A Senhora que Salva Preguiças no Suriname

A heroína Monique Pool está sempre a olhar para cima, e não de uma maneira figurativamente otimista, olha literalmente para cima constantemente.

Friday, March 6, 2020,
Por Justin Mott
Uma preguiça ferida
Monique Pool ajuda a veterinária voluntária Eva Scheltens a reabilitar uma preguiça ferida que partiu o braço depois de ter sido mordida por um cão.
Fotografia de Justin Mott

Andar de carro com Monique Pool é uma tarefa stressante, enquanto ela alterna o olhar entre a estrada à sua frente e as árvores acima, à procura de preguiças. Ela é uma celebridade local na cidade de Paramaribo, capital do Suriname, e é fácil vê-la na sua carrinha decorada com decalques de preguiça que usa para resgates. É conhecida como a "senhora das preguiças", não é uma alcunha lisonjeadora, mas não parece importar-se. Quando as pessoas mencionam o seu trabalho com preguiças, ela é rápida em apontar que também resgata tamanduás e tatus e que os adora igualmente.

Monique também faz voluntariado num orfanato, onde dá aulas todas as semanas e trabalha em estreita colaboração com o governo em vários projetos de conservação marinha, algo que nem sempre menciona.

Monique diz que é fascinada por preguiças e que consegue observá-las durante horas. Ela acrescenta que “as pessoas frequentemente acham que elas são preguiçosas, mas não são. Apenas contemplam onde agarrar-se a seguir.”
Fotografia de Justin Mott

Monique Pool, agora com 55 anos, cresceu na Holanda, mas passou a maior parte da sua vida no Suriname, uma ex-colónia holandesa entre a Guiana Francesa e a Guiana na América do Sul. Ela é natural do Suriname e divide o seu tempo entre o seu escritório na cidade de Paramaribo e o seu centro de resgate rural localizado na densa floresta do distrito de Saramacca.

A sua notoriedade aumentou após o que chama de ‘Slothageddon’ (Armageddon da Preguiça – sloth em inglês) em outubro de 2012, quando resgatou com um grupo de voluntários um total de 135 preguiças. Monique Pool mantinha-as em sua casa enquanto esperava para reabilitá-las e realocá-las de volta à floresta tropical. As preguiças, à semelhança de outros animais, ficaram sem abrigo quando uma floresta sofreu um parcelamento na cidade. Monique chama a essas zonas "ilhas da floresta", pequenos terrenos florestais na cidade.

Monique aponta que a maior ameaça à população de preguiças são as alterações climáticas, especialmente a seca. Recentemente, durante a severa seca de março de 2019 na qual muitas preguiças morreram de desidratação e muitas progenitoras abandonaram as suas crias, ela resgatou 1 a 2 animais por dia, em comparação com a sua média de 2 a 3 por semana, muitas morreram por desidratação. Outras ameaças incluem o aumento da desflorestação e urbanização, e a mineração ilegal de ouro.

Monique Pool cresceu na Holanda e mudou-se para o Suriname aos 12 anos de idade. É natural do Suriname e, antes de se tornar a "senhora das preguiças", como muitas pessoas se referem a ela, era uma tradutora profissional a tempo integral.
Fotografia de Justin Mott

Monique é tradutora profissional e começou a resgatar preguiças enquanto procurava o seu cão desaparecido. Entrou na Sociedade de Proteção Animal para procurar o seu cão, onde havia uma preguiça bebé que precisava de um lar, que decidiu acolher.

"Sempre que lá ia, tinham uma preguiça que precisava de um lar e eu não conseguia resistir a ajudá-las. Foi assim que tudo começou." Quando questionada sobre o que a atrai às preguiças, afirma: "consigo observá-las durante horas. São seres sencientes, a forma como olham para nós… e temos a obrigação de viver em harmonia com a natureza e os seres sencientes."

O governo não possui um programa oficial de conservação de preguiças. Pool fundou oficialmente a sua Fundação Green Heritage Fund Suriname, em 2005. Desde o seu lançamento, Monique, os seus sete funcionários a tempo integral e dezenas de voluntários resgataram e realocaram mais de 1000 preguiças. A ONG administra o próprio dinheiro da fundadora, donativos privados, crowd funding e apoio da ONG alemã WTG. Monique não tem treino formal com preguiças, aprendeu com o passar do tempo, com a ajuda de colegas da Costa Rica e do Brasil e fazendo as suas próprias pesquisas.

