A História Animadora das Pequenas Raposas-das-ilhas que Estiveram Perto da Extinção

O Dia da Terra teve origem depois de uma catástrofe ao largo da costa da Califórnia. Mas a liderança e a ciência restauraram a natureza – e a esperança – ao longo de vários anos de desespero e controvérsia.

Tuesday, April 21, 2020,
Por Michael Parfit
Fotografias Por Melissa Groo
Uma raposa-das-ilhas desfruta do sol da tarde. Com o tamanho de gatos domésticos, as raposas-das-ilhas vivem ...

Uma raposa-das-ilhas desfruta do sol da tarde. Com o tamanho de gatos domésticos, as raposas-das-ilhas vivem apenas nas Ilhas do Canal no sul da Califórnia. Estas raposas começaram misteriosamente a desaparecer nos anos 1990 e tornaram-se no foco de um intenso esforço de recuperação a longo prazo.

Fotografia de Melissa Groo, National Geographic


ILHA DE SANTA CRUZ, CALIFÓRNIA – Na tranquilidade do inverno, camadas de petróleo aproximavam-se da praia. Nas encostas, as pequenas raposas-das-ilhas devem ter observado, talvez assustadas pelo odor ou pelas aves moribundas. Apesar de as raposas poderem estar desconfortáveis neste dia mortífero, no sul da Califórnia, em janeiro de 1969, pelo menos estavam a salvo nas colinas. Ou assim parecia.
 

A ilha de Santa Cruz tem cerca de quatro vezes o tamanho de Manhattan e fica a 32 km da costa sul da Califórnia. A maior das cinco ilhas do Parque Nacional das Ilhas do Canal é composta por colinas e montanhas que se elevam a quase 740 metros e, na sua maioria, por regiões costeiras rochosas.

Fotografia de Melissa Groo, National Geographic

Esquerda: Rebentos começam a surgir numa erva nativa perene rara, chamada trigo sarraceno da ilha, depois das chuvas de inverno, na ilha de Santa Cruz. Esta ilha abriga 60 espécies únicas de animais e plantas.
Direita: Um pelicano castanho da Califórnia voa sobre a espuma de rebentação, perto da ilha de Santa Cruz. Estes pelicanos, uma das muitas espécies que quase foram exterminadas pelo pesticida DDT, estão agora a prosperar. Os resíduos de DDT, que sobraram depois de este produto químico ter sido banido em 1972, acabaram por afetar a dieta dos pelicanos.

Fotografia de MELISSA GROO, NATIONAL GEOGRAPHIC


As raposas estavam na enorme ilha de Santa Cruz, enquanto o derrame de petróleo de Santa Bárbara – o terceiro maior derrame na história dos Estados Unidos, que em 1970 deu origem ao primeiro Dia da Terra – espalhava mais de 11 milhões de litros de petróleo no mar e nas regiões costeiras. Também eu testemunhei este evento como se não fosse nada comigo, enquanto conduzia pela costa continental no meu pequeno Volkswagen vermelho para cobrir conflitos universitários sobre os direitos civis, para o jornal da minha faculdade, enquanto os meus amigos eram feridos ou mortos no Vietname. Os anos 1960 foram tempos complicados. Para mim, o petróleo era apenas mais uma coisa má.

Mas aconteceram coisas naqueles tempos sombrios que não eram sombrias. As escolhas feitas por grupos e indivíduos iriam dar origem, meio século depois, a uma história sobre aquelas raposas-das-ilhas e sobre alguns humanos que as amavam, uma história que, ao início, parecia insignificante e tristemente familiar. Mas, no final, a história das raposas significaria o oposto da conhecida história do canário na mina de carvão, cuja morte alerta para a loucura e catástrofe. Porque, para todos os que desejam melhores formas de viver com este planeta em sofrimento, estas pequenas raposas-das-ilhas não são canários mortos, mas sim cotovias ao raiar do dia.

A HISTÓRIA COMEÇA COM UM LIVRO, um bebé e uma rapariga do ensino secundário que falava demais.

