Este Marsupial é a Única Espécie que está Sempre Grávida

Cientistas descobriram que as fêmeas da espécie Wallabia bicolor têm dois úteros, pelo que conseguem conceber uma nova cria antes de a outra nascer.sexta-feira, 13 de março de 2020

Muitos dos mamíferos conseguem engravidar várias vezes durante a idade adulta, mas para a grande maioria, existe uma pausa saudável depois de cada nascimento, quando as mães amamentam os seus bebés. E para alguns animais, é normal ter apenas uma ou duas crias durante a vida.

Mas a espécie Wallabia bicolor – pequenos marsupiais saltitantes que vivem no leste da Austrália – afasta-se muito destes padrões: novas investigações sugerem que a maioria das fêmeas adultas está sempre grávida. De acordo com o artigo publicado no dia 2 de março na Proceedings of the National Academy of Sciences, estes animais normalmente engravidam entre um a dois dias antes do parto.

Como todos os marsupiais, os Wallabia bicolor também têm crias muito pequenas e imaturas que ficam dentro de uma bolsa especial onde se amamentam do leite materno. Alguns marsupiais, como os cangurus, podem acasalar e conceber cerca de um dia depois do nascimento, mas não antes, diz Brandon Menzies, coautor do estudo e investigador na Universidade de Melbourne.

Estes marsupiais são os únicos animais, para além da lebre-europeia, que conseguem engravidar quando já estão grávidos. Mas as lebres têm épocas de reprodução distintas e não estão grávidas de forma continuada durante quase toda a vida adulta, como acontece com os Wallabia bicolor.

O estudo é importante porque “a compreensão da biologia e endocrinologia da reprodução em qualquer espécie pode oferecer lições valiosas para a reprodução humana”, diz David Gardner, também da Universidade de Melbourne, que não participou no estudo.

Como funciona
A concepção é geralmente impossível quando uma fêmea já está grávida. “Existem várias razões pelas quais não é bom engravidar durante uma gravidez ativa”, diz Menzies. Parte disso deve-se à anatomia. Grande parte dos animais tem um útero; e se um embrião em desenvolvimento já estiver no útero, não há espaço para mais. Porém, estes marsupiais têm dois úteros, cada um com o seu próprio ovário e colo uterino associados.

A segunda razão está relacionada com o sistema endócrino. As hormonas que alimentam um feto em desenvolvimento são diferentes das que normalmente permitem a implementação de um óvulo fertilizado depois do acasalamento. (É por isso que muitas das formas de contraceção de emergência nos humanos contêm progesterona, por exemplo, uma hormona que normalmente suporta uma gravidez ativa, mas que também impede a ovulação.) Menzies diz que ainda não se sabe exatamente como é que este tipo de conceção acontece nos marsupiais – apenas que acontece.

O ciclo começa em janeiro ou fevereiro, quando um Wallabia bicolor fêmea acasala. Já grávida do ano anterior, dá à luz um ou dois dias depois de acasalar, e esse bebé sobe para a sua bolsa para se amamentar. O embrião recém-fertilizado, também conhecido por blástula, é constituído por cerca de 80 a 100 células, e permanece adormecido no útero, uma fase chamada “diapausa embrionária”.

Enquanto isso, o primeiro bebé continua a ser amamentado e a crescer e, em meados de setembro, está pronto para abandonar a bolsa, diz Menzies. Este processo coincide com o aparecimento das gramíneas que acompanham a primavera no hemisfério sul.

Gradualmente, o bebé amamenta-se menos e, por volta de dezembro, está desmamado. Isto inicia o crescimento do embrião inativo e, um mês depois, já nasceu. Nesse momento, a fêmea já ovulou e acasalou novamente.

Muito para aprender
Os investigadores chegaram às suas conclusões através de exames feitos com ultrassons em 10 marsupiais em cativeiro. A equipa tirou fotografias das fêmeas ao longo do ano e observou o processo de acasalamento. E também estudou a presença de uma blástula adormecida em 9 dos 10 animais após o acasalamento –  quando o outro bebé já se estava a amamentar na bolsa da mãe.

David Gardner, que estuda fertilização in vitro, diz que uma compreensão mais aprofundada da diapausa embrionária pode ser extremamente valiosa.

“Se conseguirmos descortinar este processo complexo, talvez não seja necessário fazer criopreservação de embriões, podemos mantê-los em estase no laboratório”, acrescenta Gardner. “Ainda temos muito para aprender com os marsupiais.”
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com.

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