Em 2015, Monique Pool foi homenageada pelo seu trabalho no resgate de preguiças.
Fotografia de Justin Mott

Ela é implacável e os seus dias parecem intermináveis, ao dividir o seu tempo no escritório em Paramaribo, o seu centro de reabilitação localizado uma hora fora da cidade, na selva, e quando faz turno à noite, onde resgata pessoalmente as preguiças noturnas de dois dedos, o que não é uma tarefa simples. As preguiças de dois dedos têm garras fortes e podem morder. As chamadas geralmente vêm de áreas urbanas onde as preguiças são vistas penduradas nas árvores em propriedades privadas e não querem descer.

Uma vez resgatadas, Monique leva-as para o seu centro de reabilitação para avaliar o seu estado de saúde e depois liberta-as na selva. Procura florestas desabitadas que não serão alvo de desflorestação e que tenham um ecossistema semelhante ao local onde as preguiças viviam. A sua localização preferida exige que as transporte até à margem do rio Saramacca, onde procura um ramo a que se possam agarrar facilmente, depois abre a caixa de transporte e liberta-as.

Monique não recebe nenhum financiamento vindo do governo e afirma que não há um programa governal oficial para resgate de preguiças no Suriname, deixando-a como a sua própria esperança.
Fotografia de Justin Mott

Usa este local há anos, onde já libertou centenas de preguiças, mas recentemente descobriu que brevemente a terra será concedida (60 hectares) a uma empresa israelita e será usada para agricultura. Agora precisa de encontrar um novo sítio e, possivelmente, vai ter outro ‘Slothageddon’ nas suas mãos assim que este projeto começar.

Quanto ao futuro das preguiças no Suriname, Monique preocupa-se, mas tenta ser otimista. “Mais de 90% do Suriname são terras florestais, tornando-o o país com mais florestação do mundo. Se conseguirmos mantê-lo, pode continuar a ser o país mais bonito do mundo e podemos dar o exemplo a outros países na área da conservação."

Mais de 90% do país sul-americano é coberto por floresta tropical, tornando-o o país mais florestado do mundo. É o lar de preguiças de dois e três dedos e, devido ao aumento do desenvolvimento, o habitat de ambas as espécies está severamente ameaçado.
Fotografia de Justin Mott

Sobre as Preguiças
Todas as espécies de preguiças existem para viver nas copas das árvores. Passam a maior parte do seu tempo penduradas em ramos com a ajuda das suas garras. As preguiças até dormem nas árvores, e dormem muito – entre 15 a 20 horas por dia. Mesmo quando estão acordadas, estão frequentemente paradas. De noite comem folhas, rebentos e fruta das árvores e consomem a maior parte da água através de plantas suculentas.
Quanto estão no solo, as suas patas traseiras não têm força suficiente e as suas longas garras são um obstáculo. São obrigadas a escavar a terra com as suas garras dianteiras e usar as suas patas dianteiras para se movimentarem. Se forem apanhadas no solo, não têm hipótese de fugir de predadores como grandes felinos, tendo de se defender arranhando e mordendo.

Curiosidades
As preguiças movem-se entre 1.8 a 2.4 metros por minuto.
As preguiças passam a sua vida inteira em árvores e raramente descem.
Apesar de serem ‘desajeitadas’ no solo, nadam surpreendentemente bem.
As suas crias nascem enquanto estão penduradas nas árvores.

Quantas preguiças Monique Pool ajudou até agora?
Cerca de 1200.

Como ajudar?
Ao fazer uma doação, ajuda a equipa de Monique a salvar as preguiças do Suriname.

 

Justin Mott é um fotógrafo documental e de conservação de vida selvagem sediado no Vietname que trabalha globalmente no seu projeto pessoal de longo prazo intitulado 'Kindred Guardians'. Pode seguir o trabalho do fotógrafo na sua conta de Instagram.

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