O livro chama-se Primavera Silenciosa, um best-seller de 1962 escrito por Rachel Carson, e que plantou as sementes do movimento ambiental moderno com terríveis previsões sobre uma primavera sem os pássaros a cantar devido a produtos químicos como o pesticida DDT.
 

Uma raposa-das-ilhas ao colo da bióloga Juliann Schamel, antes de ser examinada e vacinada perto de um acampamento, no Parque Nacional das Ilhas do Canal, na ilha de Santa Cruz. Nas cinco ilhas do parque, as populações de raposas são monitorizadas regularmente através de um programa de captura e vacinação.

Fotografia de Melissa Groo, National Geographic


A rapariga era uma jovem do Michigan, chamada Kate Roney, que foi apanhada a conversar na biblioteca e foi enviada para uma aula chamada Homem e Natureza, onde leu Primavera Silenciosa e começou a visitar parques nacionais. Kate decidiu estudar biologia, porque a natureza também precisava de mulheres.

O bebé era a filha de um biólogo canadiano, chamado Kees Vermeer, que estudava o declínio das águias-americanas, tal como Rachel Carson previra em Primavera Silenciosa. A bebé chamava-se Lotus e nasceu na Colúmbia Britânica na mesma semana em que o petróleo atingiu as praias da Califórnia.

Quando Lotus estava a aprender a andar, Kate Roney foi para a faculdade e Rachel Carson testemunhou perante o Congresso, em defesa da vida, porque estava a morrer de cancro. A década de 1960 deu lugar à década seguinte e foram tomadas algumas das grandes decisões. O presidente Richard Nixon assinou a Lei Nacional de Política Ambiental, o senador Gaylord Nelson criou o Dia da Terra e, em 1972, o DDT foi amplamente banido.

Depois, Kate Roney foi para o Alasca e tornou-se especialista em gestão de parques nacionais e piloto de hidroaviões. Lotus Vermeer começou a estudar aves com o pai, nas manhãs frias do Canadá, e sonhava em salvar tartarugas marinhas em terras mais quentes.
 

Uma raposa-das-ilhas a ser cuidada por outra raposa, perto de um parque nacional, na ilha de Santa Cruz. A dieta das raposas inclui insetos, minhocas, ratos e até carraças.

Fotografia de Melissa Groo, National Geographic


Sem que eu desse por isso, nós, a geração dos baby boomers, já não éramos “crianças” e eu estava a escrever histórias sobre o ambiente para a National Geographic, e a nova geração estava a chegar. Cerca de 33 anos depois do primeiro Dia da Terra, Lotus Vermeer, com um doutoramento adquirido a estudar tartarugas marinhas, chegou a Ventura, na Califórnia, para fazer um novo trabalho onde iria tentar restaurar uma imensa ilha, chamada Santa Cruz, ilha que nem ela sabia que existia.

“Ali estava eu”, disse-me Lotus mais tarde, “com um metro e sessenta, 50 quilos, calças roxas, rabo de cavalo e com o aspeto de quem tinha acabado de chegar.” E alguns dos homens que a viram chegar começaram a fazer apostas sobre o tempo que ela iria aguentar até partir.
 

Laura Shaskey, chefe do projeto de raposas do Parque Nacional das Ilhas do Canal, tira apontamentos, enquanto a bióloga Juliann Schamel verifica se uma raposa tem carraças e avalia a sua condição corporal. A máscara ajuda a acalmar a raposa.

Fotografia de Melissa Groo, National Geographic


O novo trabalho de Lotus era na The Nature Conservancy (TNC), organização sem fins lucrativos de gestão ambiental de terras. Lotus tinha sido contratada para gerir uma das maiores propriedades da organização, 75% da ilha de Santa Cruz, a maior das cinco ilhas do Parque Nacional da Ilhas do Canal, no Sul da Califórnia. Até começar este trabalho, Lotus pensava que as Ilhas do Canal, ou Ilhas Anglo-Normandas, eram uma dependência britânica na costa de França. Mas, de repente, aqui estava ela, encarregada de gerir um lugar quatro vezes maior do que Manhattan.

