Amizade Entre Morcegos-Vampiros é Surpreendentemente Semelhante à Nossa

Um novo estudo afirma que estes mamíferos sugadores de sangue constroem amizades que se desenvolvem lentamente e fortalecem ao longo do tempo em laços que podem salvar vidas.

Thursday, April 2, 2020,
Por Mary Bates
Morcegos-vampiros aninhados numa gruta na Costa Rica.

Morcegos-vampiros aninhados numa gruta na Costa Rica.

Fotografia de Nick Hawkins, Minden Pictures

De acordo com um nova e intrigante investigação, os morcegos-vampiros constroem amizades da mesma forma que os humanos, começando lentamente e aprofundando-se ao longo do tempo em laços que podem potencialmente salvar vidas.

Já se sabia que estes morcegos altamente sociais, nativos da América Central e do Sul, mantinham relacionamentos duradouros, mas os cientistas não conheciam o início destas ligações.

Agora, um novo estudo, publicado no dia 19 de março na Current Biology, mostra que os únicos mamíferos conhecidos por sugar sangue começam por desenvolver confiança com indivíduos não relacionados, limpando-se primeiro uns aos outros e depois regurgitando sangue para partilhar – um ato de altruísmo para uma espécie que tem de se alimentar a cada três dias. Para além disso, esta partilha de sangue tende a ser recíproca, e os morcegos têm mais propensão para partilhar uma refeição com um parceiro que já partilhou sangue consigo anteriormente.

“Nas relações entre morcegos-vampiros, observámos que a história das suas interações e o seu ambiente têm relevância”, diz o líder do estudo, Gerry Carter, ecologista comportamental na Universidade Estadual do Ohio.

Esta investigação suporta a teoria relativamente recente de ecologia – “elevar a fasquia” – que sustenta que os animais sem parentesco “testam primeiro as águas” do altruísmo com comportamentos de baixo custo, ou seja, limpam os pelos uns dos outros e depois adotam investimentos mais dispendiosos, que neste caso é a partilha de comida.

Esta teoria, proposta pela primeira vez em 1998, pode ser verdadeira para outros animais sociais – incluindo os humanos.

É por isso que o estudo destes sanguívoros sociais também pode revelar informações sobre as complexidades das amizades humanas, diz Carter.

Irmãos de sangue
Para testar como é que estes laços emergem, Carter e os seus colegas capturaram 27 morcegos-vampiros (Desmodus rotundus) – uma das três espécies conhecidas – de dois locais distantes no Panamá. Estes morcegos notívagos movem-se pelo chão e aproximam-se das suas presas apoiados nos quatro membros. Os seus dentes afiados cortam a veia de uma vítima de forma indolor – geralmente gado ou outro animal de grande porte – permitindo aos morcegos lamber o sangue com a língua.

No laboratório, os cientistas colocaram os morcegos em pares, com um de cada local do Panamá, ou em pequenos grupos mistos. Depois, retiraram a comida a um dos morcegos e observaram a sua interação com os companheiros de ninho.

Passados 15 meses, começaram a surgir alguns padrões. Muitos dos estranhos acabaram por formar relações através da limpeza reciproca dos pelos, mas foram poucos os morcegos que partilharam sangue via regurgitação.

A limpeza dos pelos precedeu sempre a partilha de alimento entre estranhos. E nos que regurgitaram comida para os outros, a limpeza mútua aumentou antes da primeira troca de sangue, chegando eventualmente a um equilíbrio.

Para além disso, as probabilidades de formação de relações entre estranhos aumentaram quando os morcegos familiares não estavam por perto. E quando os morcegos foram introduzidos como pares isolados, formaram relações mais depressa e com mais frequência do que quando estavam em grupos maiores.

Elevar a fasquia
A teoria de “elevar a fasquia” é simples e intuitiva: não queremos investir muito a ajudar alguém que não devolve essa ajuda, diz Tom Sherratt, cocriador do modelo e biólogo na Universidade Carleton, em Otava, no Canadá.

“Nós testamos a fiabilidade do nosso potencial parceiro com um investimento de baixo nível, e depois verificamos se esse investimento é correspondido”, diz Sherratt. Caso contrário, não se cria uma relação e também não se perde grande coisa.

“É uma estratégia poderosa, porque significa que podemos evoluir para uma relação de confiança, mas que também não perdemos muito se um indivíduo não cooperar.”

Mas tem sido difícil demonstrar esta teoria nos animais. Detetar este padrão significaria introduzir indivíduos estranhos aleatórios e monitorizar o que acontece durante um longo período de tempo – foi precisamente o que Carter e os seus colegas conseguiram fazer, diz Sherratt, que não participou nesta investigação dos morcegos.

Olho por olho
Algumas pessoas podem não gostar de o admitir, mas a reciprocidade também é vital nas relações humanas, acrescenta Carter.

“As amizades humanas têm contingências e expectativas subtis, mas não é do interesse de ninguém deixar isso explícito.”

Vamos encarar a questão da seguinte forma: “O que aconteceria se um dos nossos amigos ficasse completamente instável e não fosse de confiança?”, pergunta Carter.

“Se formos só nós a investir na relação e esse amigo nunca retribuir, quanto tempo é que vai demorar até nos começarmos a afastar e a apostar noutras relações?”

 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com.

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