A Cidade de Nova Iorque tem um Problema com Tartarugas

Estes animais de estimação abandonados estão a espalhar o caos pelos parques da cidade.segunda-feira, 2 de março de 2020

CIDADE DE NOVA IORQUE – Verde e viscoso, o Lago Morningside parece um caldeirão de sopa de ervilhas estragada. Os copos e sacos de plástico que flutuam nas margens do lago estão rodeados por bolhas de espuma verde. Provavelmente é isto que se espera de um lago artificial no centro de um parque da cidade de Nova Iorque.

Ainda assim, existe aqui vida. Na margem oposta à dos bancos de jardim, um riacho flui sobre uma rocha, e alguns salgueiros inclinam-se em direção ao lago. E também temos uma fila de quase 100 tartarugas, todas alinhadas numa margem, a desfrutar do sol da primavera.

São tartarugas-de-orelha-vermelha, as mais populares no comércio de animais de estimação dos EUA. Nativas do rio Mississippi e do Golfo do México, são criadas por criadores de tartarugas a uma escala industrial, e vendidas a revendedores de animais de estimação. De acordo com a União Internacional para a Conservação da Natureza, entre 1989 e 1997, os EUA exportaram legalmente mais de 52 milhões de tartarugas-de-orelha-vermelha, muitas delas para a China. Mas existem muitas mais que são vendidas ilegalmente através de uma rede de sites, lojas de animais de estimação e vendedores ambulantes.

As tartarugas-de-orelha-vermelha – o nome deve-se às marcas vermelhas que têm na cabeça e que parecem orelhas – estão consistentemente designadas pela IUCN como uma das 100 piores espécies invasoras do mundo. Quando os donos destes animais de estimação percebem que os répteis exigem aquários grandes e sistemas dispendiosos de filtragem, e que podem viver até aos 50 anos, acabam por os deitar fora. (Descubra porque razão nunca devemos libertar animais de estimação exóticos na natureza.)

De facto, cerca de 90% das tartarugas-de-orelha-vermelha neste lago – a grande maioria está escondida debaixo da água turva – provavelmente eram animais de estimação, diz Allen Salzberg, editor da Newsletter HerpDigest e membro de longa data da organização sem fins lucrativos New York Turtle and Tortoise Society.

Mas estes animais abandonados estão a revelar-se um problema para o ecossistema urbano da cidade de Nova Iorque – expulsam espécies nativas de tartarugas, e geram proliferações de algas nocivas para os cursos de água locais, podendo expor os humanos a bactérias.

Este fenómeno não é exclusivo de Nova Iorque: os répteis invasores vivem agora em quase todos os estados dos EUA, incluindo o Havai. Apesar de ser difícil contabilizar a população invasora desta tartaruga, na última década os utilizadores da aplicação iNaturalist documentaram dezenas de milhares de tartarugas-de-orelha-vermelha em quase todas as zonas residenciais e urbanas dos EUA.

Espécies adaptáveis
Estes animais, apesar de serem austrais, adaptaram-se bem à vida na Big Apple. “São completamente otimistas”, diz Salzberg. “Aproveitam ao máximo tudo o que têm disponível.”

Por exemplo, esta espécie consegue viver durante meses sem comer, retardando o metabolismo quando os recursos são escassos. E quando a comida é abundante, como acontece no Parque Morningside, as tartarugas continuam a crescer. Muitas das tartarugas do Lago Morningside têm peso a mais, com pernas e pescoços invulgarmente grossos. E o facto de os répteis comerem praticamente tudo, incluindo peixes, insetos, vegetação e até petiscos destinados a humanos, como batatas fritas, também não ajuda. As suas carapaças resistentes e a velocidade com que nadam dentro de água também oferecem boas defesas contra predadores como guaxinins e coiotes.

À medida que as populações de tartarugas-de-orelha-vermelha crescem, as espécies de tartarugas nativas são afetadas.

A propriedade das águas de Nova Iorque costumava ser partilhada por várias espécies de tartarugas que mantinham entre si as diversas populações sob controlo. Mas a competição com as tartarugas-de-orelha-vermelha por comida e por espaço para aproveitar o sol – crucial para os animais de sangue frio – levou ao declínio das populações de tartarugas nativas. Por exemplo, as tartarugas-pintadas são a espécie mais comum no estado de Nova Iorque, mas o seu número diminuiu em algumas áreas, em parte devido às tartarugas-de-orelha-vermelha. (Veja como as espécies invasoras podem danificar ecossistemas.)

“Há um lago no Central Park... chamado Lago Tartaruga”, diz Salzberg. “Eu costumava visitar esse lago e via um bom número de tartarugas-pintadas e cágados. Agora só existem tartarugas-de-orelha-vermelha. A última vez que eu e a minha mulher vimos uma tartaruga-pintada foi há 2 anos.”

E a água esverdeada do Lago Morningside também se deve às tartarugas-de-orelha-vermelha. O fitoplâncton – plantas microscópicas que provocam a proliferação de algas verdes – alimenta-se dos nutrientes presentes nos dejetos dos animais. As proliferações de algas consomem oxigénio e bloqueiam a luz do sol, afetando invertebrados e plantas.

