Muro EUA-México Continua em Expansão, Apesar da Pandemia, Ameaçando Jaguares e Outros Animais

Enquanto o mundo está focado na batalha contra o coronavírus, o governo norte-americano abre caminho para mais 280 km de muro ao longo da fronteira EUA-México, bloqueando faixas de alcance da vida selvagem.

quinta-feira, 9 de abril de 2020,
Por Douglas Main
Fotografias Por Alejandro Prieto
Uma lebre perto do rio San Pedro, no México, na parte sul do muro fronteiriço. Estes ...

Uma lebre perto do rio San Pedro, no México, na parte sul do muro fronteiriço. Estes animais são presas importantes para mamíferos maiores, como pumas e até jaguares, que serão afetados se as novas secções do muro forem construídas.

Fotografia de Alejandro Prieto

A região de Sky Island, que abrange o sul do Arizona e o Novo México, é uma terra de maravilhas naturais e uma das regiões de maior biodiversidade da América do Norte, onde milhares de espécies de animais vivem ao longo da fronteira EUA-México.

Os inúmeros vales, colinas e cadeias montanhosas atuam como passagens que permitem que criaturas como jaguares, ocelotes, ursos-negros, carneiros-selvagens e quatis se movam pela região. Existem aqui centenas de espécies que não se encontram em mais lado nenhum nos EUA, incluindo aves coloridas que dão pelo nome de Trogon elegans, rãs-arborícolas das planícies e cobras Oxybelis aeneus.

Mas enquanto o país está focado no combate à pandemia de coronavírus, o governo de Trump está concentrado na expansão do muro fronteiriço ao longo da região, bloqueando faixas de alcance vitais para a migração dos animais. Em março, o Departamento de Segurança Interna dos EUA abriu caminho para construir mais de 280 km de muro, grande parte em terrenos remotos e montanhosos.

Uma vista aérea captada em 2019 do Refúgio Nacional de Vida Selvagem de San Bernardino. As vedações com uma estrada à esquerda, ao longo da fronteira EUA-México, foram amplamente substituídas por uma barreira de 9 metros que obstrui o movimento de animais selvagens. Os empreiteiros retiraram enormes quantidades de água do aquífero da região, afetando as espécies de peixes ameaçadas de extinção que aqui vivem.

Fotografia de Alejandro Prieto

“Construir este muro no coração de Sky Island vai cortar os caminhos que a vida selvagem usa para se movimentar”, diz Louise Misztal, diretora executiva da Sky Island Alliance, um grupo ambientalista apartidário do Arizona.

Para começar a construção das novas secções de muro, possivelmente dentro de semanas ou meses, o Departamento de Segurança Interna concedeu, no dia 16 de março, isenções que permitem às equipas de construção o incumprimento de 37 leis diferentes, incluindo a Lei de Espécies Ameaçadas.

O porta-voz da Alfândega e Proteção de Fronteiras (CBP), Matthew Dyman, diz que, “embora o Departamento de Segurança Interna tenha emitido isenções de leis ambientais para estes projetos, para garantir a construção acelerada do muro, a CBP continua comprometida com a proteção dos importantes recursos culturais e naturais do país”. Para além disso, diz Dyman, “o departamento realiza pesquisas ambientais sobre cada área do projeto para (identificar) qualquer espécie em perigo ou ameaçada de extinção, e outras plantas e animais selvagens sensíveis que possam estar presentes”.

Entretanto, os ambientalistas levantaram questões preocupantes sobre o desenvolvimento continuado do muro fronteiriço nestes terrenos públicos, mas os grupos de vigilância, os cidadãos e jornalistas estão fechados em casa devido à pandemia de coronavírus. Mesmo quando muitas empresas estão a encerrar e os trabalhadores deviam ficar em casa, a construção dos muros não foi interrompida e os períodos de revisão dos projetos ambientalmente mais sensíveis não estão a ser adiados ou prolongados, incluindo as concessões petrolíferas nos terrenos federais.

A pandemia pode ter outras consequências ambientais; no dia 26 de março, a Agência de Proteção Ambiental anunciou que iria enfraquecer temporariamente as regras ambientais para ajudar as empresas. E apesar do coronavírus, os funcionários do governo federal apressaram-se em concluir uma reversão dos padrões de eficiência combustível automóvel da era Obama.

