Este Tubarão Evoluiu Para Andar em Terra

De acordo com um novo estudo, desde 2008, foram encontradas quatro novas espécies deste colorido e esquecido grupo de habitantes dos recifes.

Thursday, February 6, 2020,
Por Douglas Main
O tubarão-leopardo-epaulette (Hemiscyllium michaeli) pertence a uma espécie de tubarão ambulante que se encontra nos recifes ...
O tubarão-leopardo-epaulette (Hemiscyllium michaeli) pertence a uma espécie de tubarão ambulante que se encontra nos recifes da baía de Milne, na região leste de Papua Nova Guiné.
Fotografia de Conservation International, Mark V. Erdmann

Os tubarões vagueiam pelos oceanos há centenas de milhões de anos. E durante este período, muitas das espécies sofreram poucas alterações. Mas alguns tubarões ainda estão a evoluir – e até aprenderam a “andar”. Conheça os tubarões ambulantes.

Estas criaturas, com pouco menos de 1 metro de comprimento, vivem perto da Austrália e movem as suas barbatanas peitorais e as barbatanas pélvicas para percorrer o fundo do mar – ou recifes de coral, fora da água, durante a maré baixa. Este tipo de mobilidade permite que os tubarões se contorçam entre as poças de água das marés e pelas diferentes áreas do recife, atacando caranguejos, camarões e peixes mais pequenos – praticamente tudo o que conseguem encontrar.

“Durante a maré baixa, estes tubarões são o predador de topo nos recifes”, diz Christine Dudgeon, investigadora na Universidade de Queensland, em Brisbane, na Austrália.

Agora, um estudo feito a longo prazo, desde 2008, por um grupo internacional de colaboradores, descobriu quatro novas espécies de tubarões ambulantes, elevando o número total destas espécies de tubarões para nove. No artigo publicado no dia 21 de janeiro na Marine and Freshwater Research, os investigadores também mostraram que estas espécies evoluíram todas durante os últimos nove milhões de anos.

“Isto não é muito comum”, diz Gavin Naylor – diretor do Programa de Investigação de Tubarões da Universidade da Flórida – porque a maioria dos tubarões evolui muito lentamente. O tubarão-albafar, por exemplo, que habita nas profundezas do mar, “parece parado no tempo”, diz Naylor. “Vemos animais que existiam há 180 milhões de anos e que têm exatamente os mesmos dentes.”

Mas os tubarões ambulantes provavelmente ainda estão a evoluir nas suas águas tropicais nativas em torno da Austrália, da Papua Nova Guiné e no leste da Indonésia.

“Este pode ser um dos únicos lugares do mundo onde a especiação ainda está a decorrer para os tubarões”, diz Naylor. O estudo destes tubarões ajuda os investigadores a compreender melhor os animais e as razões pelas quais “alguns mudam e outros permanecem na mesma”, acrescenta Naylor.

Regresso ao passado
Há cerca de 400 milhões de anos, os antepassados dos tubarões e de todos os outros vertebrados com mandíbulas divergiram. Desde então, surgiram apenas 1.200 espécies de tubarões e raias. Estes animais são geralmente muito lentos a evoluir, são lentos na sua reprodução e vivem muito tempo, explica Naylor.

Em circunstâncias diferentes, esta combinação de características poderia fazer com que um animal se tornasse menos adaptável e mais vulnerável à extinção, visto que, em muitos dos casos, é necessária uma evolução contínua para sobreviver às condições em constante mudança.

Poderíamos dizer, por exemplo, que “estas coisas deviam estar extintas”, diz Naylor. “Como é que se pode ter uma existência tão longa com uma taxa lenta de evolução?”

Mas os tubarões, obviamente, não estão extintos – e têm prosperado, superando muitas das outras criaturas aquáticas que surgiram e desapareceram durante o seu reinado nos mares. Aparentemente, os tubarões descobriram uma fórmula que funciona, apesar das constantes mudanças que se verificam nos oceanos.

Os tubarões ambulantes conseguem abandonar a água durante breves momentos e “andar” entre as poças de água deixadas pelas marés, o que significa que são excelentes predadores.
Fotografia de Conservation International, Mark V. Erdmann

Naylor diz que os recifes de corais dentro da faixa de alcance dos tubarões são dinâmicos, e mudam de forma continuada com os níveis do mar, com as alterações nas correntes e mudanças de temperatura – que fazem com que os corais prosperem ou murchem. É provável que este dinamismo tenha impulsionado a sua rápida evolução e diversidade.

“Para os tubarões, é o equivalente às Galápagos, onde podemos ver a sua evolução em ação.”

Christine Dudgeon diz que, para além disso, estes tubarões “gostam de ficar em casa” – depositam os seus ovos nos recifes e não viajam para muito longe de onde nasceram. Este tipo de comportamento não permite um fluxo de genes muito grande, e obstáculos como pequenas extensões de águas profundas oferecem uma separação para os animais evoluírem de forma singular em lugares diferentes.

Caminhantes pouco conhecidos
Até 2008, os cientistas acreditavam que existiam apenas cinco espécies de tubarões ambulantes, também conhecidos por tubarões-epaulette. Embora grande parte destes animais tenha uma anatomia semelhante, têm padrões diferentes de coloração e marcação. A análise genética detalhada no novo estudo revela que, na realidade, existem nove espécies, e também mostra exatamente quando é que divergiram umas das outras no passado recente.

Christine Dudgeon trabalhou com Gerry Allen, do Museu Western Australian, e Mark Erdmann, da Conservation International, para recolher amostras de ADN dos tubarões da região. O ADN foi recolhido de pedaços minúsculos das barbatanas dos animais – sem os magoar. E também foram usadas amostras de espécimes do museu. As amostras foram sequenciadas e analisadas no laboratório de Naylor, e comparadas para criar uma árvore filogenética, um mapa genético do tubarão ambulante, também conhecido por Hemiscyllium.

Tal como acontece com grande parte dos tubarões, também os Hemiscyllium enfrentam ameaças como a pesca excessiva e a colheita para o comércio de aquários. Algumas das espécies, que estão restritas a áreas relativamente pequenas, estão vulneráveis, diz Christine.

Mas, como muitos destes tubarões só foram descritos de forma detalhada mais recentemente, e são pouco estudados, existe uma lacuna nos dados; apenas três das nove espécies conhecidas estão incluídas na Lista Vermelha de Espécies Ameaçadas da União Internacional para a Conservação da Natureza. Felizmente, acredita-se que nenhuma destas espécies está ameaçada ou em perigo de extinção, mas, em alguns casos, “simplesmente não sabemos o que se passa”, diz Christine.

“Estas espécies têm sido muito negligenciadas.”
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

Continuar a Ler