Tempestades Solares Podem Afetar Navegação das Baleias

De acordo com um novo estudo, o sol liberta descargas de radiação eletromagnética que podem desorientar as baleias.quinta-feira, 12 de março de 2020

As baleias-cinzentas migram mais de 16 mil quilómetros ao longo da costa oeste da América do Norte, mais do que quase qualquer outro mamífero. No verão, seguem para norte, geralmente até às Ilhas Aleutas do Alasca, e no inverno viajam para sul, para terem as suas crias na costa do México.

Novas investigações sugerem que, durante este longo trajeto, as tempestades solares podem interferir temporariamente nas capacidades de navegação das baleias, podendo até fazer com que fiquem encalhadas. Isto indica a possibilidade de as baleias-cinzentas poderem usar os campos magnéticos da Terra para fins de navegação. Atualmente, as baleias são apenas conhecidas por navegar através da visão.

As tempestades solares – eventos solares que ejetam enormes quantidades de partículas altamente energizadas – bombardeiam a Terra com níveis invulgarmente elevados de radiação eletromagnética, e podem interferir nas tecnologias humanas, sejam satélites ou redes de energia. Acredita-se que grande parte dos animais, incluindo os humanos, não é significativamente afetada pelas tempestades solares, sobretudo porque o campo magnético da Terra protege o planeta de grande parte da radiação.

A descoberta de que as tempestades solares podem contribuir para o encalhamento de baleias é descrita num estudo publicado no dia 24 de fevereiro na Current Biology, acrescentando assim outro fator à lista de fenómenos ligados às baleias encalhadas. Atualmente, as baleias-cinzentas estão a ficar presas em terra em números anormalmente elevados, provavelmente devido à escassez de presas. Desde janeiro de 2019 registaram-se 180 baleias encalhadas, uma média muito acima do normal.

Para compreender melhor quais são fatores que podem estar associados a estes eventos, Jesse Granger, ecologista sensorial e doutoranda na Universidade Duke, e os seus colegas examinaram os registos de baleias-cinzentas encalhadas vivas desde 1985 na costa oeste da América do Norte. Estes encalhamentos foram escolhidos para descartar outros fatores – os animais não pareciam estar doentes ou feridos quando chegaram à praia. Portanto, porque é que encalharam?

Os investigadores descobriram que nos dias com elevados níveis de ruído de radiofrequência, provocados pelas tempestades solares, as probabilidades de as baleias encalharem subiam cerca de quatro vezes.

Sinais de interferência
Noutros animais, como acontece com os piscos-de-peito-ruivo, a investigação mostrou que o ruído de radiofrequência em banda larga consegue impedir temporariamente as aves de usarem o seu sentido geomagnético. Esta capacidade permite aos animais detetarem as variações no campo magnético da Terra, que variam de acordo com a localização, indicando assim às aves onde estão e para onde se dirigem.

Os cientistas teorizam que pode estar a acontecer o mesmo com as baleias, diz Granger.

“Apesar de o estudo não oferecer evidências conclusivas sobre a existência de orientação magnética nestas baleias, adiciona um fator nessa direção, porque remove algumas das possíveis causas para os encalhamentos, como as capturas acessórias, as colisões com navios e doenças óbvias”, diz Ellen Coombs, investigadora na University College de Londres. (Ellen não participou neste estudo.) “Para além disso, a equipa analisa com detalhes reais os parâmetros geofísicos afetados pelas tempestades solares e o efeito que isso tem na navegação das baleias.”

Sabemos conclusivamente que outros animais marinhos – como as tartarugas marinhas e os salmões – migram longas distâncias debaixo de água recorrendo a estes campos magnéticos, diz Ken Lohmann, da Universidade da Carolina do Norte. E este sentido também foi encontrado em animais tão diversos como abelhas, aves, formigas e provavelmente alguns anfíbios. (Não se sabe se as tempestades solares afetam as capacidades de navegação destes animais.)

Os cientistas conseguiram provar que alguns animais usam este sentido magnético colocando-os dentro de bobines, que são basicamente ímanes enormes – mas as baleias são demasiado grandes para estas experiências.

As baleias-cinzentas passam grande parte do tempo debaixo de água, sem pistas visuais, por isso faz sentido que usem outro sentido para além da visão, diz Coombs.

Atordoada e confusa
No estudo, os cientistas também analisaram outros fatores, como os ciclos climáticos e as variações sazonais, mas estes não parecem ter impacto nos encalhamentos. E também examinaram as oscilações no campo magnético da Terra, uma medida chamada índice-AP, para verificar se estavam relacionadas com os encalhamentos, mas não estavam. Inicialmente, este resultado surpreendeu Granger, porque a ecologista acreditava que as variações locais no campo magnético podiam confundir uma baleia sobre a sua localização, acabando assim nas regiões costeiras.

“A teoria era a de que a baleia pensava que estava na rua X, mas na verdade estava na rua Y”, diz Granger. Mas, aparentemente, não é esse o caso. Em vez disso, as baleias podem estar a ficar temporariamente “cegas”, ficando assim desorientadas e encalham.

Acredita-se que as aves usam proteínas especiais nas suas retinas, chamadas criptocromos, para detetar o campo magnético da Terra, e é plausível que o ruído de radiofrequência interfira neste processo, porque depende do cérebro para distinguir variações eletroquímicas subtis. No entanto, existem outras formas de detetar o magnetismo, incluindo, por exemplo, o uso de pequenos pedaços de um mineral de ferro chamado magnetita que se encontra no sistema nervoso de alguns animais.

Granger salienta que existem muitos outros fatores relacionados com os encalhamentos das baleias, como as doenças, a fome, as colisões com embarcações e as tecnologias humanas – os sonares navais e as sondas sísmicas usadas na exploração de petróleo.

“Provavelmente não existe apenas uma causa única para os encalhamentos, e não temos forma de impedir que aconteçam (todas) ao mesmo tempo”, diz Lohmann. “Mas é certamente útil que as pessoas que trabalham na conservação tenham consciência dos fatores que podem dar origem aos encalhamentos.”
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com.

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