Mas não se tratava de um sonho californiano. Quando Lotus começou, disse-me que era como entrar numa tempestade. Todos os dias surgiam crises vindas do nada – histórias de paisagens danificadas, estradas esburacadas, sistemas de comunicação que não funcionavam, águias que desapareciam, e estranhas varas de porcos selvagens que comiam e procriavam tão rápido que parecia que tinham saído de um videojogo. E, por alguma razão, os porcos estavam ligados a um problema que envolvia raposas – e tudo isto acontecia num lugar tão grande e tão selvagem que, se alguém se perdesse ali, a única coisa que se iria encontrar seriam ossos.

Como é que Lotus podia melhorar as coisas se nem sequer conseguia perceber o que estava errado? “Eu deitava-me no chão do escritório a pensar: ‘Oh, meu Deus, não sei como é que vou sobreviver a isto.’”

Mas Lotus continuou e tentou aprender tudo o que podia. Uma vez, quando lhe pedi para se descrever, ela disse imediatamente: “Teimosa”. Mais tarde, Lotus pensou sobre o assunto e, como é sempre muito contida com as palavras, escreveu-me um email onde dizia apenas: “Persistente”.

UM DIA, Lotus entrou nos escritórios do Parque Nacional das Ilhas do Canal e ali estava a piloto e especialista em gestão de parques nacionais, Kate Faulkner. Ela tinha vindo do Alasca há 13 anos e agora era a chefe de gestão de recursos naturais do parque. Lotus conheceu-a e pensou, “parece uma mulher calma e racional”. E Kate sentiu que “estava tudo bem”.

Nas semanas seguintes, Kate informou Lotus sobre a tempestade.

Comparadas com o Alasca, disse Kate a Lotus, as ilhas aqui só precisam de algumas reparações. Mas Santa Cruz era uma das piores. As encostas tinham sido devastadas por ovelhas, e os porcos selvagens, que tinham escapado dos agricultores pioneiros há 150 anos, dizimavam toda a diversidade da ilha com os seus focinhos. Santa Cruz não precisava apenas de algumas reparações. Era uma mansão magnífica em ruínas, assombrada por sonhos e oportunidades perdidas, e por sons de decadência.
 

Esquerda: O Aphelocoma californica, pássaro que só se encontra na ilha de Santa Cruz, está entre as muitas espécies que beneficiaram com os esforços de salvação da raposa-das-ilhas, esforços que deram origem a uma recuperação dramática do ecossistema geral da ilha.
Direita: Um emaranhado de galhos de carvalho da ilha estende-se por um trilho de caminhadas muito popular na ilha de Santa Cruz. O carvalho é uma das maiores plantas endémicas da ilha de Santa Cruz.

Fotografia de MELISSA GROO, NATIONAL GEOGRAPHIC


Kate disse a Lotus que, quando chegou ao parque, em 1990, praticamente a única parte do ecossistema de Santa Cruz que parecia saudável eram as raposas.

Lotus tinha conhecimento das raposas. Eram a imagem icónica das ilhas. Eram oficialmente chamadas de raposas-das-ilhas e eram mais pequenas do que quase todas as outras espécies de raposas. Estes animais caçavam à luz do dia, provavelmente porque eram o predador de topo na ilha e não precisavam da cobertura da escuridão. Por isso, os visitantes que aqui vinham, viam-nas com frequência e apaixonavam-se.
 

Estas pequenas raposas são um exemplo do nanismo insular, em que uma espécie evolui para ser mais pequena do que os seus antepassados devido às condições únicas onde vive. As raposas-das-ilhas são geralmente 14% a 18% mais pequenas do que as raposas-cinzentas, suas parentes, que vivem ali perto no continente.

Fotografia de Melissa Groo, National Geographic


Aparentemente, as pessoas adoram as raposas há imenso tempo. Um dos restos mortais humanos mais antigos da América do Norte foi encontrado nestas ilhas, datado de há 13.000 anos. E de acordo com os trabalhos arqueológicos, parece que as raposas já cá estavam. Muitos cientistas acreditam que as raposas evoluíram ligadas às pessoas da ilha. Os arqueólogos encontraram duas caveiras de raposa no túmulo de uma criança, como se fossem companheiros espirituais para guiar a sua alma preciosa.
 

