Ratos Evitam Magoar Outros Ratos – Descoberta Pode Ajudar a Compreender Sociopatas

Os humanos e os roedores têm estruturas cerebrais semelhantes que regulam a empatia, sugerindo que este comportamento está profundamente enraizado na evolução dos mamíferos.

Friday, March 20, 2020,
Por Liz Langley
Os ratos e os humanos partilham a mesma parte do cérebro que regula a aversão à ...
Os ratos e os humanos partilham a mesma parte do cérebro que regula a aversão à dor, o córtex cingulado anterior.
Fotografia de Vincent J. Musi, Nat Geo Image Collection


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Talvez tenha chegado o momento de reconsiderar o que significa chamar “rato” a alguém.

Investigações feitas anteriormente já tinham demonstrado que os mal-amados roedores ajudam os seus semelhantes em apuros, para além de se lembrarem dos ratos individuais que os ajudaram – e retribuem o favor.

Agora, um novo estudo aprofunda ainda mais estas evidências de empatia, revelando que os ratos evitam magoar outros ratos.

No estudo, publicado no dia 5 de março na Current Biology, um grupo de ratos foi treinado para ativar duas alavancas diferentes, para obter um pequeno cubo de açúcar. Se uma das alavancas desse um ligeiro choque a um dos ratos, os outros paravam de ativar essa alavanca e passavam para a outra.

A aversão à dor é uma característica humana bem conhecida, e é regulada por uma parte do cérebro chamada córtex cingulado anterior (CCA). As experiências revelam que o CCA também controla este comportamento nos ratos. É a primeira vez que os cientistas descobrem que esta parte do cérebro desempenha um papel na aversão à dor numa espécie não humana.

Esta semelhança entre os cérebros humanos e os dos ratos é “muito entusiasmante por duas razões”, diz o coautor do estudo, Christian Keysers, do Instituto de Neurociência dos Países Baixos. Por um lado, isto sugere que a prevenção de danos a terceiros está profundamente enraizada na história evolutiva dos mamíferos.

Para além disso, esta descoberta pode ter um impacto real nas pessoas que sofrem de distúrbios psiquiátricos, como psicopatia e sociopatia, cujos CCA estão comprometidos.

“Atualmente, não existem medicamentos eficazes para reduzir a violência em populações antissociais”, diz Keysers, e descobrir uma forma de aumentar a aversão ao dano a terceiros nesses pacientes pode ser uma ferramenta poderosa.
 

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Ratos semelhantes a humanos
Na primeira parte da experiência, Keysers e a sua equipa treinaram 24 ratos de ambos os sexos para ativarem duas alavancas diferentes, que produziam efeitos ligeiramente diferentes, até que os animais desenvolveram a preferência por uma das alavancas. Nesse ponto, os cientistas alteraram a experiência para que, quando um rato pressionava a alavanca preferida e tinha acesso ao açúcar, outro rato vizinho levava um pequeno choque.

Quando nove dos ratos ouviram a reação dos seus companheiros, pararam imediatamente de usar a alavanca preferida e mudaram para a outra, que ainda entregava açúcar.

Os ratos do estudo demonstraram uma série de respostas à experiência, o que surpreendeu Keysers. Por exemplo, um dos ratos parou de usar ambas as alavancas depois de ter sentido um choque, e alguns ratos pareciam indiferentes à situação. Esta variabilidade “também é interessante, porque sugere que podemos ter semelhanças, ainda que com diferenças individuais nos humanos”.

E como acontece com os humanos, os ratos também têm limites para a sua empatia. Quando a experiência foi repetida com uma recompensa de três cubos de açúcar, os ratos que anteriormente trocavam de alavanca e evitavam magoar os seus vizinhos, pararam de o fazer.

“Achei que isto era engraçado, mas também revela algo de honesto e verdadeiro”, diz Peggy Mason, neurobióloga na Universidade de Chicago – Peggy não participou no estudo.

Na segunda parte da experiência, Keysers e a sua equipa usaram anestesias para adormecer temporariamente os CCA dos ratos que demonstraram aversão ao dano a terceiros. Curiosamente, quando a experiência foi repetida, os ratos anestesiados pararam de ajudar os seus vizinhos.

Egoísta ou altruísta?
No geral, estes resultados levantam a questão de saber se os ratos estavam a ser egoístas – mitigando a sua própria dor, por exemplo – ou se estavam realmente a tentar ajudar os seus vizinhos.

Os ratos que mudaram de alavanca estavam a “ter uma experiência indireta que era desagradável”, diz Mason. “Nós somos mamíferos como os ratos e, portanto, as nossas motivações provavelmente não são diferentes.”

Jeffrey Mogil, neurocientista social na Universidade McGill, no Canadá, concorda que este é um debate intrigante. “Será que os ratos estavam realmente a ser altruístas, ou será que estavam a agir dessa forma para mitigar o seu próprio sofrimento porque ficavam ansiosos quando viam outro rato a levar um choque? E quando paravam, estavam a ajudar outro rato, ou estavam a ajudar-se a si próprios?”

É uma questão difícil de responder, embora Keysers sublinhe que as razões pelas quais as pessoas praticam boas ações também são igualmente complexas.

Independentemente da motivação, acrescenta Keysers, é fascinante que o impulso de evitar magoar os outros tenha cerca de 93 milhões de anos, ou seja, quando os humanos e os ratos divergiram na árvore evolutiva. Existem muitas outras formas pelas quais os ratos e os humanos são semelhantes: por exemplo, tal como os humanos, os ratos também ficam viciados em substâncias como a cocaína; estão cientes dos conhecimentos que têm, um conceito chamado metacognição; e revelam sinais violência quando estão no meio de multidões de ratos.

“Num mundo repleto de violência, é de certa forma tranquilizador saber que existe algo muito antigo na nossa biologia que, em última análise, fomenta a paz.”
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com.

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