Os Zangões Estão a Ficar Extintos Devido ao ‘Caos Climático’

A perda de polinizadores vitais, devido em parte às temperaturas extremas, pode ter consequências dramáticas para os ecossistemas e para a agricultura.

Thursday, February 20, 2020,
Por Douglas Main
Os zangões, como os da espécie ‘Bombus impatiens’, são vitais pelo papel que desempenham enquanto polinizadores, ...
Os zangões, como os da espécie ‘Bombus impatiens’, são vitais pelo papel que desempenham enquanto polinizadores, mas muitas das espécies estão ameaçadas devido ao calor extremo e a outros fatores.
Fotografia de Clay Bolt, Minden Pictures

Os zangões estão entre os polinizadores mais importantes, mas também estão com dificuldades. Estes insetos destacam-se por espalhar pólen e por fertilizar diversos tipos de flora selvagem e culturas agrícolas cruciais como as de tomate, mirtilo ou abóbora.

Mas os seus números estão em declínio. As investigações feitas recentemente com um conjunto massivo de dados descobriram que estes insetos são muito menos comuns do que costumavam ser; na América do Norte, desde 1974, as probabilidades de vermos um zangão caíram em cerca de 50%.

Para além disso, várias espécies outrora comuns desapareceram de muitas das áreas onde costumavam ser encontradas, tornando-se localmente extintas nesses locais. Por exemplo, a espécie Bombus affinis, que costumava prosperar em Ontário, já não existe no Canadá – e nos EUA está em perigo.

Num novo artigo publicado no dia 7 de fevereiro na Science, os investigadores usaram um processo complexo de modelagem que sugere que este declínio é provocado, em grande parte, pelas alterações climáticas.

Os cientistas descobriram que, nas áreas que se tornaram mais quentes na última geração, ou que sofreram variações mais extremas de temperatura, os zangões são menos abundantes. Na Europa, diminuíram cerca de 17% relativamente ao início do século XX. Os cientistas examinaram a abundância de 66 espécies nos continentes Americano e Europeu.

Esta abordagem sugere que o “caos climático” é o principal responsável pelo declínio dos zangões, diz o líder do estudo, Peter Soroye, doutorando na Universidade de Otava.

“Estes declínios estão associados a espécies expostas a temperaturas às quais não estão habituadas”, diz Soroye. O desaparecimento de uma espécie numa determinada região significa que esta se mudou para outro lugar, ou que morreu.

Talhados para o frio
Sabe-se que os zangões estão mais preparados para o clima frio, com os seus corpos pilosos e capacidade de gerar calor durante o voo – fatores que fazem com que sejam muitas vezes as primeiras abelhas a sair na primavera. Mas, para a maioria das espécies, ainda não se sabe exatamente quais são as suas vulnerabilidades às vagas de calor e flutuações do tempo, embora este estudo sugira que existe um limite para a sua adaptabilidade.

E o mundo está de facto a aquecer. Dos 139 anos registados pela Administração Oceânica e Atmosférica Nacional dos EUA, os últimos 5 foram os mais quentes.

Existem vários mecanismos em jogo, diz o coautor do estudo, Jeremy Kerr. Os insetos podem simplesmente aquecer demasiado, como ficou demonstrado pelas experiências em laboratório, mas também podem existir impactos indiretos na vegetação e nas flores que podem levar as abelhas a morrer de fome.

Os zangões polinizam diversas plantas selvagens e culturas importantes como tomate, abóbora e muitas outras.
Fotografia de Antoine Morin

Os zangões vivem no máximo um ano, e as rainhas costumam passar o inverno no meio de folhas mortas ou no chão. Nestas circunstâncias, continuam vulneráveis às alterações de temperatura, diz Kerr.

Este declínio é perigoso para o ambiente, dado que os serviços de polinização dos zangões são necessários para a reprodução de muitas plantas, diz Matthew Austin, doutorando e investigador na Universidade do Missouri, que não participou neste estudo.

“Como estas plantas são depois usadas por vários organismos diferentes, o declínio dos zangões pode ter efeitos ecológicos em dominó, e podem coletivamente resultar na perda de biodiversidade.”

E também podem existir impactos ao nível económico. Através da polinização de culturas, as abelhas contribuem com mais de 15 mil milhões dólares para a economia dos EUA.

Outros fatores de declínio
As alterações climáticas não são o único fator responsável por este declínio. Os insetos também estão ameaçados por pesticidas – como neonicotinóides, que são extremamente tóxicos para todas as abelhas – pela destruição de habitat, pelo desenvolvimento e conversão de áreas selvagens para a agricultura, pela disseminação de patógenos e pela libertação de abelhas não nativas para fins de polinização comercial.

“Este estudo pode funcionar como uma chamada de atenção para os cientistas reconhecerem o papel que o clima pode ter no declínio das abelhas”, diz Heather Hines, investigadora na Universidade da Pensilvânia que não participou no estudo. “Dito isso, os dados mostram que, apesar de o declínio poder ser atribuído ao clima, esse não é o único fator envolvido na diminuição geral de espécies ao longo do tempo.”

Os autores do estudo concordam e dizem que o artigo mostra que a perda de habitat também é um fator para as extinções localizadas. Kerr enfatiza que “não estamos a argumentar contra o papel da perda de habitat e do uso indevido de pesticidas para este declínio... acreditamos que são fatores de peso, mas são diferentes.”

“Estamos apenas a salientar que existem evidências fortes das alterações climáticas”, acrescenta Kerr. “Se ignorarmos as evidências destas alterações, não conseguimos compreender com clareza o risco de extinção.”

“Apesar de as abelhas conseguirem lidar com um fator de stress, a combinação de vários fatores de stress pode fazer com que as suas populações atinjam um ponto de inflexão”, diz Matthias Becher, ecologista na Universidade de Exeter, no Reino Unido.

Mas alguns investigadores vão mais longe. Jamie Strange, presidente do departamento de entomologia da Universidade Estadual do Ohio, diz que o foco nas alterações climáticas pode ser problemático, porque ignora muitas das outras causas para o declínio.

“O que me preocupa não é a ciência do estudo estar errada, mas sim poder retirar o foco de algumas das questões que precisam desesperadamente de ser tratadas para salvar as populações de abelhas”, diz Strange, “questões semelhantes ou mais prementes do que as alterações climáticas que podem impactar as populações de abelhas no mundo inteiro”.

Formas de ajuda
Porém, existem boas notícias, acrescenta Soroye.

“O artigo sugere que as temperaturas extremas podem afetar os zangões, por isso, a criação de parques, ou a plantação de árvores e arbustos em ambientes urbanos – criando áreas mais frescas – podem oferecer locais de abrigo para os insetos.”

E também existem outras coisas que as pessoas podem fazer para ajudar as abelhas.

Entre as mais fáceis estão as práticas de jardinagem amigas das abelhas, como a plantação de flores nativas, onde os zangões se podem alimentar, e evitar o uso de pesticidas como os neonicotinóides. “A criação de canteiros de flores que florescem continuadamente também pode ajudar”, diz Austin, “e as pessoas também podem esperar pela primavera para removerem as folhas mortas, que são um dos refúgios ideais para estes insetos”.

 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com.

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