Lotus Vermeer, a antiga gerente da propriedade da The Nature Conservancy, na ilha de Santa Cruz, junto a um arbusto florido de Arctostaphylos, com hectares saudáveis de vegetação natural atrás de si, onde as encostas outrora foram muito danificadas por ovelhas e porcos selvagens.

Fotografia de Melissa Groo, National Geographic

Lotus sabia que as raposas estavam em apuros, mas foi Kate quem lhe falou em detalhe sobre a situação. Alguns anos antes, as raposas tinham começado a desaparecer abruptamente. Nas ilhas, havia milhares de raposas. No ano 2000, numa das ilhas mais pequenas, o número total de raposas caiu para 15. E mesmo nas vastas encostas de Santa Cruz, as estimativas chegaram a atingir as sete dezenas. A imagem icónica e adorada do parque estava a entrar em extinção. E ninguém conseguia descobrir porquê.

Kate diz que a situação parecia uma história de detetives. Os biólogos apanhavam, contavam e testavam as raposas. Cinomose? Não. Dirofilariose? Não. Algum tipo de problema com carraças? Não. Este mistério começou a estender-se ao longo de vários anos. “Morte das Raras Raposas-das-ilhas; Cientistas Perplexos”, dizia o título de um jornal em 1998.

“Estamos em tempos de crise”, disse ao jornal o biólogo Tim Coonan, um dos membros da equipa de Kate.

O parque colocou coleiras com sinais de rádio nas raposas. No espaço de dois meses, metade das raposas com coleiras tinha morrido. Mas os seus corpos revelaram o que um detetive chamaria de modus operandi: As carcaças dos animais tinham sido viradas do avesso. Eram marcas de uma ave de rapina. Mas que tipo de ave? Os falcões não eram grandes o suficiente, e as águias que outrora patrulhavam estes céus tinham desaparecido há décadas.

Tim levou as carcaças para mostrar a um cientista em Los Angeles, que descobriu marcas de garras na pele dos animais. As marcas eram do tamanho das garras de águias-reais, mas estas águias viviam longe dali, no interior da Califórnia.

“Como é que não nos apercebemos de uma coisa desta dimensão?”, perguntou Kate.


Aparentemente, as águias-reais, apesar do seu tamanho, conseguem passar despercebidas. Por exemplo, as águias-americanas comem peixe e carne em decomposição; mas voam a grandes altitudes e são fáceis de avistar. Mas as águias-reais caçam animais terrestres, pelo que são animais naturalmente esquivos, mesmo no céu. Estas águias fazem voos rasteiros e misturam-se facilmente com o ambiente circundante. São aves furtivas.

Mas porque é que só tinham chegado aqui agora?

O motivo principal remontava até ao livro Primavera Silenciosa e aos estudos feitos pelo pai de Lotus no Canadá. As águias-americanas da ilha, que preferem comer peixes em vez de raposas, costumavam afugentar as águias-reais da ilha. Mas os resíduos de pesticida DDT presentes na dieta das águias enfraqueceram as cascas dos seus ovos e, no final dos anos 1960, já tinham acabado com toda a linhagem de águias-americanas nas ilhas.

A proteção aérea das raposas tinha desaparecido. Gradualmente, e de forma furtiva, as águias-reais começaram a instalar-se na região.

Mas as raposas não eram comida suficiente por si só para atrair muitas águias-reais. A fonte alimentar mais abundante eram os leitões.

“As águias instalaram-se na região por causa dos porcos”, disse Tim mais tarde, “mas afetavam tudo o resto”. Uma raposa que caça durante o dia é um alvo fácil.

“Foi quase um momento de desespero”, disse Tim sobre o momento em que viu as marcas das garras. “Foi quando percebi que tudo seria diferente.”

ERA ESTA A HISTÓRIA SOMBRIA onde Lotus estava subitamente envolvida. Os relatórios de Kate, de Tim e de outros ajudaram-na a compreender melhor a situação, mas isso não significava que a tempestade tinha passado.
 

