Tráfico de Besouros Raros Para o Japão Atinge Níveis Alarmantes

Os besouros rinoceronte estão a ser levados da Bolívia e acabam no comércio ilegal de animais de estimação no Japão – e em lutas de besouros.

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2020,
Por Eduardo Franco Berton
Os besouros-hércules, como o que vemos nesta exposição de insetos que decorreu no ano passado no ...
Os besouros-hércules, como o que vemos nesta exposição de insetos que decorreu no ano passado no Museu de Ciências de Fukuoka, no Japão, estão entre os animais favoritos dos colecionadores japoneses. Os conservacionistas estão preocupados com o declínio das populações de besouros-satanás, um besouro rinoceronte nativo da Bolívia, que também é muito procurado no Japão e em outros lugares como animal de estimação.
Fotografia de The Yomiuri Shimbun/AP Images

COROICO, BOLÍVIA – “Precisamos de noites escuras – os besouros não gostam do brilho da lua”, explica Reynaldo Zambrana. “Primeiro vem a fêmea, e depois o macho. E temos de os apanhar depressa, senão enterram-se.”

São 3 da manhã, estamos em fevereiro de 2019, e Reynaldo Zambrana está a cortar vegetação com um machete na encosta de uma floresta a cerca de 100 km a nordeste da capital da Bolívia, La Paz. Na clareira, Reynaldo instala um pequeno gerador para alimentar uma lâmpada de 250 watts que está colocada atrás de um pano branco suspenso entre duas varas.

Esperamos cerca de uma hora até que o silêncio é interrompido pelo bater das asas – os besouros aproximam-se do brilho na floresta – e Reynaldo espera que fiquem presos na sua armadilha.

No total, esta caçada rende três Dynastes satanas, enormes besouros pretos brilhantes endémicos da Bolívia que são conhecidos localmente por “quebra lâmpadas”. Juntamente com o besouro-hércules (Dynastes hercules), estes besouros são membros da subfamília do besouro rinoceronte, animais muito cobiçados pelos seus chifres impressionantes, sobretudo no Japão.

Todos os anos, entre janeiro e maio, no município montanhoso de Coroico, os caçadores de besouros-satanás podem ganhar até 30 dólares por cada besouro vivo. Nas lojas de animais no Japão, os besouros-satanás mais vistosos conseguem atingir preços a rondar os 500 dólares. (Os preços variam de acordo com o tamanho, a forma e o comprimento do chifre.)

Reynaldo Zambrana coloca cuidadosamente os três besouros numa caixa de plástico – que tem furos para os animais respirarem – e coloca uma fatia de banana na caixa para os animais petiscarem.

“Num dia bom, podemos apanhar 5 besouros”, diz Reynaldo. “Durante uma temporada, uma pessoa consegue apanhar cerca de 70 besouros. O maior que apanhei tinha 14 centímetros. Vendi-o a um mexicano que trabalha com os japoneses.”

Na Bolívia, a captura ou o armazenamento de animais selvagens é proibida desde 1990, e as leis estabelecem penas de prisão de até 6 anos para as pessoas que violam estas normas. Para o Ministério do Ambiente da Bolívia o besouro-satanás é um animal classificado em perigo de extinção e, de acordo com a Convenção sobre o Comércio Internacional de Espécies da Fauna e da Flora Selvagem Ameaçadas de Extinção (CITES), entidade que regula o comércio transfronteiriço de animais e plantas, a importação e exportação tem restrições muito apertadas.

No Japão, a Lei das Espécies Exóticas Invasoras – lei que visa impedir os efeitos adversos de animais e plantas introduzidos em ecossistemas diferentes, para além de visar também a segurança humana, a proteção da agricultura, da silvicultura e da pesca – proíbe a importação de 148 espécies de animais e plantas. Porém, os besouros-satanás e hércules não estão salvaguardados. Segundo Aya Yatsumoto, do Gabinete de Cooperação Ambiental do Ministério do Ambiente do Japão, estes besouros não estão incluídos na lista porque não são considerados uma ameaça para os besouros selvagens japoneses. “Como são muito dispendiosos”, diz Aya, “os japoneses querem mantê-los como animais de estimação e não os querem libertar na natureza.”

