Cães – Vítimas Colaterais da Crise de Opioides

Pela primeira vez, cientistas analisaram o impacto dos opioides nos caninos – e descobriram que os cães mais pequenos e jovens correm mais riscos.segunda-feira, 17 de fevereiro de 2020

Os cães, por natureza, estão sempre famintos e são muito curiosos, e às vezes podem ter problemas quando comem as coisas erradas. Veterinários como Amelia Nuwer testemunharam muitas destas histórias de horror.

Na sua sala de emergências, no Hospital de Animais de Pequeno Porte da Universidade da Flórida, já tratou cães envenenados por todos os tipos de drogas, legais ou ilícitas. Estas substâncias tóxicas incluem opioides – analgésicos ou produtos sintéticos como fentanil e heroína.

Apesar de as overdoses por opioides – que mataram mais de 47.000 pessoas nos Estados Unidos em 2017 – serem consideradas um problema humano, os animais de estimação podem ser afetados, ou até morrer, caso os seus donos não guardem adequadamente as drogas.

Quando os cães ingerem opioides, uma situação que Nuwer encontra a cada poucos meses, geralmente parecem adormecidos ou em estado depressivo, ou, na pior das hipóteses, em coma.

“Os cães ficam mentalmente adormecidos, geralmente com batimentos cardíacos mais lentos e com pressão arterial baixa”, diz Nuwer, sintomas espelhados pelos humanos em overdose. “As drogas diminuem a capacidade do coração em conseguir bombear o sangue e afetam a respiração – e é assim que, inevitavelmente, acabam por falecer.”

Agora, pela primeira vez, os investigadores mediram o impacto das intoxicações por opioides nos caninos. Num artigo publicado na página PLOS ONE, os cientistas analisaram chamadas telefónicas de uma linha de controlo de intoxicações para animais de estimação, e descobriram que os proprietários fazem, em média, quase 600 chamadas por ano relacionadas com ingestões acidentais de opioides.

Os investigadores descobriram que, nos Estados Unidos, entre 2006 e 2014, foram relatados ao Centro de Controlo de Intoxicação de Animais cerca de 5.162 casos de envenenamento por opioides, representando quase 3% das 190.000 chamadas telefónicas relacionadas com caninos. O centro recolheu dados sobre as raças dos cães, idade e peso. Geralmente, as chamadas costumam ser sobre cães mais pequenos e mais novos, diz Mohammad Howard-Azzeh, autor principal do estudo e doutorando em epidemiologia veterinária na Universidade de Guelph.

Talvez isto aconteça porque os cães mais novos são mais curiosos, e fisicamente são mais pequenos. As suas massas corporais são mais suscetíveis a intoxicação.

“Os cães mais pequenos são muito energéticos e muitos dos donos não testam adequadamente as suas casas”, diz Tina Wismer, diretora do centro de controlo administrado pela Sociedade Americana para a Prevenção da Crueldade Contra os Animais.

De acordo com o registo das chamadas telefónicas, o estudo descobriu que as raças de cães brincalhões e os cães de caça tinham mais propensão para o consumo de drogas – sobretudo animais não castrados ou não esterilizados, embora os investigadores não saibam dizer conclusivamente quais são os motivos, diz Howard-Azzeh. O sexo e o estado reprodutivo dos animais não tiveram impactos mensuráveis nas probabilidades de intoxicação.

Mas nem tudo são más notícias. Tal como nos humanos, os cães podem ser efetivamente tratados para as overdoses de opioides com naloxona, uma droga que reverte os danos ligando-se aos mesmos recetores que os analgésicos. “Podemos dar naloxona aos cães até que estes regressem à normalidade, diz Nuwer.

Porém, cada caso é único, e o tratamento pode ser atrasado ou dificultado se os donos não souberem – ou recusarem a dizer – qual foi a droga ingerida pelo seu cão. Isto é relativamente comum, diz Nuwer, sobretudo no caso de substâncias ilícitas.

“Quando os cães consomem algo ilegal, os donos receiam que chamemos as autoridades. Mas os veterinários não são obrigados a relatar o uso de drogas ilegais, e geralmente não o fazem, a não ser que a pessoa aparente estar em risco de se prejudicar a si própria, ou a outras pessoas. Na realidade, o nosso objetivo passa apenas pelo tratamento dos animais, não pela denúncia de humanos que consomem drogas.”

Para além dos opioides, as outras drogas problemáticas ingeridas pelos cães incluem analgésicos que são vendidos sem receita médica, como o ibuprofeno ou o paracetamol, que podem provocar danos nos rins e no fígado, respetivamente. Os outros tóxicos comuns incluem medicamentos para o coração, antidepressivos e medicamentos para a Síndrome de Défice de Atenção e Hiperatividade.

Nas chamadas telefónicas sobre envenenamentos, o chocolate, que também é tóxico para os cães, é o alimento mais comum – e é tratado pela indução de vómito.

O estudo também descobriu que o número de chamadas espelhava o número de prescrições dadas aos humanos, tanto a nível nacional como localmente. Nos países com um número mais elevado de prescrições, os autores do estudo encontraram previsivelmente mais chamadas telefónicas. A quantidade de chamadas para o centro de controlo atingiu o pico em 2008, e depois diminuiu ligeiramente, refletindo a tendência das prescrições humanas, que também diminuíram desde 2010.

De acordo com os dados fornecidos à National Geographic por Tina Wismer, nos últimos quatro anos, o número de chamadas diminuiu para menos de 500. Número consideravelmente mais pequeno do que o verificado, em média, na década anterior. Em 2015 e 2018, o número de chamadas relacionadas com opioides foi 432 e 483, respetivamente – o número mais baixo desde que o estudo começou em 2006.

Mas o uso geral de opioides não diminuiu. Desde 2010, a sua utilização ilegal aumentou, com consequências mortais para os humanos. Até agora, os autores não observaram um aumento correspondente no envenenamento de cães, talvez porque os opioides ilegais são consumidos imediatamente após a compra, e geralmente estão menos acessíveis aos cães do que os medicamentes que, de acordo com o estudo, são guardados durante mais tempo.

Felizmente, grande parte dos envenenamentos pode ser evitada, diz Carolyn Martinko, doutoranda em veterinária na Universidade de Guelph, que não participou no estudo. “Aumentando a sensibilização das pessoas sobre este tópico, e lembrando os donos de cães sobre a importância de manter os opioides num local seguro, longe dos animais de estimação e das crianças; e também sobre a importância de consultar um veterinário antes de darem aos animais medicações sem prescrição adequada.”

“Quando o pior acontece, e o seu cão come qualquer coisa que não devia, não tenha medo de contar ao veterinário”, diz Nuwer.
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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