Esquerda: Uma raposa-das-ilhas numa encosta rochosa, perto de plantas em flor devido às chuvas de inverno, na ilha de Santa Cruz. O trabalho de décadas para salvar estas raposas também ajudou a restaurar grande parte da vegetação natural da ilha.
Direita: As pegadas minúsculas de uma raposa, numa das poucas praias arenosas da ilha de Santa Cruz, contam a história impressionante de uma nova abundância para estes animais, depois de uma estreita proximidade com a extinção.

Fotografia de MELISSA GROO, NATIONAL GEOGRAPHIC


Pouco tempo antes de Lotus ter chegado ao parque, a equipa teve de tomar uma decisão difícil. As raposas estavam a desaparecer tão depressa que a equipa se viu obrigada a apanhar muitas delas para as colocar em cercados, para procriarem, de maneira a existirem raposas até a equipa descobrir uma forma de garantir a sua segurança.

Nenhum parque nacional tinha tentado salvar uma espécie através da sua captura. E ninguém sabia se as raposas-das-ilhas iriam procriar em cativeiro.

“São momentos de desespero para um biólogo”, disse Tim, “quando somos obrigados a colocar membros de uma população de animais selvagens em cativeiro, porque estes não conseguem lidar com o ambiente que os rodeia”. Era admitir que tinham fracassado.
 

Uma raposa-das-ilhas, libertada de um exame físico e de vacinação feita pelos biólogos do parque nacional, corre pelo prado em direção à vegetação.

Fotografia de Melissa Groo, National Geographic


Estes esforços já tinham começado no parque quando Lotus chegou, mas agora, ela tinha de construir o centro de reprodução da The Nature Conservancy, um campo cheio de jaulas. Mas assim que começou a lidar com a logística de transportar cercas, postes e construtores ao longo de 32 km de um mar temperamental, Lotus envolveu-se num debate feroz sobre o que fazer se o programa de criação fosse bem-sucedido.

Este debate tentava resolver um problema difícil para o qual ninguém tinha encontrado uma solução: Se criassem demasiadas raposas, e se o parque não fosse seguro para as libertar, não estariam apenas a criar petiscos para as águias?

Os esforços práticos para resolver estes dilemas foram em grande parte chefiados por Kate, em nome do parque, e por Lotus, em nome da TNC. Mas, para se concentrarem em conhecimentos especializados, Tim Coonan reuniu especialistas de dezenas de instituições. Estes especialistas vinham de faculdades, jardins zoológicos, da Instituição Smithsonian e de todo o sistema universitário da Califórnia. Tim denominou este empreendimento de conservação cooperativa.

Em 1999, os especialistas formaram um grupo de trabalho focado nas raposas-das-ilhas, grupo que se começou a reunir uma vez por ano, durante três dias, para analisar a situação de forma intensa e fazer recomendações. Muitas das organizações também forneceram os seus conhecimentos em necessidades específicas, como descobrir uma dieta para as raposas grávidas em cativeiro. O conhecimento diversificado do grupo deu a Kate, a Lotus e a Tim – e aos seus chefes ao longo da hierarquia a nível nacional – a garantia de que as decisões seriam baseadas em boa ciência.

Lotus começou a trabalhar com o grupo assim que chegou ao parque, mas debatia-se com uma das recomendações do grupo: caso fosse necessário, as águias-reais teriam de ser abatidas.

Lotus sabia agora que este trabalho iria testar todas as suas capacidades, incluindo o seu coração. “Não podemos matar as águias”, pensou ela. “De forma alguma!” Mas foi isso que a equipa disse, embora esta noção fosse perturbadora para todos. Matar uma espécie em extinção para salvar outra? Impressionante.

“Para chegarmos a esse ponto”, disse Tim mais tarde, “teríamos de lutar contra toda a natureza da nossa alma”.

Agora, vários administradores de alto nível de organizações governamentais e da TNC queriam encontrar-se e conversar sobre esta terrível opção. Como a TNC possuía grande parte da ilha e tinha edifícios grandes o suficiente para acolher os grupos, Lotus organizou a reunião.

Os especialistas reuniram-se todos numa sala enorme para comer e depois conversar. Tim descreveu o raciocínio do grupo às pessoas com capacidade de decisão, apresentando a difícil imagem da mira de uma espingarda apontada a uma ave. As pessoas com capacidade de decisão reuniram-se noutra sala. “O júri estava a deliberar”, disse Tim.