O boliviano Porfirio Mamani, um caçador de besouros-satanás de Santo Domingo, uma comunidade perto de Coroico, diz que é preciso muito esforço para garantir que os besouros chegam ao Japão, e a outros mercados, vivos e em boas condições. Parte destes cuidados especiais, diz Porfirio, envolve a higiene dos animais. “Temos de os limpar todos os dias porque eles sujam-se muito enquanto comem. Quando lhes damos um bocado de banana, eles conseguem comê-la em noite e meia.”

Depois de cada noite de caça bem-sucedida, Porfirio Mamani mede os besouros e coloca-os em recipientes de plástico, sendo depois embalados em caixas de papelão. Porfirio envia os besouros de autocarro para um intermediário no Peru, responsável pelo seu transporte até ao Japão. Desde 1996, ano em que começou a colecionar besouros-satanás, Porfirio já exportou cerca de 720 besouros para o Japão desta forma.

Reynaldo Zambrana diz que, para além de comercializar besouros vivos para o estrangeiro, também já exportou larvas com dois meses – as probabilidades de as larvas serem detetadas pelos funcionários da alfândega no aeroporto são menores.

Os besouros rinoceronte, como o besouro-hércules da Costa Rica, ajudam a manter os ecossistemas florestais saudáveis. Os besouros rinoceronte da Bolívia estão ameaçados pela perda de habitat e pela caça furtiva que alimenta o comércio de animais de estimação.
Fotografia de Piotr Naskrecki

O entomologista Fernando Guerra Serrudo, investigador associado no Instituto de Ecologia da Bolívia e no Museu Nacional de História Natural de La Paz, está preocupado com a escala do comércio de besouros Dynastes. “O tráfico ilegal de insetos gera muito dinheiro”, diz Serrudo. “Até se podem vender pulgas na internet. Todos os tipos de insetos têm um preço e existem sempre compradores. Se a extração de besouros continuar a este ritmo, os animais vão desaparecer.”

Para além da caça furtiva e do contrabando, a perda de habitat devido ao desflorestamento e às queimadas que limpam a terra para a agricultura também são uma ameaça significativa. “A floresta está a ser dizimada para implementarem culturas agrícolas e plantações de folhas de coca”, diz Serrudo. “E mesmo nas encostas, onde é impossível cultivar, estão a plantar coca, e os habitats destas espécies estão a desaparecer.”

“A perda de besouros Dynastes”, acrescenta Serrudo, “é prejudicial porque os besouros reciclam nutrientes nas florestas tropicais. Quando as larvas se alimentam, quebram a madeira e aceleram a sua decomposição. Para além disso, quando os besouros escavam no subsolo, para se alimentarem de matéria orgânica em decomposição, ajudam a arejar o solo.”

A cobiça pelos besouros
Do outro lado do mundo, em Osaka, no Japão, falo com Yayoi Suzuki, que tem uma loja de animais de estimação com o seu marido, Hideyuki – a loja chama-se Insect Shop Global. “As pessoas no Japão gostam realmente dos besouros-satanás e hércules porque são maiores do que as espécies que temos no Japão”, diz Yayoi. “São animais fascinantes.”

De facto, os besouros são muito apreciados pelos japoneses. Todos os verões, as crianças caçam besouros nos parques e espaços verdes de Tóquio, e este apreço inspirou personagens Pokémon como o Mega-Heracross, que é baseado no besouro-hércules.

De acordo com Yayoi, os besouros japoneses têm uma esperança média de vida muito curta – até cerca de 3 meses – outro dos fatores que os torna menos desejáveis do que os besouros-satanás e hércules que podem viver até 2 anos.

O Japão tem dois tipos de amantes de besouros, diz Yayoi: os que gostam de criar besouros e de os manter vivos, e os que preferem colecionar os animais preservados para exibição. O casal Suzuki vende besouros vivos, alguns são criados na sua loja e outros são criados a partir de larvas que compram a outros criadores japoneses.

Quando dou uma vista de olhos pela loja, vejo algo a contorcer-se dentro de um recipiente de plástico transparente. É um verme amarelado com cerca de 10 centímetros de comprimento, tem a grossura de uma salsicha e tem pelos minúsculos no corpo – e mandíbulas ameaçadoras. “É uma larva de besouro-satanás”, diz Yayoi Suzuki a sorrir. A caixa tem uma etiqueta a dizer que se trata de um individuo do sexo masculino que foi criado na loja.

