de-komodo – parecem desenvolver a sua própria saliva venenosa. O almiqui – um mamífero raro das Caraíbas – também tem uma dentada venenosa. O caracol marinho (Conus) usa um dente modificado como um arpão venenoso para capturar presas pequenas, mas também consegue injetar toxinas suficientes para matar animais muito maiores.

E outros animais venenosos injetam as suas toxinas através de um ferrão ou de espinhos, como é o caso do peixe-pedra, que tem um veneno terrível nos espinhos da sua barbatana dorsal, ou o sapo Corythomantis greeningi, que usa os pequenos espinhos que tem na cabeça para atacar com uma "cabeçada tóxica".

Mais estranho ainda é o sistema de veneno do loris-lento (Nycticebus), um primata noturno do Sudeste Asiático. Os loris têm glândulas debaixo dos braços que produzem toxinas, e que são lambidas pelos loris e administradas através de dentadas.

Anna Nekaris, bióloga de primatas na Universidade Oxford Brookes, diz que a mistura entre saliva e toxinas parece provocar reações imunitárias dramáticas nas vítimas. "Nos humanos, manifesta-se através de um choque anafilático, dor extrema ou morte de tecidos.”

Uma terceira categoria?
A fazer a ponte entre as categorias tóxicas e venenosas pode estar um terceiro grupo de administração de toxinas: os toxígenos. Os animais toxígenos não injetam as suas toxinas através de dentes ou ferrões, mas também não ficam à espera que lhes toquem: são animais que lançam ou pulverizam as suas toxinas sobre os atacantes. O besouro-bombardeiro expele benzoquinonas irritantes do seu abdómen, e as salamandras-de-fogo pulverizam as toxinas que têm nas glândulas a quase meio metro de distância.

E também temos as doninhas.

"Há muitas pessoas que nunca consideraram as doninhas tóxicas", diz Nelsen. "Mas um cão ou gato que seja pulverizado com as toxinas deste animal pode sofrer ataques violentos de espirros, vómitos, cegueira temporária e até sofrer danos nas células vermelhas do sangue".

Tudo junto
Em casos raros, existem espécies que são tóxicas e venenosas ao mesmo tempo.

Por exemplo, as cobras cuspidoras, que mordem e, graças aos poros que têm nas presas afiadas, pulverizam um veneno capaz de provocar cegueira.

E algumas cobras-de-água do Sudeste Asiático têm uma dentada venenosa e alimentam-se de sapos tóxicos, roubando as toxinas aos anfíbios para as segregarem através das glândulas que têm no pescoço.

Ou seja, por vezes, saber se uma cobra é venenosa ou tóxica vai dar ao mesmo: porque pode ser ambas.
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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