As janelas da sala onde todos esperavam por uma decisão não deixavam entrar muita luz. Para Lotus, estava demasiado escuro e ela foi para a rua.

Estávamos no fim do dia e as montanhas em torno da propriedade estavam longe o suficiente para fazer o vale parecer espaçoso, mas perto o suficiente para serem imponentes. À luz do sol, até as encostas danificadas pelas ovelhas pareciam douradas. Está escuro lá dentro, pensou Lotus, mas aqui existe luz. Isto é maravilhoso. Vale a pena fazer este trabalho.

     

Lotus regressou para o interior da sala. O júri não demorou muito a deliberar. Não, disseram os administradores. Eles não aprovavam a matança das águias-reais. Houve um suspiro silencioso de alívio na sala. Isto significava que as raposas iriam morrer? Se as outras mentes estivessem a pensar o mesmo que Lotus, isso não iria acontecer. “Isto significava apenas que era necessário encontrar outra alternativa.” Mas era mais fácil falar do que fazer.

O grupo regressou ao continente e Lotus Vermeer parou de tentar encontrar outro emprego. Ela iria fazer tudo o que fosse necessário para fazer este trabalho.

O que se seguiu foi uma espécie de corrida contra as águias. O grupo de trabalho tentaria novas formas de capturar e retirar as águias da região, mas sem efeito. A solução favorita de Lotus surgiu da mente de um biólogo criativo que ela chamou de “ovo injetor”. Um ovo falso iria conter uma agulha tranquilizante, e quando uma águia se sentasse no ovo, um cientista iria pressionar num botão à distância.

Depois de adormecida, a águia iria acordar algumas horas mais tarde noutra parte da Califórnia.

A solução foi testada num ninho que tinha uma câmara operada remotamente, permitindo que todos assistissem ao processo. “A agulha foi ativada”, disse Tim, “mas não resultou, e o ovo começou a rolar pelo ninho com a mãe águia a observar”.

A ideia do ovo injetor foi abandonada.

Eventualmente, encontraram uma solução. Um helicóptero iria seguir uma águia e, quando a ave se cansasse e pousasse, uma rede enorme seria lançada sobre as suas asas, para a manter no chão, e seria levada de helicóptero para longe.

Este processo funcionou. Capturaram 44 águias-reais, nenhuma morreu, e nenhuma regressou a este lugar longínquo.

MAS, PARA LOTUS, isto era apenas o início. Enquanto supervisionava a gestão da ilha, desde a criação de raposas, manutenção das estradas e abastecimentos de combustível, um dos seus momentos mais felizes surgiu como uma espécie de homenagem ao trabalho do seu pai. O grupo de trabalho, preocupado em manter as águias-reais afastadas, recomendou que as águias-americanas regressassem, porque os níveis residuais de DDT eram baixos e agora os ovos seriam mantidos juntos.

O processo de recuperação da águia-americana não foi fácil. “Eu não fazia ideia onde me estava a meter”, disse um dos biólogos ironicamente. “Há muito trabalho arriscado neste processo.” Trabalho que envolvia trazer águias jovens de outros lugares, e às vezes até subir aos ninhos no topo das árvores, e ninguém tinha a certeza se as águias iriam ficar na região. E descobrir uma forma de salvar as raposas passou por uma fase ainda mais difícil.

Os biólogos estimavam que os 250 km quadrados de paisagem acidentada de Santa Cruz eram percorridos por cerca de 3 mil porcos selvagens, e cada porco produzia várias ninhadas de até 10 leitões. A conclusão do grupo de trabalho foi a de que todos os porcos deveriam morrer.

Isto foi quase tão difícil para os biólogos como a decisão de matar as águias.
 

“Será que vamos tomar hoje o tipo de decisões que, daqui a 30 ou 40 anos, os filhos dos nossos filhos vão dizer ainda bem que tomaram aquela decisão?”

por KATE FAULKNER, CHEFE DE RECURSOS NATURAIS, PARQUE NACIONAL DAS ILHAS DO CANAL (APOSENTADA)


“Todos nós adoramos animais”, dizia Lotus aos grupos de cidadãos preocupados, enquanto tentava obter apoios para o plano. “Entrámos neste campo porque temos uma paixão por animais.” Mas os porcos domésticos são criados por humanos há mais de 10 mil anos, sobretudo para se multiplicarem, não para se misturarem com um ecossistema.