Libertações ilegais
As leis da cidade de Nova Iorque proíbem a libertação de animais de qualquer espécie. Mas, para empregar esta lei, os guardas dos parques teriam de patrulhar 24 horas por dia todos os metros quadrados de cada parque, diz Christopher Joya, professor do ensino secundário e voluntário na Urban Utopia Wildlife Rehabilitation, uma rede de reabilitadores de animais selvagens licenciados pelo estado, sediada em Nova Iorque

Christopher também ensina ciências no ensino secundário, na Escola JHS 88 Peter Rouget, em Brooklyn. No ano passado, quando estava a dar uma aula aos seus alunos de 11 anos sobre medicina e reabilitação de vida selvagem, um dos alunos apareceu na escola com uma caixa – e colocou orgulhosamente a caixa na mesa de Christopher. Lá dentro estava uma tartaruga-de-orelha-vermelha.

O aluno tinha visto o dono do animal a colocar a sua tartaruga indesejada na relva  do Parque Prospect. Depois de ter aprendido nas aulas que os animais domésticos não estão adaptados para viver na natureza, o aluno levou a tartaruga para a escola.

“Para mim, enquanto professor, foi um momento gratificante”, diz Christopher. “Foi algo do género, uau, ele aprendeu mesmo qualquer coisa.”

Mas Christopher sabia que era difícil encontrar um novo lar para a tartaruga. As tartarugas-de-orelha-vermelha saturaram tanto o mercado de animais de estimação que os poucos grupos de conservação e resgate de tartarugas de Nova Iorque já não as conseguem acolher.

Christopher decidiu manter a tartaruga resgatada na sala de aula, gastando centenas de dólares do seu bolso num aquário de 190 litros. A turma chamou a tartaruga de Peace, ou Paz.

Vendas ilegais
A posse de uma tartaruga-de-orelha-vermelha também acarreta riscos para a saúde. Tal como acontece com a maioria dos répteis e anfíbios, as tartarugas têm naturalmente bactérias salmonela nos seus corpos. E são animais fáceis de lidar para as crianças, que agarram e beijam as tartarugas.

É assim que a salmonela – que pode ser mortal para as crianças – passa das tartarugas para os humanos.

Em 1975, para combater a propagação de salmonela, o Departamento de Saúde dos EUA aprovou a “Lei das 4 Polegadas”, proibindo a venda de tartarugas com carapaça com menos de 10 centímetros de largura. Porquê 10 centímetros? Salzberg diz que naquela época os reguladores especulavam que as crianças mais pequenas não conseguiam meter uma tartaruga bebé inteira na boca.

O regulamento de 1975 limitou a venda de tartarugas-de-orelha-vermelha nas lojas de animais, mas nas lojas do mercado clandestino de Chinatown, na cidade de Nova Iorque, as tartarugas continuam a impulsionar um mercado ilegal de animais de estimação. As crias de tartaruga-de-orelha-vermelha são frequentemente vendidas por vendedores ambulantes em Brooklyn, Harlem e Queens, e também são vendidas online – atualmente, existem pelo menos 20 sites que vendem de forma ilegal tartarugas com menos de 10 centímetros de largura.

Espécies Invasoras 101
As espécies invasoras custam à economia global mais de um trilião de dólares por ano. Descubra como estes organismos não-nativos são introduzidos num ecossistema, como impactam as comunidades locais e que medidas podem ser tomadas para ajudar a prevenir a introdução de espécies invasoras.

“Os pais vão passear com os seus filhos para Chinatown e as crianças começam a dizer: Mãe! Mãe! Olha aquela tartaruga adorável! E, quando dão por si, estão presos a um animal de estimação durante 50 ou 60 anos”, diz Salzberg.

Não existem soluções perfeitas
De regresso ao Lago Morningside, um grupo de crianças observa as tartarugas. Uma das crianças tira uma tartaruga da água e segura-a com os braços estendidos, enquanto a tartaruga move as pernas para frente e para trás, como se estivesse a nadar no ar. Christopher aproxima-se da criança e ela deixa cair a tartaruga no betão.

“Vocês sabiam que as tartarugas conseguem sentir tudo na zona exterior das suas carapaças, tal como os humanos sentem o toque na pele?” pergunta Christopher às crianças depois de colocar a tartaruga incólume na água. “A espinha das tartarugas está embutida na carapaça.”

Para além da educação das crianças sobre a responsabilidade que é ter um animal de estimação, Christopher e Salzberg admitem que não há soluções perfeitas para o problema das tartarugas-de-orelha-vermelha na cidade de Nova Iorque. Existem grupos no Facebook onde as pessoas podem publicar anúncios de adoção para realojar as suas tartarugas, mas a oferta é muito maior do que a procura.

“Uma eutanásia feita com dignidade” – embora na opinião de Christopher este seja o último recurso – “costuma ser a opção mais realista para as tartarugas e para o ambiente que estão a danificar”, diz Christopher.

“Peço desculpa se isto choca as sensibilidades de alguém, mas...” Christopher faz uma pausa para olhar para as crianças. “Sabem que mais, esqueçam o que disse. Não peço desculpa nenhuma. As pessoas têm o dever de se informar antes de adquirirem uma tartaruga.”

 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com.

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