Os EUA Facilitam Inadvertidamente o Tráfico de Barbatanas de Tubarão

Os portos americanos são pontos de paragem nas rotas comerciais globais – legais e ilegais – de barbatanas de tubarão.quarta-feira, 18 de março de 2020

Um avião de carga com destino à Ásia parou durante algumas horas para reabastecer no Aeroporto Internacional de Miami no dia 24 de janeiro. No porão do avião havia uma remessa de 18 caixas enormes de papelão que, sem o conhecimento dos inspetores de vida selvagem, continha algo altamente protegido e – em alguns casos – ilegal: barbatanas de tubarão.

“Os inspetores pensaram em verificar se havia ali qualquer coisa que não era suposto” diz Eva Lara, supervisora do Serviço de Pesca e Vida Selvagem dos EUA, serviço que regula as importações e exportações de animais selvagens.

As primeiras caixas que os inspetores e funcionários alfandegários abriram tinham produtos legais de vida selvagem. Mas, quando olharam bem para o conteúdo das caixas, descobriram barbatanas de tubarão. “E depois, caixa após caixa, só encontraram barbatanas de tubarão”, diz Lara. Muitas das caixas continham cerca de 30 quilos de barbatanas de tubarão – 635 quilos no total. Lara diz que foi uma das maiores apreensões de barbatanas de tubarão em trânsito.

Inicialmente, diz Lara, estimaram que mais de 25% das 4 mil barbatanas (representando pelo menos mil tubarões) eram de espécies protegidas e, portanto, ilegais. Mas depois de semanas a classificar, a medir e a identificar, concluíram que cerca de 40% eram ilegais – entre as espécies estavam tubarões-martelo, tubarões-luzidio e tubarões-raposa. O valor comercial da remessa era de aproximadamente 1 milhão de dólares.

Para não comprometer a investigação ou incentivar imitações, o Serviço de Pesca e Vida Selvagem dos EUA não divulgou o país de origem e de destino, nem o que foi rotulado ou os conteúdos totais.

Os EUA não são um produtor ou consumidor significativo de partes de tubarão, mas enquanto facilitador do mercado global de barbatanas de tubarão, é uma “potência” de transporte, diz David Jacoby, investigador da Sociedade Zoológica de Londres. “As barbatanas, obtidas de forma legal ou ilegal, encontram um caminho rápido até ao seu destino final, que geralmente é o extremo oriente asiático”, diz Jacoby. “Os americanos têm alguns dos maiores aeroportos do mundo, com o maior número de voos e transportadoras, possibilitando que as coisas se movam muito depressa de um lugar para outro.”

Os tubarões existem há mais de 400 milhões de anos, mas atualmente estima-se que 25% dos tubarões, raias e quimeras (peixes cartilaginosos) estão em perigo extinção. Algumas populações de tubarões tiveram um declínio de cerca de 90%, em grande parte devido à pesca excessiva. Como os tubarões amadurecem lentamente e têm poucas crias, as suas populações demoram a recuperar: os tubarões-da-gronelândia, que são capazes de viver até aos 500 anos, provavelmente só se começam a reproduzir depois dos 150 anos de idade.

Estes peixes são cobiçados pelas suas barbatanas, que são usadas para fazer sopa de barbatana de tubarão, um prato tradicional asiático que Lara diz poder atingir os 600 dólares por tigela. Porém, a carne dos tubarões tem pouco valor, o que significa que alguns dos pescadores que se dedicam a este comércio cortam as barbatanas aos tubarões com os animais vivos, e atiram-nos feridos ao mar, onde se afundam e afogam, ou morrem devido à perda de sangue, ou são comidos por outros predadores. Esta prática é ilegal nas águas dos EUA desde 2000; vários países e alguns acordos internacionais também restringem o comércio de barbatanas de tubarão.

No contexto do comércio ilegal de barbatanas de tubarão, diz Arthur Florence Jr., chefe da filial de Operações de Cargas Aéreas da Alfândega e Proteção de Fronteiras dos EUA, este transporte no aeroporto de Miami é uma “gota no oceano”. Segundo estimativas conservadoras da Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação, entre o ano 2000 e 2011, foram importadas legalmente uma média de quase 17 mil toneladas de barbatanas de tubarão por ano. De acordo com um estudo de 2006, que avaliou a escala das capturas de tubarão no mundo inteiro, os cientistas estimam que, anualmente, dezenas de milhões de tubarões são mortos devido ao comércio legal e ilegal de barbatanas de tubarão – um número preocupante dada “a menor produtividade de... espécies comuns usadas no comércio de barbatanas”.

O trajeto das barbatanas de tubarão
Nos Estados Unidos, 13 estados e 3 territórios proibiram a venda de barbatanas de tubarão. Mas a localização do país ao longo das rotas comerciais de tráfico, entre os países onde se pescam tubarões – na América do Sul e Central – e os mercados de barbatanas de tubarão na Ásia, significa que estas enormes remessas ilegais transitam pelos EUA por terra, ar e por mar – de acordo com um relatório de 2019 do Conselho de Defesa dos Recursos Naturais (NRDC), uma organização de conservação sem fins lucrativos.

O relatório do NRDC diz que, entre 2010 e 2017, passaram pelos portos dos EUA entre 591 e 859 toneladas de barbatanas de tubarão – pertencentes a cerca de 900 mil tubarões. No entanto, estes números são provavelmente estimativas conservadoras. Isto acontece porque os investigadores concentraram-se apenas em Hong Kong como destino, e basearam os seus números num único banco de dados de remessas globais com os registos de remessas que declaravam explicitamente que as cargas eram barbatanas de tubarão. É comum as barbatanas serem incorretamente rotuladas como “marisco congelado” ou “marisco desidratado”, ou até como algo completamente diferente, como “calçado desportivo”, se for “só contrabando”, diz Elizabeth Murdock, diretora da Iniciativa Oceano Pacífico do NRDC e autora principal relatório.

