Apreciar a Natureza Através das Lentes do Confinamento

Com possibilidades limitadas para desfrutar do 50º aniversário do Dia da Terra, uma escritora reflete sobre como a internet deu à humanidade uma nova forma de estabelecer ligação com a natureza.

Thursday, April 23, 2020,
Por Elena Passarello
Um grupo de veados-vermelhos a pastar na neblina matinal do Parque Richmond de Londres.

Um grupo de veados-vermelhos a pastar na neblina matinal do Parque Richmond de Londres.

Fotografia de Alex Saberi, Nat Geo Image Collection


O meu plano era passar o 50º Dia da Terra no Alasca. Fui convidada por uma faculdade em Fairbanks para fazer uma leitura esta semana, e esperava prolongar a minha viagem e passar mais alguns dias num lago nas proximidades, para estar sozinha numa cabana alugada – talvez numa cabana perto de vários trilhos onde eu pudesse ver águias, lontras e alces.

São estes os tipos de experiências que, quase inconscientemente, identifiquei sempre com o Dia da Terra: Observar da janela de um avião o planeta a mudar de bioma para bioma e, de seguida, aterrar num lugar com fauna desconhecida. Talvez isto se deva a todos aqueles vídeos que passavam na escola durante o mês de abril – vídeos de macacos-uivadores, grupos de orcas a nadar, ou as atividades de um recife subaquático. Quando aprendi sobre o Dia da Terra, a Terra que celebrávamos existia longe daquilo que eu conseguia ver pela janela da sala de aula.

Esta viagem ao Alasca foi marcada há meses, quando a minha trajetória terrestre era bastante mais ampla – viajar em trabalho, fazer caminhadas aos fins de semana na costa do Oregon, ou irritar os outros clientes em bares de karaoke. Porém, no mês passado, o meu planeta encolheu e ficou do tamanho da minha casa e do quintal que a rodeia, com as ocasionais caminhadas até à mercearia mais próxima. Sinto-me sortuda por ter algumas árvores onde estou em isolamento – árvores que, enquanto digito estas palavras, estão repletas de pintassilgos, toutinegras e carriças numa agitação desenfreada.

Também estou grata porque a janela junto à minha secretária oferece avistamentos diários de animais selvagens suburbanos. As suas visitas são o destaque não adulterado do dia, e eu dei nomes a todos os transeuntes: Stripey Joe, o guaxinim, uma família de veados chamada Doofers, e o Rei dos Perus Cavaleiros, que é um peru ameaçador de cabeça azulada. No outro dia, abri a janela, pressionei a minha cabeça contra a rede mosquiteira e comecei a gorgolejar para o Rei que por ali estava a passar, e quando ele gorgolejou de volta, corri para o quintal para continuar a nossa interação. Eu tinha o telemóvel na mão (para variar) quando ouvi o chamamento deste peru selvagem, e publiquei imediatamente o vídeo da nossa interação, para que todos os meus amigos que estão fechados em casa pudessem ver.

O meu visitante diário favorito é um veado fêmea de cauda preta, que aparentemente tem leucismo, a quem chamei de Roberta Redfur. Na página da minha comunidade, no Facebook, os meus vizinhos também publicaram fotografias da Roberta – também eles acompanham os movimentos deste veado. Já reparei que, desde que começou o confinamento, as conversas sobre animais aumentaram consideravelmente no Facebook e no Nextdoor. Aparentemente, estamos todos sentados nas nossas secretárias, habitantes solitários dos nossos pequenos planetas, olhando pela janela do escritório e a observar, à escuta de vida.

Estou a ouvir um pássaro novo na área, escreve um dos meus vizinhos ao início da manhã no Facebook. Está a chilrear de forma ascendente e descendente... Alguém sabe o que é? No fórum de mensagens local da Associação Americana de Aves, muitos dos meus vizinhos gabam-se de avistamentos raros nos arredores desabitados da cidade. O seu fervor pelas aves dá muitas vezes origem a leituras divertidas, incluindo aquela que deve ser a frase da década: Está um papa-capim-americano nas águas do esgoto!

E claro, a internet não permite apenas que os humanos criem laços com os seus animais locais. A qualquer hora do dia do meu confinamento, posso abrir o portátil para observar criaturas distantes, trocando a janela do escritório que me separa da Roberta Redfur por um ecrã que me liga a emissões ao vivo da natureza.