Esquerda: Um guaxinim perto do rio San Pedro, um dos maiores rios sem barragens do sudoeste americano. Esta área ribeirinha de vital importância pode ser afetada por um muro fronteiriço que tem a sua construção planeada ao longo do rio.
Direita: Um jovem puma a atravessar uma barreira para veículos perto do Refúgio Nacional de Vida Selvagem de San Bernardino. Estas cercas são permeáveis para os pumas; mas o novo muro, que é bastante mais alto, é intransponível.

Fotografia de ALEJANDRO PRIETO

Randy Serraglio, especialista em felinos selvagens e conservacionista do Centro de Diversidade Biológica, um grupo ambiental sem fins lucrativos, diz que a construção ininterrupta do muro é “ultrajante”, pois os recursos federais gastos aqui poderiam ser mais bem aplicados no combate ao coronavírus. Para além das secções recém-aprovadas, mais de 160 km de muro estão em construção noutras regiões do Arizona, inclusive em áreas naturais como o Monumento Nacional de Organ Pipe Cactus.

‘Desastre ecológico’
“É um desastre ecológico em construção para os jaguares e para as outras espécies que precisam de atravessar a fronteira para sobreviver”, diz Misztal. Embora a população reprodutora de jaguares esteja no norte de Sonora, no México, os felinos costumam andar regularmente a norte da fronteira, nos EUA, onde as suas populações já foram mais vastas.

Uma vista aérea da construção do muro, no Monumento Nacional de Organ Pipe Cactus, captada do lado mexicano da fronteira em novembro de 2019. O Departamento de Segurança Interna revogou dezenas de leis ambientais para permitir a construção deste muro, incluindo a Lei de Espécies Ameaçadas.

Fotografia de Alejandro Prieto

O Departamento de Segurança Interna dos EUA, que supervisiona a CBP e a Patrulha Fronteiriça, concedeu as isenções no início de março para construir cerca de 20 secções de muro nos dois estados, incluindo mais de 140 km no Arizona, que representa 25% da fronteira. Este trabalho, financiado pelos contribuintes norte-americanos, vai custar mais de 3 mil milhões de dólares e será executado por empreiteiros que trabalham com o Corpo de Engenheiros do Exército e o Departamento de Defesa. Os fundos foram desviados do orçamento do Pentágono depois da controversa decisão do presidente Donald Trump, em fevereiro de 2019, quando declarou uma emergência nacional sobre a segurança fronteiriça.

Normalmente, um empreendimento desta envergadura exigiria vários estudos ambientais e o cumprimento de leis, como a Lei Nacional de Política Ambiental, mas ao abrigo da Lei Real ID de 2005, o chefe do Departamento de Segurança Interna pode renunciar a quaisquer leis para construir o muro.

Esta fotografia de 2013 mostra um jaguar conhecido por ‘El Jefe’. Este felino viveu nas montanhas de Santa Rita, no Arizona, não muito longe de Tucson, durante vários anos.

Fotografia de UA/USFWS

Questionado sobre o impacto ambiental do muro fronteiriço, Dyman diz que “a CBP atua em coordenação com o Serviço de Pesca e Vida Selvagem para abordar especificamente os possíveis impactos nos jaguares, e que planeia incorporar algumas passagens no muro para a vida selvagem”. Um total de 40 locais de passagem para pequenos animais “foram identificados ao longo da fronteira dentro do Monumento Nacional de Organ Pipe Cactus e... ao longo da fronteira leste de Douglas, no Arizona”. Contudo, o muro estará ladeado por estradas e luzes intensas em algumas áreas, podendo dissuadir os animais de atravessar.

Jaguares em perigo
Os novos segmentos de muro consistem em vedações de 9 metros de altura, feitas de vigas de aço, com aberturas de 10 centímetros – demasiado pequenas para muitos dos animais passarem. As vedações também impedem que as aves façam voos rasteiros, incluindo a coruja Glaucidium brasilianum – um animal em perigo de extinção. Construir muros em terrenos acidentados é difícil e dispendioso, e as taxas de passagens ilegais nestas áreas são relativamente baixas, para além de que a região já está equipada com outras tecnologias, incluindo sensores de movimento e sistemas de videovigilância.

