Panteras-da-flórida Filmadas a Lutar Pela Primeira Vez

As lutas territoriais são uma das principais causas de morte das panteras-da-flórida - animais em perigo de extinção - mas até agora nunca tinham sido captadas em vídeo.

Friday, April 24, 2020,
Por Douglas Main
Uma pantera-da-flórida macho na Reserva Estadual de Babcock Ranch. Os machos têm territórios que abrangem até ...

Uma pantera-da-flórida macho na Reserva Estadual de Babcock Ranch. Os machos têm territórios que abrangem até 500 km quadrados e defendem-nos contra outros machos em lutas mortais.

Fotografia de Carlton Ward, Jr.

Pela primeira vez, duas panteras-da-flórida foram filmadas numa luta territorial, no sul da Flórida.

Quando Andrés Pis estava a caçar perus com o seu filho, escondido numa estrutura camuflada, viu um movimento à sua direita. Era uma jovem pantera-da-flórida macho. Assim que começou a filmar com o seu telemóvel, uma pantera macho mais velha “surgiu do nada e atropelou completamente a outra pantera”, diz Pis.

O que se seguiu foi uma batalha feroz, com a pantera mais velha a ganhar vantagem. Depois de lutarem durante quase um minuto, a jovem pantera macho fugiu, embora Pis acredite que a pantera mais velha possa ter matado a outra mais tarde.
 


Pis, guia de caça e gestor de terras, registou o incidente no dia 31 de março em terrenos particulares a sudoeste do lago Okeechobee, perto de Clewiston. Pis publicou as imagens numa página de Facebook que é gerida por si e por Mike Elfenbein – The Panthers of South Florida – onde os dois publicam regularmente fotografias e vídeos de encontros com os grandes felinos.

Esta filmagem sem precedentes mostra um fenómeno chamado agressão intraespecífica, onde duas panteras lutam pelo controlo territorial, muitas vezes até à morte. A seguir aos atropelamentos nas estradas, estes tipos de lutas são a segunda principal causa de mortalidade documentada para as panteras-da-flórida, uma subespécie de puma que o governo federal considera estar em perigo de extinção.

“Nunca tinha visto imagens como estas, e isto ajuda-nos a visualizar o que acontece num encontro agressivo”, diz Darrell Land, líder do programa de panteras-da-flórida da Comissão de Conservação de Peixe e Vida Selvagem da Flórida. “A pantera mais velha parecia estar a dominar, mas a mais pequena estava a resistir consideravelmente.”

David Shindle, coordenador do programa de panteras do Serviço de Pesca e Vida Selvagem dos EUA, diz por email que esta batalha “desenrolou-se em terrenos particulares bem geridos, terrenos que fornecem um habitat ideal para a pantera”. A filmagem é importante, acrescenta, “não só porque oferece uma visão rara da natureza desta fera icónica da Flórida, como também exemplifica a admiração e o respeito que muitos dos caçadores da Flórida têm por estes predadores”.

Desafios enfrentados pelas panteras
Devido maioritariamente à caça e à fragmentação de habitat, as panteras-da-flórida desapareceram quase por completo na década de 1970, chegando a restar menos de vinte indivíduos. Esta população era quase toda consanguínea. Em 1995, foram introduzidos oito pumas fêmea do Texas nesta população para infundir novos genes, cinco dos quais conseguiram procriar com sucesso, antes de serem removidos da natureza. Esta aposta funcionou; desde então, a subespécie aumentou para números que rondam os 200 indivíduos.

Mas os desafios persistem: Estes predadores ainda estão limitados pelo território e pelo número de presas, algo que explica as razões pelas quais se matam frequentemente. Os machos precisam de territórios vastos, mais de 500 km quadrados, oito vezes o tamanho de Manhattan. À medida que o desenvolvimento urbano continua em expansão, com uma média de 900 pessoas a mudarem-se diariamente para o estado da Flórida, é provável que este problema possa piorar – afirmam os especialistas.

Para terem melhores probabilidades de sobrevivência a longo prazo, as panteras-da-flórida precisam de expandir o seu alcance para norte. Em 2016, pela primeira vez desde o início dos anos 1970, uma fêmea foi avistada em Babcock Ranch, a norte do rio Caloosahatchee, rio que anteriormente se pensava impedir a expansão destes animais para norte. Mais tarde, Carlton Ward Jr., fotógrafo da National Geographic, fotografou uma pantera com crias na região.

Ainda assim, o habitat continua limitado. Quando um macho estabelece território, defende-o e tenta matar os outros machos que o invadam.

No vídeo, é possível ouvir o barulho de corvos. Pis explica que os corvos geralmente atacam predadores como panteras e fazem muito ruído quando estes animais estão por perto. No fim da luta, um javali enorme corre em direção às panteras, “talvez para acertar dividendos de um encontro anterior”, diz Pis.

“Por vezes, os javalis são agressivos, e desafiar um dos seus principais predadores pode ser um comportamento normal”, diz Land.

Meredith Budd, representante da Federação de Vida Selvagem da Flórida, uma organização sem fins lucrativos, diz que a distração provocada pelo javali pode ter salvado a vida da pantera mais nova, pelo menos temporariamente.

Controvérsia felina
Apesar de as panteras-da-flórida serem o animal do estado, e embora sejam amadas por muitos, ainda geram alguma controvérsia. Pis e Elfenbein dizem que não gostam de ver o seu acesso negado a alguns dos terrenos federais que estão reservados, em parte, para os grandes felinos – como o Refúgio Nacional de Vida Selvagem de Panteras-da-Flórida e partes da Reserva Nacional de Big Cypress. Estas áreas já estiveram amplamente abertas para a caça de veados, de perus e de outros animais.

Por exemplo, ambos dizem que as agências federais não gerem adequadamente a Reserva de Big Cypress – não fazem o suficiente para sustentar as populações de veados e não fazem queimadas controladas para regenerar a vegetação e remover espécies invasoras.

Outros cientistas e conservacionistas, incluindo o antigo membro do conselho da Federação da Vida Selvagem da Flórida, Franklin Adams, afirmam que a Reserva Nacional de Big Cypress está a fazer um bom trabalho, apesar de ter recursos limitados, como a falta de financiamento para as queimadas controladas, e por estar amarrada por ações judiciais de várias fações concorrentes devido às decisões de gestão.

Mas todos concordam que a pantera-da-flórida pertence àqueles terrenos e, como acontece com muitos outros animais, as panteras estão ameaçadas por problemas sistémicos que incluem o desenvolvimento desenfreado, perturbações na hidrologia provocada pelos canais, drenagens de pântanos, ausência de queimadas controladas para renovar a terra e problemas provocados por plantas e animais invasores, como as cobras pitão-birmanesas.

Em geral, o sucesso das panteras depende de uma rede de zonas para a vida selvagem em todo o estado, zonas que forneçam habitat para muitas outras espécies, como ursos, jacarés, linces e muito mais. Os esforços para ajudar estas panteras também podem potencialmente ajudar toda a vida selvagem, porque as panteras são os animais terrestres com o alcance terrestre mais vasto do estado e precisam de populações saudáveis de presas e de terras protegidas.

“Este vídeo destaca a necessidade de zonas protegidas para a vida selvagem”, diz Budd. “Sem estas zonas para facilitar o movimento, limitamos a quantidade de espaço que os animais precisam para viver, e aumentamos as probabilidades de as panteras se sobreporem.”

 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com.

 

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