Portugueses na Luta Contra a Extinção de Insetos

Mais de 40% das espécies de insetos encontram-se ameaçadas. Investigadores portugueses, junto de mais de 70 cientistas lutam contra a extinção de insetos.quinta-feira, 13 de fevereiro de 2020

Por National Geographic

A extinção das várias espécies de insetos representa consequências catastróficas para os ecossistemas do planeta e para a própria sobrevivência dos humanos. Os maiores declínios na biomassa de insetos ocorreram nos últimos trinta anos.

O declínio das espécies
Acredita-se que mais de 40% das espécies de insetos se encontram em declínio e que, um terço dessas espécies, está mesmo em perigo. Calcula-se que, em todo o mundo, perdemos 2,5% da biomassa de insetos a cada ano que passa. Por este cálculo e, sobre esta referência, estima-se que no período de 100 anos não teremos mais espécies de insetos.

Os insetos desempenham um papel importante na produção dos nossos alimentos, polinizando-os naturalmente. O desaparecimento dos insetos traz também a fome a inúmeros vertebrados que deles dependem, portanto, teremos o colapso de ecossistemas inteiros. Para além disto, os mesmos também ajudam na limpeza de carcaças e decompõem os resíduos vegetais. Posto isto, o impacto do seu desaparecimento seria gigantesco.

Causas para o declínio e possível extinção de insetos
A intensificação agrícola tornou-se hostil aos insetos. As décadas de 1950 e 1960 mudaram a forma como os agricultores cuidavam dos campos e das suas plantações.

As práticas de pousio foram abandonadas, as monoculturas foram desenvolvidas e os fertilizantes artificiais foram introduzidos como meio de evitar a depleção de nutrientes no solo. Os inseticidas e herbicidas tornaram-se o forte alvo dos insetos, atuando no controlo de pragas e ervas daninhas, como prática comum. Tal ato, por se tornar numa prática bastante recorrente e que representa ganho de rendimento, implicou a perda de habitat de insetos, levando também químicos para as águas nas proximidades, contaminando-as.

Já no que respeita às árvores e sebes, foram cortadas e mesmo eliminadas para abertura de mais espaço no solo. A destruição e fragmentação dos habitats das espécies são mais uma causa para a extinção dos insetos.

Estudos desenvolvidos sobre a problemática
Segundo o estudo de Sanchez-Bayo & Wyckhuys da Biological Conservation, datado de 2019, a agricultura intensiva com recurso a pesticidas e fertilizantes está como causa significativa para a extinção de insetos, representando 46,6% da totalidade de causas. Em seguida, o estudo encontrou os fatores biológicos, com 16,4% e, a urbanização com 10,7%. Fatores como a desflorestação, as zonas húmidas e alterações de rios, o aquecimento global e outros também foram considerados, embora em menor representação científica para a extinção das espécies de insetos.

As mudanças climáticas apresentam riscos para a biodiversidade por meio de vários mecanismos. O estudo The projected effect on insects, vertebrates and plants of limiting global warmimg to 1.5º rether than 2.ºC, do ano de 2018, sugere ainda que se criem políticas de limitação do aquecimento controlando, desta forma, os declínios causados pelas mudanças climáticas.

Sendo a restrição do aquecimento uma tarefa deveras difícil, sugerem também a incorporação de tecnologias de emissões negativas, tipicamente de bioenergia, em larga escala e com captura de carbono e armazenamento.

O conceito de mitigação também é introduzido na ótica da necessidade de permitir que os ecossistemas se adaptem naturalmente ao clima de mudança.

Medidas de conservação para evitar a total extinção de insetos, em desenvolvimento em Portugal:
Recurso a meios naturais para o controlo das pragas e ervas daninhas;
Rotação de culturas com objetivo de maximizar a biodiversidade de insetos benéficos e evitar o esgotamento de nutrientes;
Recurso aos pesticidas em última instância para controlar surtos de pragas ou ervas daninhas, substituindo por medidas mais ecológicas;
Criação de mais espaços verdes nas cidades, com jardins diversificados e selvagens;
Redução da poluição da água, da poluição luminosa e sonora;
Redução da importação de produtos ecologicamente prejudiciais;
Evitar e mitigar a introdução de espécies exóticas;
Conservação das espécies ameaçadas, redesenhando as áreas protegidas;
Investimento e melhoria dos programas de restauro ecológico;
Desenvolvimento de ações de sensibilização e capacitação.

O trabalho de Portugal na prevenção da extinção de insetos
Em Portugal estima-se que existam entre 30 a 40 mil espécies de invertebrados, que incluem os insetos, as aranhas, os crustáceos de água doces, os gastrópodes e os bivalves. 

Estima-se também que um século é o intervalo de tempo que pode levar ao desaparecimento de todos os insetos do planeta, sendo que se trata de uma extinção que já está a avançar a um ritmo bastante acelerado. Em caso de efetiva extinção de insetos, poderá ter consequências absolutamente catastróficas para a vida na Terra.

Segundo o relatório da revista especializada Biological Conservation, mais de 40% das espécies de insetos estão em declínio e um terço já se encontra em risco. A população total de insetos está a cair a uma percentagem de 2,5% todos os anos.

Uma grande falha no que respeita ao controlo das espécies de invertebrados relaciona-se com falta de monitorização. A falta deste recenseamento faz com que não exista, em Portugal, dados quantitativos para especificar mais concretamente o declínio das espécies, embora este seja provado pela monitorização de outros países, bem como, pela observação direta. 

No decorrer do ano de 2019, Portugal iniciou um trabalho com quase uma centena de investigadores onde, numa primeira fase, encontram-se a avaliar entre 700 a 800 espécies. À frente da investigação encontra-se Carla Rego, que reconhece que o trabalho não é fácil e o financiamento é escasso.

Foi em março de 2019 que se começou a trabalhar no projeto da amostragem pioneira da diversidade de insetos em Portugal, no âmbito Lista Vermelha dos Invertebrados, as espécies em risco de extinção, com o cE3c – Centro de Ecologia, Evolução e Alterações Ambientais. A investigação irá prolongar-se até 2021.

A grande barreira na luta pela prevenção da extinção de insetos, passa por um grande desconhecimento da realidade. As respostas de solução para o controlo da extinção de insetos são escassas porque, para além de não se conhecer tudo o que se tem, não se conhece tudo o que se tem de proteger.

As redes sociais têm sido um aliado na manutenção de um grande dinamismo, começando pelo público mais jovem, que é recetivo ao conhecimento do estudo dos invertebrados. Considera-se necessário combater o desinteresse pelos insetos e o medo que persiste sobre os mesmos.

Portugal está também comprometido na colaboração de mais e melhores monitorizações das espécies de invertebrados. Acredita-se que este é um primeiro passo para uma efetiva travagem na extinção de insetos.

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