Surto Fúngico Dizima Anfíbios – Afetando Cobras Tropicais

O fungo quitrídio tem devastado anfíbios pelo mundo inteiro; e um novo estudo revela que também pode extinguir os predadores destes anfíbios – como as cobras.

Wednesday, February 26, 2020,
Por Douglas Main
As cobras tropicais, como as da espécie ‘Chironius grandisquamis’, tiveram um enorme declínio após a disseminação ...
As cobras tropicais, como as da espécie ‘Chironius grandisquamis’, tiveram um enorme declínio após a disseminação de um fungo quitrídio no Panamá. Este fungo exterminou muitos dos anfíbios dos quais as cobras se alimentam.
Fotografia de James Christensen, Minden Pictures/Nat Geo Image Collection

Nos últimos 50 anos, um fungo mortífero destruiu populações de sapos e salamandras no mundo inteiro. Conhecido pelo nome de quitrídio, este fungo levou ao declínio, ou até à extinção, de pelo menos 500 espécies, tornando-o no patógeno mais destruidor do mundo em termos de perda de biodiversidade.

Naturalmente, isto são más notícias para os animais que se alimentam de anfíbios. Mas os cientistas têm poucas informações sobre os impactos deste fungo contagioso nas cadeias alimentares de todo o mundo.

Agora, um novo estudo, publicado no dia 14 de fevereiro na Science, sugere que o declínio de anfíbios afetou gravemente as espécies de cobras tropicais que se alimentam de sapos. De acordo com o estudo, desde 2004, ano em que esta doença invadiu o Parque Nacional Omar Torrijos Herrera, no Panamá, a diversidade de cobras diminuiu significativamente. Provavelmente, isto também se aplica a outros predadores de anfíbios, dizem os autores do estudo.

As probabilidades de mais de uma dezena de espécies, ou talvez mais, terem desaparecido da região são muito elevadas, diz Elise Zipkin, coautora do estudo e bióloga quantitativa na Universidade Estadual do Michigan.

É provável que este declínio acentuado nas populações de cobras tenha os seus próprios efeitos ecológicos e indicie um impacto muito mais vasto na cadeia alimentar em termos globais.

Antes da chegada do fungo quitrídio a um parque do Panamá – fungo que deu origem a um “apocalipse anfíbio” – tinham sido avistadas 7 cobras ‘Leptophis depressirostris’. Posteriormente, apesar das pesquisas intensivas feitas ao longo de 8 anos, nenhuma das cobras foi encontrada novamente.
Fotografia de Edwin Giesbers, Minden Pictures

“Isto pode afetar as aves, os mamíferos e tudo o resto”, diz Julie Ray, outra das coautoras do estudo e professora adjunta na Universidade do Nevada, em Reno.

Por isso é que o estudo é importante, “mesmo para as pessoas que não gostam de cobras”, acrescenta Julie.

Perda de cobras
Apesar de parecer óbvio que um declínio de anfíbios pode afetar os seus predadores, demonstrar que isso é uma realidade requer uma recolha de dados a longo prazo de um sítio específico, algo que é muito raro e difícil de obter, diz Kelly Zamudio, professora de ecologia e curadora de herpetologia na Universidade de Cornell, em Nova Iorque.

Para este estudo, as observações e dados foram minuciosamente recolhidos durante levantamentos feitos no parque do Panamá ao longo de mais de 13 anos, perto da comunidade de El Copé – cerca de metade da investigação foi feita antes da chegada do fungo, e metade foi feita depois de o quitrídio ter dizimado a área.

Os dados em bruto já eram de si suficientes para sugerir que o fungo estava a afetar indiretamente as cobras. Antes da invasão do quitrídio, os cientistas registaram a observação de 30 espécies de cobras diferentes; depois, encontraram apenas 21, e em muito menos quantidade. Das espécies que tinham sido observadas cinco vezes ou mais, mais de 5% começaram a desaparecer.

Mas muitas das espécies são raras: 13 das 36 espécies de cobras que os investigadores observaram ao longo de 13 anos só foram avistadas uma vez. E muitas outras só foram vistas algumas vezes. Isto levanta a questão: como é que estimamos a abundância de uma espécie com tão poucos avistamentos?

Elise Zipkin usou um modelo matemático para inferir as tendências populacionais com base nos avistamentos de cobras, o que sugere que muitas destas espécies raras extinguiram-se localmente, e que a área perdeu mais de uma dezena de espécies.