E certamente não encaixavam neste ecossistema. Nos 150 anos desde que os porcos tinham escapado dos primeiros agricultores, passaram por horríveis ciclos de ascensão e declínio. No final de cada ascensão populacional, os campos estavam transformados em poeira e milhares de porcos famintos estavam tão fracos que às vezes só se conseguiam arrastar nas pernas dianteiras. Este tipo de morte em massa era mais humano do que serem rapidamente abatidos a tiro?

Mas este tipo de raciocínio não facilitava a aceitação da morte dos animais. Até Kate, que apoiava o plano na sua totalidade, sabia que esta era uma daquelas escolhas angustiantes que ninguém quer fazer, mas às vezes não há alternativa. Não existia nenhum argumento, disse Kate, "que fizesse com que todos escolhessem uma opção em detrimento da outra. Não era assim tão preto no branco."

Tanto o parque como a TNC aprovaram o abate. Sem isso, todos os outros esforços poderiam ter sido em vão. Se os porcos ainda lá estivessem para atrair as águias-reais, as raposas libertadas estariam condenadas. E os porcos eram o último grande obstáculo à evolução. Retirar os porcos deste ecossistema colocaria novamente o mundo natural no seu lugar.

Este argumento não impediu ações judiciais e críticas severas na imprensa de pessoas que se opunham vigorosamente a este assassinato. Um jornal diário publicou fotografias de várias pessoas envolvidas, incluindo Kate, no que chamou “O Salão da Vergonha”. Kate considerou este ataque pessoal e perturbador, mas isso não afetou a sua determinação.

“Eu estava sempre ativa”, disse Lotus. “Vinte e quatro horas por dia.” Lotus conversou com membros da TNC que estavam preocupados com toda esta matança, falou com grupos dos direitos dos animais e levou pessoas para a ilha para verem a devastação em primeira mão. Para ela, tudo se resumia ao olhar as pessoas nos olhos e ao tratamento de forma igual – “relacionando-se a um nível humano básico”.

Entretanto, nos cercados nas encostas por cima das antigas casas das quintas, as raposas estavam a ter as suas crias. Ocasionalmente, Lotus subia as encostas para as verificar. As raposas estavam apenas a dormitar ou a olhar constantemente para os humanos ocupados – eram seres pequenos e calmos no meio da tempestade.

Em março de 2006, um juiz indeferiu o processo judicial, mas Lotus não celebrou. Numa operação complexa e rigorosa, morreram 5.036 porcos. E mesmo depois disso, o trabalho de recuperação ainda era complexo, mas a parte mais difícil tinha terminado: Tinham sido tomadas grandes decisões. O resto resumia-se a fazer o trabalho, e assim o fizeram.

No final, foram necessários 25 anos, 21 milhões de dólares vindos de muitos lados – de doadores privados, de orçamentos de agências e de fundos de mitigação para os danos provocados pelo DDT – e o trabalho de centenas de pessoas com o mesmo tipo de determinação que moviam Lotus, Kate e Tim. Finalmente, em 2016, as raposas foram retiradas da lista de espécies ameaçadas de extinção.

“SE EU LHE DISSER PARA SALTAR”, disse-me Lotus Vermeer, “tem de saltar!”

Estávamos numa velha carrinha de caixa aberta nas íngremes estradas de terra batida de Santa Cruz, e Lotus não sabia se a carrinha iria aguentar na encosta. Estávamos em janeiro de 2020, quase 51 anos depois de eu ter visto a costa escurecida pelo petróleo.

Lotus estava ao volante. Ela agora trabalha para uma universidade, mas ainda colabora extensivamente com a TNC. Kate Faulkner também estava connosco, mas agora está aposentada.

