Inédito: Sismos Podem Dificultar Alimentação de Baleias

Em 2016, um enorme terramoto afetou comunidades inteiras de animais, com repercussões na cadeia alimentar.quinta-feira, 13 de fevereiro de 2020

De acordo com o primeiro estudo a analisar os efeitos dos sismos nos mamíferos marinhos, os terramotos podem afetar as capacidades de caça dos cachalotes durante cerca de um ano.

No dia 14 de novembro de 2016, o sismo de Kaikoura de magnitude 7.8 atingiu a Ilha do Sul da Nova Zelândia, dando origem a um tsunami devastador, para além de ter provocado duas mortes e dezenas de feridos. Debaixo de água, o evento sísmico gerou fortes correntes que dizimaram diversos ecossistemas de invertebrados que vivem ao longo do desfiladeiro subaquático de Kaikoura. O enorme deslizamento de terras não só fez com que as águas ficassem turvas, como também projetou os animais para centenas de quilómetros de distância, provavelmente reorganizando a composição de todo o ecossistema.

Como resultado, os cachalotes foram obrigados a mergulhar mais fundo e durante mais tempo para encontrar comida – uma “grande mudança” no seu comportamento, diz a coautora do estudo, Liz Slooten, bióloga marinha na Universidade de Otago, na Nova Zelândia.

Liz Slooten estava a estudar cachalotes na área de Kaikoura com a doutoranda e autora principal do estudo, Marta Guerra, quando ocorreu o sismo. A equipa  reconheceu a ocasião como uma oportunidade rara para investigar a forma como um desastre natural em grande escala pode afetar os cachalotes, considerados vulneráveis à extinção pela União Internacional para a Conservação da Natureza.

“Estávamos no lugar certo no momento certo”, acrescenta outro dos coautores do estudo, Will Rayment, professor de ciências marinhas na Universidade de Otago. “É impossível planear algo assim.”

O impacto dos sismos nos animais terrestres tem sido bem documentado, mas os cientistas sabem relativamente pouco sobre o que acontece debaixo de água. Por exemplo, as investigações feitas recentemente sobre tubarões nas Caraíbas revelaram que, durante os furacões, os animais mergulham nas profundezas para escapar da turbulência das águas à superfície.

Este tipo de investigação é importante para as agências governamentais, que podem assim levar em consideração os sismos para calcular as quotas de pesca, diz Rochelle Constantine, ecologista de mamíferos marinhos na Universidade de Auckland.

Mergulhar nas profundezas
O desfiladeiro subaquático de Kaikoura, integrado numa região costeira montanhosa, desce até aos 800 metros de profundidade, não muito longe de terra. “Existem poucos lugares no mundo onde podemos ver cachalotes tão perto da costa”, diz Liz Slooten, cujo estudo foi publicado recentemente na Deep Sea Research Part I: Oceanographic Research Papers.

O Que os Cachalotes nos Podem Ensinar Sobre a Humanidade

As partes superiores do desfiladeiro estão repletas de invertebrados, fornecendo alimento para as lulas e peixes que compõem a dieta dos cachalotes.

“Portanto, quando o evento de descarga do sismo projetou estas formas de vida menores, teve consequências graves para a comunidade na região” diz Will Rayment. “Este efeito teve repercussões ao longo de toda a cadeia alimentar.” (Veja fotografias de baleias à volta do mundo.)

Os cientistas estavam a rastrear 42 baleias individuais, identificadas pelas suas marcas caudais distintas. Depois do sismo, a equipa usou hidrofones direcionais para sintonizar os sons dos cetáceos, e dirigiram-se até às fontes sonoras de barco.

Quando chegaram perto das baleias, os cientistas cronometraram o tempo que os animais demoravam a aparecer para respirar e para descansar entre os mergulhos. No total, registaram dados de 40 baleias, mostrando que a abundância de baleias na região não sofreu alterações depois do terramoto. No entanto, as baleias alteraram a forma como usavam o seu habitat.

Os resultados revelaram que os cachalotes passavam cerca de 25% mais tempo na superfície entre os mergulhos do que faziam antes do sismo. Liz Slooten diz que isto sugere que as baleias estavam a recolher mais oxigénio e a recarregar os músculos para mergulhos mais longos ou mais profundos – provavelmente porque havia menos comida disponível.

Para suportar esta teoria, antes do terramoto, as baleias frequentemente concentravam a sua alimentação na zona superior do desfiladeiro. Mas depois do sismo, as baleias abandonaram a área e aventuraram-se em regiões mais profundas.

“Agora, para encontrar comida, as baleias têm um alcance muito maior e estão claramente mover-se de maneiras muito diferentes”, diz Rochelle Constantine, acrescentando que esta área é importante para a alimentação de cachalotes adolescentes.

Recuperar do evento
Um ano depois do sismo, os investigadores observaram as baleias a regressar aos seus intervalos anteriores de respiração à superfície – talvez porque os sedimentos assentaram e a comunidade de invertebrados começou a recuperar.

“Isto dá-nos uma ideia do quão resilientes estas comunidades das profundezas conseguem ser”, diz Will Rayment.

Os investigadores continuam a fazer uma monitorização a longo prazo para ver se existem efeitos que não tenham sido identificados. A atividade dos cachalotes na região já estava em declínio, embora não se saiba se isso se deve a alterações naturais na abundância de presas, ao turismo de observação de baleias, à pesca, ou à subida das temperaturas do oceano.

“Existe definitivamente algo a acontecer em Kaikoura.”
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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