O artigo sugere que estamos perante um “declínio acentuado... e homogeneização da população”, diz Kelly. “A comunidade mudou para sempre e muitas das espécies podem ter desaparecido por completo.”

“Para mim, é um exemplo incrível de como é importante recolher dados desta forma”, diz Kelly.

“Algo que se abate sobre nós”
A coautora Julie Ray, que recolheu dados no mesmo parque nacional do Panamá ao longo de 8 anos, não tinha inicialmente como objetivo analisar o impacto do fungo, conhecido por Batrachochytrium dendrobatidis. O fungo tinha chegado pouco antes de Julie ter começado a fazer a sua recolha de dados em 2005.

Na altura, os objetivos de Julie passavam pela contagem do número de cobras e por aprender mais sobre o que comiam – objetivos integrados num estudo de doutoramento sobre dois géneros que se acreditava comerem maioritariamente caracóis, como a sugadora de caracóis Sibon argus, uma serpente delgada com uma cabeça achatada e olhos ligeiramente salientes.

Mas a sugadora de caracóis, ao contrário do que se pensava, não suga realmente caracóis. Em vez disso, caça principalmente ovos de sapo – e isso representava um problema. Antes de o fungo aparecer, os investigadores, incluindo a coautora Karen Lips, da Universidade de Maryland, registaram 149 observações de animais. Depois do fungo aparecer, este número caiu em cerca de 66%. E os animais que Julie encontrava estavam muitas vezes magros e com sinais de subnutrição.

Estas cobras, explica Julie, podem comer apenas uma vez por ano – é por isso que ainda conseguem sobreviver, ainda que num estado deplorável, durante um longo período de tempo após o desaparecimento das suas presas.

As graciosas ‘Rhadinaea decorata’ foram gravemente afetadas pelo quitrídio – antes da chegada do fungo, tinham sido avistadas 13 vezes, mas depois desapareceram.
Fotografia de Biosphoto, Alamy

Julie Ray, antes de começar a trabalhar em El Copé, já tinha trabalhado noutras duas regiões do Panamá, onde viu os sapos a começarem a desaparecer. Seis meses depois da chegada do quitrídio, a grande maioria dos sapos morreu, e os seus corpos empilhavam-se nos riachos.

“É uma loucura a quantidade de sapos que víamos antes do declínio e depois”, diz Julie. As investigações feitas anteriormente por Karen Lips e por outros investigadores descobriram que, na região, o quitrídio reduziu a abundância de anfíbios em 75% e originou o extermínio de pelo menos 30 espécies.

Mas depois, as espécies do estudo de Julie – cobras – começaram a ser afetadas, e quando Julie saía à noite para as procurar, encontrava cada vez menos cobras.

“De certa forma, estamos tão envolvidos no momento, a tentar recolher os dados”, diz Julie. “Mas eventualmente percebemos que estes números são reais, são números associados a animais reais. É algo que se abate sobre nós.”

Repercussões na cadeia alimentar
A perda de anfíbios tem outros impactos ecológicos, para além de afetar as cobras. Na cadeia alimentar, a remoção de girinos de sapo tem demonstrado dar origem a um crescimento mais acentuado de algas nos riachos, privando-os de oxigénio. E quando subimos na cadeia alimentar, a perda de cobras tem as suas próprias repercussões.

“As cobras têm uma importância vital no ambiente, se as retirarmos, pode colapsar tudo”, acrescenta Julie.

“Suspeito que provavelmente existem outros predadores e presas que foram afetados pela perda de anfíbios”, concorda Jamie Voyles, bióloga na Universidade do Nevada, que não participou neste trabalho.

“Este estudo também sublinha a devastação provocada pela quitridiomicose” – o nome técnico desta infeção patogénica – “e os efeitos que as doenças infecciosas emergentes podem ter na biodiversidade”, acrescenta Jamie. “Isto revela que as doenças infecciosas emergentes podem ter impactos que vão para além do que sabíamos anteriormente.”

Felizmente, existem sinais de esperança, dado que um pequeno subconjunto de espécies de anfíbios está a mostrar sinais de resiliência; algumas populações estão lentamente a começar a recuperar. E algumas espécies de cobras também conseguiram alterar os seus hábitos para apanhar presas diferentes, como lagartos. Algumas das serpentes que não comem anfíbios parecem estar a aumentar, provavelmente devido à redução na concorrência.

Mas os efeitos do quitrídio só estão a ser compreendidos agora – e podem indubitavelmente ter efeitos a longo prazo ou permanentes.

 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com.

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