População de Pinguins-de-Barbicha Pode ter Caído Para Metade na Antártida

De acordo com uma avaliação preliminar sobre estas aves carismáticas, a subida das temperaturas pode ser a causa para o declínio da sua população.

Monday, February 24, 2020,
Por Jason Bittel
Pinguins-de-barbicha a regressarem à sua colónia, em Stinker Point, na costa oeste da Ilha Elefante. Estas ...
Pinguins-de-barbicha a regressarem à sua colónia, em Stinker Point, na costa oeste da Ilha Elefante. Estas aves devem o seu nome à faixa preta que têm debaixo do bico.
Fotografia de Noah Strycker

A norte da Península Antártica, há uma pequena ilha coberta de gelo que tem a forma de uma cabeça de elefante. Todos os anos, apesar dos ventos brutais e de uma paisagem de penhascos e glaciares, centenas de milhares de pinguins-de-barbicha nidificam nestas margens, criando um mar vivo de penas pretas e brancas.

“Parecem pequenos alpinistas”, diz Noah Strycker, ornitólogo e estudante de pós-graduação na Universidade Stony Brook, em Nova Iorque. “Em algumas zonas, escalam mais de 120 metros.”

Mas quando Strycker e outros cientistas passaram 11 dias a contar ninhos de pinguim-de-barbicha, numa investigação científica feita em janeiro, descobriram que dezenas de milhares de pinguins tinham desaparecido.

Uma colónia de pinguins-de-barbicha reunida na costa sul da Ilha Elefante. Por enquanto, esta é a espécie de pinguim mais abundante na Antártida.
Fotografia de Noah Strycker

“Comparando com o número de ninhos de há 50 anos, descobrimos uma queda de 56%, o que é muito chocante”, diz Strycker.

Devido à sua localização remota e condições inóspitas, o último censo aos pinguins-de-barbicha na Ilha Elefante foi realizado em 1971, e essa investigação identificou 123.000 ninhos. Mas Strycker e a sua equipa encontraram agora menos de metade.

Apesar de esta expedição recente não se ter debruçado sobre as causas para uma queda tão precipitada, outros investigadores encontraram ligações às alterações climáticas, diz Strycker.

Por exemplo, um estudo de 2016 descobriu que, nos últimos 40 anos, pequenos crustáceos chamados krill caíram cerca de 80% em alguns dos mares da Antártida, possivelmente devido ao aquecimento das temperaturas da água. Este krill é o alicerce da cadeia alimentar antártica: os pinguins-de-barbicha comem estas criaturas, que parecem camarões, e os peixes mais pequenos também comem krill (e os pinguins comem estes peixes).

Apesar de esta descoberta ser surpreendente, Strycker adverte que os resultados são preliminares e que ainda não foram publicados numa revista científica. E acrescenta que a Ilha Elefante ainda está repleta de dezenas de milhares de aves destas, e que o estado da espécie é considerado “pouco preocupante” pela União Internacional para a Conservação da Natureza.

“No entanto, tudo isto pode mudar dependendo dos resultados desta expedição.”

Pensar como um pinguim
Para fazer um censo aos pinguins-de-barbicha na Ilha Elefante é necessária uma embarcação que consiga suportar as intempéries dos mares da Antártida. Neste caso, Strycker e os seus colegas ficaram no navio The Esperanza da Greenpeace. Mas como os navios grandes não conseguem chegar perto das margens da Ilha Elefante, a tripulação foi obrigada a usar barcos insufláveis de casco rígido para chegar a um dos poucos pontos de entrada dos penhascos.

“Tivemos de saltar do barco para nos agarrarmos a rochas escorregadias e cobertas de algas, e depois subir”, diz Strycker.

Basicamente, os cientistas tiveram de fazer o mesmo que os pinguins-de-barbicha.

Já em terra, os investigadores separaram-se todas as manhãs e passaram dias inteiros a contar ninhos de pinguim, um a um. “Parece muito básico, mas precisamos de o fazer no terreno”, diz Strycker.

Parte da razão pela qual a expedição foi feita em janeiro deve-se ao facto de nesta altura do ano as crias de pinguim-de-barbicha terem cerca de um mês de idade, o que facilita a contagem de ninhos ativos. No espaço de poucas semanas, as crias começam a ter idade suficiente para se amontoarem em grupos enormes, chamados “creches”, diz Strycker. “E isso dificulta bastante o censo.”

Sentinelas dos oceanos
Outros cientistas também repararam no declínio da espécie.

P. Dee Boersma, especialista em pinguins e presidente da Wadsworth Endowed Chair da Universidade de Washington, estuda pinguins na Antártida e já visitou a Ilha Elefante como naturalista num cruzeiro turístico. “Fiquei surpreendida por ver tão poucos pinguins-de-barbicha”, diz Boersma.

E acrescenta que pode existir outra consequência das alterações climáticas: à medida que a Antártida aquece, a chuva também se torna mais comum – e a chuva é uma ameaça para as crias de pinguim. “Quando as crias ficam encharcadas, podem desenvolver hipotermia e morrer.”

Boersma já registou um evento de chuva na costa argentina que matou metade das crias de pinguins-de-magalhães que ela estava a estudar.

Porém, enquanto estes novos dados não forem publicados, e até que sejam feitos mais estudos sobre as populações de pinguins-de-barbicha em toda a faixa de alcance da espécie, Boersma adverte sobre a extrapolação excessiva de uma só investigação.

“O que isto nos diz é que devemos olhar para estas populações de forma mais cautelosa”, diz Boersma.

“O pinguins são as nossas sentinelas dos oceanos, e de terra também, e quando vemos alterações nas suas populações, devemos prestar atenção.”

 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com.

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