TRÊS CÂMARAS AO VIVO emitem agora para os dispositivos na minha secretária: telemóvel, tablet e portátil. Enquanto escrevo estas palavras, um jovem albatroz-real – a maior ave marinha do planeta – está sozinho no seu ninho, no topo de um promontório da Península de Otago. Ainda felpudo, o jovem pássaro ostenta um bico longo, ligeiramente entalhado e está inclinado em direção ao sol do meio-dia. No mesmo momento, na Lubee Bat Conservancy, morcegos de várias espécies estão (literalmente) pendurados uns nos outros. Um dos morcegos abocanhou uma fatia de melão da lata de comida e caminhou de cabeça para baixo – agarrado ao teto de arame – para comer o seu lanche em paz. Enquanto o morcego mastiga à luz do entardecer, uma câmara de visão noturna, escondida perto de uma pequena lagoa no Parque de Elefantes de Tembe, captura o zumbido dos insetos às 3 da manhã, bem como a visão de dois jovens leões a brincar. E enquanto estes ecrãs me levam até à Nova Zelândia, à Flórida e à África do Sul, o meu gato furtivo, Spooner, corre à volta dos meus pés para apanhar uma mosca.

Agora, mais do que nunca, verifico como estão as minhas famílias – tanto os familiares humanos por videochamada, como a minha família de veados, os Doofers – para passar o dia de trabalho. Também verifico as criaturas distantes que me são familiares pelos sites de vida selvagem, pelas redes sociais e pelas notícias. De acordo com um rastreador online, as borboletas-monarca que migram para norte atravessaram hoje o paralelo 38. A querida cadela do Instagram com “latido florestal” Gracie, uma border collie, espantou alguns veados nos terrenos abandonados no Parque Nacional Glacier do Montana. E em Hong Kong, depois de 10 épocas de acasalamento com algum drama pelo meio, dois pandas-gigantes conseguiram finalmente procriar.

Nestas últimas semanas, encontrei conforto a ver criaturas do planeta a vaguearem por espaços selvagens, mas percebo a ironia da situação. Na primavera passada, quando visitei o Zoo de Seattle, observei um urso-pardo no seu recinto de acrílico. Um ano depois, estou eu do outro lado, a ver os ursos-pardos do Parque Nacional de Katmai a apanharem salmão-vermelho no rio Brooks.

ESTE REVÉS DA FORTUNA faz-me lembrar um conto do escritor argentino (e outro entusiasta de gatos) Julio Cortázar, chamado Axolote, onde um homem fica obcecado com um tanque de axolotes – salamandras pálidas com guelras que parecem penas – num aquário de Paris. O homem começa por visitar o aquário uma vez por dia, e depois duas vezes por dia, “com o rosto colado ao vidro”, para fitar os anfíbios, enquanto estes “anulam o espaço e o tempo com a indiferença da sua imobilidade”.

Eu sabia que estávamos ligados, sabia que algo infinitamente perdido e distante continuava a unir-nos”, diz o narrador. No final da história de Cortázar, o homem dá por si mudado; agora ele está a olhar do outro lado do vidro do aquário. Todo este olhar encurtou “a distância que é percorrida entre eles e nós” – tanto que o homem se tornou no axolote encarcerado, pensando a partir de dentro do seu corpo e olhando através dos seus olhos dourados.

Quase todos os humanos que conheço estão hoje tão confinados quanto um axolote num jardim zoológico parisiense. Eu não abraço um humano há cinco semanas, e todos os meus colaboradores só existem online. Mas agora usamos ferramentas que aproximam criaturas distantes de nós, para ficarmos de olho uns nos outros. Na semana passada, por exemplo, servi um copo e conversei com uma amiga, e assisti-a a fazer a sopa para o jantar – outro tipo de câmara de habitat, suponho.

É tudo muito engraçado, se pensarmos bem sobre isto – o Dia da Terra de 2020 será o primeiro em que a minha capacidade de ligação com terráqueos humanos e não humanos, com nome e sem nome, é idêntica. Pode ser o único momento em que o meu acesso às criaturas mais parecidas comigo espelha diretamente o meu acesso às criaturas que me ensinaram a distanciar de mim própria. Sem dúvida, passei o dia 22 de abril como pretendia quando fiz os meus planos para a viagem ao Alasca – a desfrutar da solidão e a observar animais. Mas agora, alguns destes animais são indubitavelmente humanos. E todos os animais que acompanho, sejam humanos ou axolotes, são virtuais.

Este pé de igualdade faz-me sentir humilde; revela-me um novo tipo de fragilidade. E também me liga ao nosso planeta de uma forma que eu nunca senti em anos anteriores. Por isso, sinto uma nova satisfação nesta estranha dádiva que recebemos – uma forma única de estar viva no mundo para observar o 50º do Dia da Terra.

 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com.

 

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