Ao abrigo da Convenção sobre o Comércio Internacional de Espécies da Fauna e da Flora Selvagem Ameaçadas de Extinção (CITES), o tratado que visa garantir que o comércio transfronteiriço de animais não ameaça a sobrevivência das espécies, e do Código de Regulamentos Federais, os EUA são obrigados a monitorizar a expedição de animais selvagens em trânsito. As barbatanas de tubarão, que são importadas e depois reexportadas, devem ser processadas e podem precisar de licenças da CITES e dos EUA. As remessas que estão apenas de passagem pelos portos devem ser monitorizadas, mas muitas vezes não o são, diz Murdock, acrescentando que se a carga transferida de um avião ou de um navio para outro permanecer sob o controlo da mesma companhia de navegação, provavelmente não é inspecionada.

Segundo Florence, esta apreensão no aeroporto de Miami foi uma combinação entre informação e sorte. O Serviço de Pesca e Vida Selvagem tinha sido informado sobre a chegada de um carregamento de barbatanas de tubarão, mas dado que o departamento processa diariamente mais de 100 voos em trânsito no aeroporto de Miami, não é possível apanhar todas as barbatanas de tubarão ilegais. “É como encontrar uma agulha no palheiro.”

Michelle Zetwo, agente especial da Administração Oceânica e Atmosférica Nacional dos EUA, diz ter conhecimento de ocasiões em que as barbatanas de tubarão transitam pelos portos dos EUA, mas ficou surpreendida com os números apresentados pelo NRDC.

Em 2017, Zetwo fez parte de uma apreensão de barbatanas de tubarão no porto de Oakland. O carregamento estava rotulado com a designação pepinos e conservas, mas tinha mais de 23 toneladas de barbatanas de tubarão e foi descoberto durante uma inspeção de rotina a um navio de contentores que viajava do Panamá para Hong Kong.

Tal como aconteceu na apreensão feita agora em Miami, a descoberta deveu-se em grande parte ao fator sorte, diz Zetwo. “Nós não sabíamos, até que fizemos a inspeção, foi apenas um acaso.”

O relatório do NRDC também salienta que muitos dos países exportadores da América Latina são “atores de relevo” no comércio internacional de barbatanas de tubarão, e que países como o Panamá e a Costa Rica enviam entre 33% a 50% das suas exportações de barbatanas de tubarão através dos EUA.

É quase certo que algumas destas barbatanas pertencem a espécies protegidas, diz Murdock. De acordo com um estudo de 2018, os principais países exportadores – como o México, a Costa Rica, o Equador e o Peru – pescam espécies que geralmente se encontram no comércio de barbatanas de tubarão, mas muitas estão interditas ao comércio sem uma licença.

“Estamos convencidos de que encontrámos apenas a ponta do icebergue”, diz Murdock. “Mas é difícil saber o quão grande é o icebergue.”

Se os EUA quiserem realmente servir como um reduto para os tubarões, como são amplamente considerados, têm a responsabilidade de agir como uma “barreira” e capturar mais barbatanas ilegais de tubarão, diz Murdock. “Quando deixamos estas remessas de barbatanas de tubarão passarem pelas nossas fronteiras sem monitorização, tornamo-nos num elo fraco numa cadeia onde devemos ser um dos elos mais fortes a nível global, porque temos uma estrutura legal sólida e os recursos para combater este comércio.”

Eva Lara, do Serviço de Pesca e Vida Selvagem, concorda. “Temos de parar isto sob a nossa supervisão. Se as barbatanas de tubarão estão a passar pelos Estados Unidos, temos de agir como defensores e assegurar o cumprimento das regulamentações de outros países e ajudar os animais a sobreviver.”

Qual é a solução?
“Não acredito que qualquer uma das agências de vida selvagem queira barbatanas ilegais de tubarão a entrar no comércio dos EUA”, diz Michelle Zetwo. “Mas ter os recursos disponíveis e o conhecimento de quando podem chegar aos nossos portos é importante, mas nem sempre temos essas informações em tempo útil.”

Dado que o comércio é tão difícil de monitorizar, a melhor forma de abordar o papel não intencional dos EUA no comércio global de barbatanas de tubarão é acionar uma interdição geral, diz Jacoby.

Atualmente são necessários quatro voos para as barbatanas de tubarão chegarem a Hong Kong vindas da América Latina, constatou Jacoby numa análise das redes de comércio aéreo. Jacoby determinou que uma interdição às barbatanas de tubarão nos EUA aumentaria ligeiramente o número de voos necessário e o custo total do transporte de barbatanas.

“Se excluirmos estes pontos de passagem, fica mais caro passar do ponto A ao ponto B. Acredito que, à medida que este fardo se torna cada vez maior, o incentivo para pescar e enviar as barbatanas para outro lugar pode começar a diminuir um pouco.”

“Na descoberta feita em janeiro em Miami, quando vimos todas as barbatanas de tubarão ali dispostas, foi um momento agridoce”, diz Arthur Florence – doce porque apreenderam as barbatanas ilegais, mas foi amargo pensar no número de tubarões mortos. “Era uma tonelada de barbatanas cortadas de tubarões jovens”, diz Arthur com tristeza. “Alguns destes tubarões demoram cerca de 20 anos a reproduzir-se.”

É por isso que é urgente agir agora, porque os tubarões “não conseguem recuperar rapidamente”, diz Jacoby. “Não podemos deixar isto arrastar-se durante muito tempo, porque senão deixamos de ter um problema, porque deixam de existir tubarões.”
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com.

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