Pangolins Traficados Podem Ser Portadores de Coronavírus Semelhantes aos da Pandemia

Cientistas e defensores dos animais dizem que esta nova investigação é mais um motivo para acabar com o comércio ilegal destes mamíferos escamosos.

Monday, April 6, 2020,
Por Rachael Bale
Novas investigações revelam que os pangolins-malaios, como o que vemos nesta imagem captada no Parque Nacional ...

Novas investigações revelam que os pangolins-malaios, como o que vemos nesta imagem captada no Parque Nacional Cuc Phuong do Vietname, podem ser possíveis hospedeiros de futuros coronavírus.

Fotografia de Suzi Eszterhas, Minden Pictures

De acordo com um estudo publicado no dia 26 de março na Nature, existem evidências de que uma pequena proporção de pangolins pode ser portadora de coronavírus relacionados com a estirpe responsável pela pandemia de COVID-19.

Isto faz dos pangolins os únicos mamíferos, para além dos morcegos, que se sabe estarem infetados pelas vertentes mais próximas do novo coronavírus. Apesar de este trabalho não provar, nem refutar, que os pangolins estão ligados à atual pandemia, indica que podem desempenhar um papel no aparecimento de novos coronavírus.

“Se existe uma mensagem clara que devemos retirar desta crise global é a de que a venda e o consumo de pangolins nos mercados de animais vivos deve ser estritamente proibida para evitar futuras pandemias”, diz Paul Thomson, biólogo de conservação e cofundador da organização sem fins lucrativos Save Pangolins.

De acordo com a Organização Mundial de Saúde, os morcegos são o reservatório mais provável do novo coronavírus, o SARS-CoV-2, mas provavelmente o vírus passou para outra espécie antes de passar para os humanos.

Sabe-se que os pangolins – mamíferos do tamanho de gatos domésticos que estão em perigo de extinção – são animais escamosos que comem formigas e que vivem na Ásia e em África, e que são portadores de coronavírus, escreveu Dan Challender por email. Challender lidera o grupo de especialistas em pangolins da União Internacional para a Conservação da Natureza, a organização que define o estatuto de conservação das espécies. “Portanto, não é de estranhar que estes animais se tenham tornado num foco de investigação para compreender de onde veio o novo coronavírus.”

Estes seis pangolins-malaios foram apreendidos numa propriedade alugada em Guangzhou, na China. Os investigadores dizem que é necessário acabar com o comércio ilegal de pangolins vivos e de carne de pangolim para evitar a propagação de doenças.

Fotografia de Xiao Chibai, Nature Picture Library/Minden Pictures

Apesar de o comércio internacional de todas as oito espécies de pangolins ser estritamente proibido, acredita-se que estes mamíferos sejam os mais traficados no mundo. As escamas de milhares de pangolins são contrabandeadas anualmente para utilização na medicina tradicional chinesa, e a sua carne é considerada uma iguaria por algumas pessoas na China, no Vietname e noutras regiões da Ásia. Mas dado que os coronavírus podem ser transmitidos por determinados fluidos corporais, pelas fezes e pela carne, o comércio de pangolins vivos para consumo é uma preocupação ainda maior na disseminação de doenças do que o contacto com as suas escamas.

Na China, é ilegal comer pangolim, mas a sua carne pode ser encontrada nos menus de muitos restaurantes. Os pangolins também estavam regularmente à venda nos mercados de animais vivos até ao dia 26 de janeiro, quando o receio do novo coronavírus estimulou o governo a encerrar todos estes mercados.

Semelhanças genéticas
O estudo constata que as sequências genéticas de várias estirpes de coronavírus encontradas nos pangolins são 88.5% e 92.4% semelhantes às do novo coronavírus.

Os investigadores começaram com amostras de tecido de 18 pangolins-malaios apreendidos em operações de contrabando em 2017 e 2018, e fizeram testes para a presença de coronavírus. O vírus foi encontrado nas amostras de 5 dos 18 pangolins. Depois, repetiram o processo com amostras de outros pangolins apreendidos e também encontraram coronavírus em alguns desses indivíduos. A sequenciação dos genomas dos vírus foi comparada com o SARS-CoV-2.

Os investigadores, cautelosos nas suas palavras, observam que as semelhanças genómicas “não são suficientes para sugerir” que os pangolins são o hospedeiro intermediário que transmitiu o SARS-CoV-2 dos morcegos para os humanos. Mas também não descartam esta hipótese. Porém, o estudo conclui que os pangolins devem ser considerados possíveis hospedeiros para novos coronavírus.

“O estudo é bem-vindo”, escreveu Challender. “São necessárias mais pesquisas sobre estes vírus nos pangolins, mas é importante que também se investiguem outras espécies que podem ter desempenhado um papel crítico na transmissão do SARS-CoV-2 aos humanos.”
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com.

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