Esta Raia é Cor-de-Rosa – Porquê?

Os cientistas dizem que a cor da raia, avistada recentemente na Grande Barreira de Coral, não se deve a uma infeção ou à sua dieta.sexta-feira, 28 de fevereiro de 2020

O fotógrafo Kristian Laine estava a fazer mergulho na ilha mais austral da Grande Barreira de Coral da Austrália, quando uma raia cor-de-rosa passou por si. Depois de a fotografar, Kristian ficou convencido de que a câmara tinha algum problema.

“Eu não fazia ideia de que existiam raias cor-de-rosa, fiquei confuso e pensei que a máquina podia estar estragada ou a agir de forma estranha”, diz Laine, cujas imagens publicadas no Instagram se tornaram virais. Mais tarde, Laine percebeu que tinha visto uma raia-manta macho do recife, com mais de 3 metros, e que tem o nome de Inspetor Clouseau, o detetive trapalhão dos filmes Pantera Cor-de-Rosa. Este peixe, que cruza as águas em torno da Ilha Lady Elliot, é a única raia-manta cor-de-rosa conhecida no mundo.

Avistado pela primeira vez em 2015, o Inspetor Clouseau só foi visto mais 10 vezes desde então. “Sinto-me humilde e extremamente sortudo”, diz Laine, que fotografou a raia no meio de um grupo de 7 machos que estavam a disputar uma fêmea. (Descubra a vida surpreendentemente social das raias-manta.)

Os cientistas do Project Manta, grupo de investigação australiano que estuda a raia cor-de-rosa, confirmaram que a sua cor é real. Inicialmente, os cientistas teorizaram que a cor do Inspetor Clouseau resultava de uma infeção na pele ou devido à sua dieta, semelhante à forma como os flamingos cor-de-rosa obtêm a sua cor quando comem pequenos crustáceos. Mas, em 2016, Amelia Armstrong, investigadora do Project Manta, fez uma pequena biopsia à pele do famoso animal, e as suas análises descartaram a dieta ou uma infeção para as causas da cor.

Agora, a teoria principal do Project Manta é a de que a raia tem uma mutação genética na sua expressão de melanina, ou pigmentação, diz Asia Haines, assistente de investigação do grupo.

E a raia não é apenas bonita de se ver – também pode contribuir para a ciência, acrescenta Asia Haines por email. “A compreensão da origem desta mutação genética pode ajudar-nos a descobrir como é que as cores evoluíram nas raias.”

Pintado de rosa

Solomon David, ecologista aquático na Universidade Estadual Nicholls, no estado do Louisiana, suspeita que a mutação se pode dever a uma condição chamada eritrismo, que faz com que a pigmentação da pele fique avermelhada ou, em alguns casos, rosa. Existem outras mutações genéticas mais conhecidas da pigmentação de um animal que o podem tornar melanístico (preto) ou albino (branco).

“Tendo visto outras mutações em peixes relacionadas com a pigmentação, não é completamente inesperado que isto exista, mas mesmo assim, é muito impressionante de se ver”, diz Solomon por email.

Guy Stevens, CEO e cofundador da Manta Trust, uma instituição sediada no Reino Unido, concorda que o eritrismo é a explicação mais plausível.

As raias-manta do recife têm geralmente três padrões de cor: preto, branco, ou preto e branco. Este último, que também é o mais comum, apresenta um padrão chamado contra-sombreamento, onde o peixe tem o dorso preto e a barriga branca. Quando vemos as raias de cima, as suas costas negras misturam-se com a água mais escura, e quando são vistas de baixo, as suas barrigas em tons mais claros misturam-se com a superfície iluminada pelo sol – uma configuração que se acredita oferecer proteção contra predadores, como tubarões.

Guy Stevens acredita que a cor atípica da raia não afeta a sua sobrevivência ou vulnerabilidade a predadores. E as raias-manta do recife atingem tamanhos enormes; um adulto pode pesar facilmente mais de uma tonelada.

A Vida Surpreendentemente Social das Raias-manta

“As raias já nascem grandes, e conseguem crescer muito depressa nos primeiros anos de vida, pelo que só os grandes predadores marinhos as conseguem atacar.”

“Isto só demonstra que a natureza está sempre a surpreender-nos. Agora temos de procurar uma raia azul.”

 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com.

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