Yayoi diz que, antigamente, o seu marido Hideyuki viajava três vezes para as Ilhas Guadalupe, na costa oeste da Península da Baixa Califórnia, no México, para ir buscar besouros-hércules. Há cerca de 10 anos, Yayoi e Hideyuki foram para a Bolívia na esperança de adquirir 200 besouros-satanás, mas as autoridades bolivianas rejeitaram o pedido.

“Veja como ele gosta de gelatina!” exclama Yayoi, enquanto pega num besouro-satanás adulto de outro recipiente e o coloca nas minhas mãos. O casal Suzuki alimenta os seus besouros com uma mistura de proteína animal, sacarídeos, vitaminas, minerais e suco de frutas com sabor a banana, que são feitos na loja. Esta dieta, diz Yayoi, tem todos os elementos nutricionais que os besouros-satanás necessitam.

Primeiro assalto!
O interesse dos japoneses pelos besouros grandes e bem armados vai para além do estatuto de animais de estimação. Jose Iannacone-Oliver e Alexander Soras-Vega, investigadores do departamento de biologia da Universidade Nacional Federico Villarreal, em Lima, no Peru, dizem que, “entre outros fatores que provocam o declínio da população de besouros, está a sua utilização em combates, o que impulsiona a demanda nos mercados mundiais”.

Na natureza, durante a época de acasalamento, os besouros rinoceronte usam os seus chifres como armas para levantar, virar ou arremessar os outros machos em lutas pelo domínio.

No YouTube, existem canais japoneses que transmitem ao vivo várias lutas de besouros em pequenos ringues. O objetivo passa por um dos besouros virar o seu oponente, ou até expulsa-lo do ringue. Estes concursos atraem milhares de visualizações. Kazuhiko Iijima, gerente da Mushisha, uma loja de insetos em Tóquio, atesta a popularidade deste desporto. “Tóquio tem vários torneios, e os vencedores, dependendo do número de participantes, ganham muito dinheiro.”


Os entusiastas de lutas de besouros esforçam-se muito para aperfeiçoar os seus kabutomushi (kabuto significa capacete de samurai e mushi é a palavra para inseto) para os combates, que são realizados principalmente durante o verão. “Treinei-o deliberadamente, deixando-o lutar contra besouros mais pequenos e habituei-o a vencer”, disse Shin Yuasa sobre o seu besouro vencedor depois de um combate em Tóquio – de acordo com a repórter da Reuters Masako Iijima.

Este desporto também apela às crianças. No dia 16 de julho de 2018, Tessho Suzuki, de 8 anos de idade, foi o vencedor do Torneio Nacional de Sumo de Besouro Rinoceronte, realizado na prefeitura de Yamagata, na ilha de Honshu. Cerca de 400 jovens da mesma idade participaram no evento. O prémio: carne e ameixas de Nakayama, uma cidade em Yamagata.

E as apostas nos resultados destas lutas também é comum, sobretudo nas ilhas Ryukyu e em Okinawa. O Código Penal Japonês proíbe grande parte destas apostas e, de acordo com alguns dos sites de apostas na dark web, os pagamentos geralmente são feitos em bitcoins, valores para os quais não existe supervisão e que são difíceis de rastrear.

Apanhar um ladrão de besouros
Fernando Guerra Serrudo, especialista em besouros, diz que os contrabandistas japoneses viajam cada vez mais para a Bolívia para caçarem eles próprios os besouros, deixando de fora os fornecedores locais. “Eles agora têm contactos, com experiência obviamente, que os ajudam a recolher espécimes”, diz Serrudo.

Reynaldo Zambrana, o caçador de besouros de Coroico, confirma esta situação. Reynaldo diz que alguns japoneses contratam guias turísticos de língua inglesa na região para os levar aos principais locais de captura de besouros.

Em Coroico, falei com um guia turístico que diz que, em 2018, foi contratado por três japoneses para os ajudar a encontrar besouros-satanás. “Montámos um acampamento em Arapata”, diz o guia, que pede para manter o anonimato com receio das autoridades. “Encontrámos três besouros. Eles disseram que iam regressar ao mesmo local no ano seguinte (em 2019).”

