Coronavírus – Notícias Falsas Sobre Animais Inundam Redes Sociais

Histórias inventadas sobre animais selvagens nas cidades de quarentena oferecem uma falsa sensação de esperança – e fama viral.terça-feira, 24 de março de 2020

Espalhadas entre uma vaga interminável de notícias no Twitter sobre casos de COVID-19, ordens de quarentena e escassez de material médico, algumas histórias mais alegres ajudam a mitigar a situação: cisnes que regressaram aos canais desertos de Veneza. E golfinhos também. E um grupo de elefantes que passou por uma vila em Yunnan, na China, embriagou-se com vinho de milho e desmaiou numa plantação de chá.

Estas histórias sobre os triunfos da vida selvagem em países atingidos pelo novo coronavírus foram partilhadas centenas de milhares de vezes. E tornaram-se virais no Instagram e Tik Tok. E também fizeram manchetes nos jornais. Caso exista algo de positivo nesta pandemia, as pessoas dizem que é isto – os animais estão a regressar e a correr livremente num mundo sem humanos.

Mas não eram verdade.

Os cisnes que aparecem nas publicações virais costumam visitar com regularidade os canais de Burano, uma pequena ilha na área metropolitana de Veneza, onde as fotografias foram tiradas. Os golfinhos de Veneza foram filmados num porto na Sardenha, no mar Mediterrâneo, a centenas de quilómetros de distância. Ainda ninguém sabe de onde vieram as fotografias dos elefantes embriagados, mas um canal de notícias chinês já desmentiu a publicação viral: apesar de elefantes terem passado recentemente por uma vila na província de Yunnan, na China, a sua presença é normal, e não eram os elefantes presentes nas fotos virais, não se embriagaram e não desmaiaram numa plantação de chá.

Este fenómeno destaca a rapidez com que os rumores, que são bons demais para ser verdade, se podem espalhar em tempos de crise. As pessoas sentem-se compelidas a partilhar coisas que as emocionam. Quando estamos stressados, as filmagens inspiradoras de animais podem ser um alívio irresistível. Uma investigação de 2016 revela que a disseminação de fenómenos sociais é tão poderosa que consegue seguir os mesmos padrões de contágio das epidemias.

Quando a mentira se torna viral
O tweet controverso de Kaveri Ganapathy Ahuja, sobre os cisnes que “regressaram” aos canais de Veneza, atingiu 1 milhão de likes.

“Aqui está um efeito secundário inesperado da pandemia”, diz o tweet. “A água que flui pelos canais de Veneza está limpa pela primeira vez desde sempre. É possível ver os peixes, e os cisnes regressaram.”

Ahuja, que vive em Nova Deli, na Índia, diz que viu algumas fotografias nas redes sociais e que decidiu reuni-las num tweet, sem saber que, antes de o coronavírus devastar Itália, os cisnes já eram frequentadores habituais de Burano.

“O tweet era apenas para partilhar algo que me dava alegria nestes tempos sombrios”, diz Ahuja. Nunca pensou que se tornasse viral, ou que fizesse algum mal. “Gostava que houvesse uma opção para editar no Twitter, só para situações como esta”, diz Ahuja.

No entanto, não apagou o tweet, nem planeia fazê-lo, argumentando que ainda é relevante, porque as águas de Veneza estão mais limpas do que o habitual – devido à diminuição no tráfego de embarcações – e isso é o mais importante, diz Ahuja. E também fez um tweet sobre o número “sem precedentes” de likes e retweets que recebeu. “É um recorde pessoal para mim, e não o quero apagar.”

O impulso de publicar
Paulo Ordoveza é web developer e especialista em verificação de imagens, e gere a conta @picpedant no Twitter onde desmascara publicações virais falsas – e expõe os falsificadores. Paulo Ordoveza observa em primeira mão a “ganância pela viralidade” que pode levar ao impulso de propagar informações falsas. “É uma overdose de euforia que vem do número de likes e retweets a subirem aos milhares.”

Obter muitos likes e comentários “oferece-nos uma recompensa social imediata”, diz Erin Vogel, psicóloga social e pós-doutoranda na Universidade de Stanford. Por outras palavras, fazem-nos sentir bem. Os estudos demonstram que fazer publicações nas redes sociais dá um impulso temporário à autoestima.

A necessidade de procurar coisas que nos façam sentir bem pode ser mais exacerbada agora, quando as pessoas tentam lidar com uma pandemia, uma economia em colapso e um isolamento repentino. “Nos momentos em que estamos realmente sozinhos, é tentador manter este sentimento, sobretudo se publicarmos algo que dá muita esperança às pessoas”, diz Vogel. A ideia de que os animais e a natureza podem realmente florescer durante esta crise, “pode ajudar-nos a ter uma sensação de significado e de propósito – de que passamos por isto por uma razão”, diz Vogel.

É um tema recorrente em muitos dos tweets virais. “A natureza carregou no botão para nos reiniciar”, dizia o tweet que celebrava os golfinhos que supostamente nadavam nos canais de Veneza.

“Creio que as pessoas querem realmente acreditar no poder de recuperação da natureza”, diz Susan Clayton, professora de psicologia e estudos ambientais na Faculdade de Wooster, no Ohio. “As pessoas acreditam que, independentemente do que fizemos, a natureza é suficientemente poderosa para se elevar.” (Leia sobre como uma fotografia incrível – e real – de um tubarão se tornou viral.)

De acordo com uma nova sondagem do Centro de Pesquisa Pew, cerca de metade dos americanos afirma ter sido exposto a notícias falsas, ou informações inventadas, sobre o coronavírus. Em termos relativos, uma notícia falsa, mas agradável, sobre golfinhos num canal não é assim tão problemática, mas espalhar falsas esperanças em tempos de crise pode ter efeitos adversos.

Estas histórias de felicidade, diz Vogel, podem fazer com que as pessoas sintam ainda mais desconfiança numa altura em que todos nos sentimos vulneráveis. “Descobrir que as boas notícias são falsas pode ser mais desmoralizador do que nunca ter ouvido falar sobre as mesmas.”

É provável que muita da esperança presente nas redes sociais tenha um papel fundamental para mantermos o ânimo durante as próximas semanas e meses, sobretudo quando nos colocamos de quarentena em casa e nos ligamos uns aos outros através de ecrãs. “Eu encorajaria as pessoas a partilharem coisas positivas”, diz Vogel. “Mas não precisam de ser coisas fora do normal. Só precisam de ser verdadeiras.”
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com.

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