Estávamos rodeados de flores. Os lilases da Califórnia estavam a brotar, flores pequenas que tem tanto pólen que até fiquei surpreendido por não estarem rodeadas de nuvens douradas. E arbustos enormes do género Arctostaphylos, muitos deles com mais de 2 metros largura, estavam completamente em flor, e cada flor tinha um pequeno sino branco que era tão brilhante que parecia que os arbustos estavam a reverberar com a luz.

Ocasionalmente, uma raposa passava por nós a correr, mas o que víamos mais eram pequenos dejetos no meio da estrada, como se estivessem a afirmar: Estou aqui. Isto é meu.

Quando perguntei sobre quais eram os momentos mais memoráveis de toda esta história, Kate e Lotus mencionaram os marcos mais assinaláveis: Quando nasceu a primeira cria de águia-americana, em 2006, mesmo em frente a uma webcam. (Agora existem mais de 20.) E o dia em que a última raposa em cativeiro foi libertada em Santa Cruz, em 2007. Tim Coonan abriu a porta da jaula e havia pessoas importantes por toda a parte, mas a pequena raposa parecia que não se queria ir embora e ficou na sua jaula.

“Foi do género, é agora!”, disse Tim. “Vai, vai! Não te preocupes, vai ficar tudo bem. Escreve quando estiveres instalada!”

Mas a recuperação das raposas nunca foi apenas só sobre raposas. As raposas eram simplesmente um ícone amado que tocava em algo mais subtil, mas grandioso. Tratava-se de um ecossistema inteiro, que tinha acabado de começar a recuperar quando a última raposa em cativeiro foi libertada, e agora estava em plena floração. Não se tratava de regressar a um mundo ideal de um passado imaginário. Este era um novo tipo de mundo onde os humanos, que agora tinham o poder para mudar tudo, estavam a tentar ser mais cooperativos, não apenas entre si, mas também com o mundo que os rodeia.

Lotus conduziu a carrinha até uma inclinação. O vento soprava e uma águia-americana pairava ao longe, com a sua cabeça branca a brilhar contra um mar azul escuro varrido pelo vento. Lotus e Kate estavam sentadas na encosta da colina, entre os trilhos das raposas, com um ninho de águia no topo de uma árvore, ninho que agora está ocupado todos os anos. À distância, ouvi uma delas a dizer: “Lembras-te quando...?”, mas não ouvi o resto. E depois começaram a rir.

Kate ficou filosófica e disse que as raposas tinham sido salvas devido às escolhas feitas pelas pessoas nos anos 1960 e 70, escolhas difíceis que muitas delas não iriam viver para ver os resultados, mas que, desde então, salvaram muitas espécies, vidas e lugares. Havia o caso de Rachel Carson que, apesar dos ataques feitos à sua reputação pela indústria, testemunhou perante o Congresso durante a sua doença terminal. E também a proibição do DDT, a aprovação de leis de proteção ambiental e todos os anos há a lembrança vigorosa e avaliação constantes do Dia da Terra.

“Mas cada geração enfrenta os seus desafios”, disse Kate. “Será que vamos tomar hoje o tipo de decisões que, daqui a 30 ou 40 anos, os filhos dos nossos filhos vão dizer ainda bem que tomaram aquela decisão?”

Naquela tarde, houve outro daqueles grandes momentos da história a acontecer naquele lugar. As duas mulheres que chefiaram muitas destas mudanças não visitavam a ilha há algum tempo. E agora estavam a ver a magnitude das suas ações pela primeira vez; os dejetos de raposa, o pólen dos lilases da Califórnia e a águia a voar. Elas estavam admiradas. Sentaram-se na encosta a sentir o vento fresco do mar e limitaram-se a observar e a ouvir.

Neste ano, a primavera não seria silenciosa em Santa Cruz.

Mais tarde, Lotus Vermeer caminhou por um trilho perto da costa. Ela tinha um raminho de lilases da Califórnia coberto de flores na mão. “Nos meus sonhos mais loucos”, disse Lotus enquanto rodopiava as flores entre os dedos, “nunca conseguiria imaginar que Santa Cruz poderia ser tão, tão... exuberante.”

Mais tarde, Lotus pensou sobre esta palavra. Não era apenas “exuberante”, disse ela no dia seguinte. A palavra correta era “viva”.
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com.

 

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