Na Bolívia, as detenções devido à caça e comércio de besouros são raras, diz Walter Andrade, coronel da Polícia Florestal e Ambiental de La Paz. Andrade atribui esta situação, em parte, à falta de supervisão na fronteira com o Peru, que facilita a retirada de besouros do país. “O controlo existente é mínimo, tanto pelas autoridades peruanas quanto bolivianas, para uma fronteira tão grande.” Esta fronteira estende-se ao longo de mais de 160 km.

Em junho de 2007, Hosogushi Masatsugu, cidadão japonês, foi detido no Aeroporto Internacional Mariscal Sucre, em Quito, no Equador, quando tentava contrabandear 423 besouros da Bolívia para o Japão; 211 besouros Dynastes satanas desta apreensão foram posteriormente devolvidos à Bolívia, de acordo com um relatório do Ministério do Ambiente da República do Equador. Em fevereiro de 2010, um carregamento de 2.752 besouros de várias espécies, incluindo muitos besouros rinoceronte, foi intercetado nos postos de correio de La Paz. Ericka Cuevas Santos, uma mulher boliviana, foi detida e esteve presa, mas a sua cúmplice peruana, Dina Elsa Vega Aguilar, conseguiu fugir e ainda é procurada pelas autoridades bolivianas e pela Interpol.

Andrade diz que a detenção mais recente da sua agência ocorreu há dois anos e meio. “Eram três besouros-satanás que estavam à venda numa loja de artesanato na cidade de Copacabana, por 100 dólares cada. Os besouros tinham sido cuidadosamente preparados dentro de uma caixa de vidro, ideal para os colecionadores de insetos.”

Andrade lamenta a falta de agentes ambientais na Bolívia. Isto significa que os departamentos regionais com falta de pessoal precisam de recorrer aos 24 agentes de La Paz, que são pressionados para lidar com a carga de trabalho na capital, sem esquecer as colaborações feitas nas operações de fiscalização noutras partes do país.

“Podemos fazer um encontro secreto na Bolívia”
De acordo com Andrade, os traficantes de insetos fazem a maior parte dos seus negócios através das redes sociais. “Cerca de 80% dos pedidos são feitos na internet”, diz Andrade, acrescentando que o seu departamento iniciou um sistema de monitorização para detetar vendas ilegais nas redes sociais.

Andrade diz que “também estão a trabalhar na educação das crianças, tentando sensibilizar os mais jovens para um tipo de pensamento que, daqui a 10 ou 15 anos, pode fazer com que as pessoas estejam mais cientes do problema”, podendo assim ajudar a diminuir o tráfico.

Quando entrei em contacto com a página de Facebook 100 % Insect JAPAN, que oferece espécies de besouros de mais de 15 países, incluindo besouros Dynastes da América Latina, um administrador da página disse-me que costumava vender besouros criados em cativeiro. Esta prática era legal, mas agora, a página só oferece espécimes capturados na natureza, o que em grande parte é ilegal. (Este método possibilita evitar a documentação de importação e exportação).

Este homem, que insiste no anonimato, concordou em encontrar-se comigo para tomar um café no aeroporto de Narita, em Tóquio, mas não apareceu. Depois de inúmeras comunicações através do Facebook, antes de me bloquear, o homem divulgou que apanha os besouros em diferentes países e que os leva para casa, no Japão, na mala de viagem. Ele diz que recebe documentação adequada para algumas das espécies, mas não para todas.

Eventualmente, o homem parece esquecer-se de que eu me apresentei como jornalista da National Geographic e pergunta-me se estou disposto a apanhar besouros para ele. “Se você puder, podemos fazer um encontro secreto na Bolívia. Ainda não tenho a certeza de quando posso ir, mas quero organizar a minha agenda para 2020.”

Entretanto, Reynaldo Zambrana diz que vai deixar de caçar besouros. Ele e outros membros da comunidade faziam esta atividade para complementar os escassos ganhos. “Nós ganhamos a vida como qualquer outra pessoa”, diz Reynaldo. Mas agora está preocupado porque o comércio está a prejudicar os besouros. “Parece-me que os traficantes estão a levar tudo e não deixam nada. Isso motivou-me a parar com esta atividade ilegal.”
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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