Estas regiões montanhosas podem ser árduas para os humanos atravessarem, mas são vitais para a migração dos animais, diz Myles Traphagen, cientista de conservação da Wildlands Network, um grupo ambiental apartidário dedicado à preservação das faixas de alcance de vida selvagem.

“Com o novo muro, a recuperação do jaguar nos Estados Unidos vai bater numa barreira” diz Traphagen.

Em 2014, o Serviço de Pesca e Vida Selvagem designou 3.100 km quadrados de habitat crítico para os jaguares no Arizona e no Novo México. São terrenos considerados cruciais para a recuperação da espécie no país e os cientistas concordam que grande parte das terras altas da região conseguem suportar os animais. Antes de os colonos europeus chegarem ao continente, os felinos tinham uma faixa de alcance que ia muito mais para norte, chegando até ao Grand Canyon.

Os oito jaguares avistados no Arizona e no Novo México desde 1996 são presumivelmente machos. Estes animais percorrem grandes distâncias à procura de alimentos e de parceiras para acasalar. A última fêmea confirmada no Arizona foi abatida a tiro em 1963. Agora, as fêmeas de que há conhecimento nas proximidades vivem a norte de Sonora, no México, mas se a sua faixa de alcance fosse protegida, poderiam seguir para norte, para os EUA, e recuperar território antigo.

Uma vista aérea do lado mexicano do muro fronteiriço, a leste de Nogales, com as montanhas da Patagónia no horizonte. O muro recém-aprovado vai estender-se até à cordilheira montanhosa, obstruindo a faixa de alcance dos jaguares e ocelotes.

Fotografia de Alejandro Prieto

O jaguar mais proeminente da região, conhecido por El Jefe, viveu no Arizona entre 2011 e 2015, sobretudo nas montanhas de Santa Rita. Este felino provavelmente atravessou a fronteira nas montanhas da Patagónia ou de Huachuca. Agora, ambas as regiões montanhosas têm áreas delineadas para a construção de muros.

Hoje, os jaguares são raros nos Estados Unidos, mas ainda são uma espécie nativa emblemática: a sua proteção iria ajudar indiretamente muitas outras espécies, uma vez que dependem de vastos trechos de natureza selvagem que têm populações saudáveis de várias espécies de presas, diz Serraglio.

Traphagen diz que está mais preocupado com o impacto do muro nas espécies comuns – veados, porcos selvagens, perus, linces, pumas, ursos e outros animais que atravessam a fronteira à procura de alimentos e de parceiros para acasalar.

“Se eliminarmos estas populações locais e regionais, teremos um efeito dominó”, diz Traphagen. “Podemos assistir ao colapso da integridade da comunidade ecológica.”

Apesar da incrível diversidade animal aqui existente, atualmente só há dois estudos feitos com armadilhas fotográficas para investigar quais são os animais que vivem na fronteira: A Sky Island Alliance faz um dos estudos nas montanhas da Patagónia e de Huachuca, e Traphagen faz o outro estudo no Refúgio Nacional de Vida Selvagem de San Bernardino, um deserto de brejos, lar de várias espécies ameaçadas de peixes. Está prevista a construção de muros adicionais em ambas as áreas.

O Centro de Diversidade Biológica e outros grupos processaram judicialmente o Departamento de Segurança Interna, tentando assim travar a capacidade do departamento em revogar quaisquer leis. Mas a construção do muro tem-se revelado imune às ações judiciais, apesar de o Supremo Tribunal poder optar por ouvir este caso na sua sessão atual.

A expansão do muro nestas áreas “só pode fazer mal aos jaguares”, diz Howard Quigley, investigador da Panthera, uma organização dedicada ao estudo e proteção de grandes felinos. “Não é bom para qualquer tipo de vida selvagem. Sempre que fragmentamos populações contíguas, estamos essencialmente a criar uma inclinação íngreme e escorregadia em direção à extinção local... uma morte generalizada.”

 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com.

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