Podemos Saber Menos Sobre o ‘Apocalipse Anfíbio’ do que Julgamos

Os cientistas concordam que os anfíbios estão em apuros. Mas os debates sobre os detalhes revelam uma questão maior dentro da comunidade científica.

sexta-feira, 3 de abril de 2020,
Por Jason Bittel
Muitas espécies de anfíbios, incluindo os sapos ‘Dendropsophus ebraccatus’ – retratado nesta fotografia captada na Costa ...

Muitas espécies de anfíbios, incluindo os sapos ‘Dendropsophus ebraccatus’ – retratado nesta fotografia captada na Costa Rica – carecem de dados populacionais robustos, dificultando a determinação do declínio da sua população.

Fotografia de Robin Moore, Nat Geo Image Collection

Em março de 2019, os cientistas fizeram uma descoberta sombria.

Depois de uma compilação de dados recolhidos pelo mundo inteiro, os investigadores descobriram que um fungo assassino, conhecido por quitrídio, tinha provocado o declínio de pelo menos 501 espécies de anfíbios. Pior ainda, 90 das espécies afetadas foram completamente exterminadas – extintas ou atingiram níveis populacionais tão baixos que os cientistas não conseguem encontrar vestígios da sua existência. O quitrídio chegou a ser descrito como o “patógeno mais destrutivo” da biodiversidade de todos os tempos.

A equipa, que incluía 41 cientistas, publicou as suas descobertas na Science. As notícias apareceram em todos os órgãos de comunicação social, incluindo na National Geographic.

Mas no dia 20 de março deste ano, outro grupo de cientistas colocou em questão estas descobertas. No que é conhecido na indústria por comentário técnico, também publicado na Science, os investigadores argumentam que existem muitas lacunas no conjunto de dados do estudo. Para além disso, quando tentaram reproduzir os resultados do estudo com os dados fornecidos, não conseguiram.

Não existem recursos suficientes para monitorizar todas as populações de espécies de anfíbios. Isto significa que existem lacunas no conhecimento dos cientistas sobre algumas espécies, incluindo sobre este sapo ‘Smilisca sordida’.

Fotografia de George Grall, Nat Geo Image Collection

“Quando o primeiro estudo foi publicado, fiquei muito entusiasmado para o ler”, diz Max Lambert, biólogo na Universidade da Califórnia, em Berkeley, e autor principal do comentário técnico. “Na biologia populacional, é extraordinariamente difícil monitorizar o estatuto de uma população, muito menos detetar uma tendência de declínio e, de seguida, conhecer a sua causa exata. Por isso, fiquei realmente muito contente por saber que eles tinham este tipo de dados para tantas espécies.”

Mas quando Lambert abriu os dados, ficou perplexo ao encontrar células em branco em praticamente todo o lado. Para tentar compreender o que estava ver, pediu a colegas e a outros especialistas para darem uma vista de olhos e, numa questão de minutos, “todos encontraram dezenas e dezenas de dados ausentes e problemáticos”, diz Lambert.

“Parecia uma coisa generalizada.”

O processo científico
Não é invulgar os cientistas discordarem entre si. Os debates e as críticas são elementos saudáveis no processo científico. Dentro desse espírito, a Science permitiu aos autores do estudo original fornecerem uma resposta técnica ao comentário, também publicada no dia 20 de março.

Os comentários e respostas técnicas são publicados quando os revisores acreditam que uma discussão mais aprofundada pode ser valiosa para a comunidade, escreveu um porta-voz da Science através de comunicado por email, dizendo também que “não representam uma declaração de erro da revista.”

“Somos bastante claros no nosso estudo original. Muitas destas espécies têm diversas causas para o seu declínio”, diz Ben Scheele, biólogo de conservação na Universidade Nacional Australiana e autor principal do artigo em questão. “Assim sendo, nunca dizemos que o quitrídio é a única causa para o declínio destas 501 espécies. Dizemos apenas que o quitrídio está implicado no declínio destas espécies. E nós temos, creio eu, 454 referências. Portanto, há um enorme corpo de informações que citamos.”

Nas montanhas da Serra Nevada da Califórnia, os sapos estão a morrer devido ao fungo quitrídio.

Fotografia de Joel Sartore, Nat Geo Image Collection

Mas a qualidade das fontes citadas por Scheele e pelos seus coautores também está sob escrutínio. Em muitos dos casos, a única evidência para o declínio ou desaparecimento de uma espécie de sapo ou de salamandra é o testemunho de um especialista. E embora as opiniões dos especialistas sejam claramente essenciais na compreensão científica, não são tão rigorosas como, por exemplo, um estudo detalhado que testa uma hipótese.

Scheele diz que a dependência da opinião de especialistas reside no facto de os cientistas estarem basicamente atrasados no estudo do fungo quitrídio. “Estamos a analisar declínios descritos nos anos 1970, 1980 e até nos anos 1990.”

Por exemplo, a variedade de fungo que infeta maioritariamente sapos, agora conhecida por Batrachochytrium dendrobatidis, só foi descrita em 1998. Para além disso, Scheele acredita que as descobertas feitas pelo seu estudo oferecem “uma estimativa conservadora”. Por outras palavras, Scheele diz que é provável que existam muito mais anfíbios ameaçados do que os documentados por si.

Esta discordância destaca um problema na forma como a ciência é publicada, algo que não é discutido com frequência, diz Jonathan Kolby, Explorador National Geographic e consultor técnico da Convenção sobre o Comércio Internacional de Espécies da Fauna e da Flora Selvagem Ameaçadas de Extinção (CITES) – tratado que regula o comércio transfronteiriço de animais selvagens. Kolby também é um dos coautores de Scheele.

Isto deve-se ao facto de Kolby ter testemunhado pessoalmente muitos dos declínios, mas nem sempre há investigações populacionais feitas a longo prazo que suportem estas observações. Tanto quanto Kolby sabe, atualmente não existem meios de publicação interessados nestes “relatos que não têm dados robustos”, apesar do seu valor óbvio.

“Por exemplo, há um homem que vive na zona central da floresta tropical onde fica a minha zona de observação, no Parque Nacional de Cusuco, nas Honduras”, escreveu Kolby por email. “Este homem viveu ali a vida inteira e agora tem 80 anos. Ele disse-nos que o clima e as espécies desta floresta mudaram muito ao longo da sua vida, e muitos dos sapos que antigamente eram comuns, agora desapareceram. Apesar de estes dados serem imperfeitos, este tipo de observação é importante e não está a ser registada na literatura de anfíbios de maneira uniforme.”

Por que razão é importante
Lambert e os seus coautores não estão a tentar dizer que o fungo quitrídio, que corrói a pele dos anfíbios, não é um problema.

“É definitivamente uma coisa vasta e muito má”, diz Lambert. (Leia sobre os efeitos colaterais do quitrídio nas cobras tropicais.)

Os autores do comentário técnico argumentam que, saber o quão vasta e quão má é a situação, é uma questão crítica para a conservação das espécies de sapos e salamandras que ainda restam. Simplificando, se o financiamento e os esforços forem direcionados para combater o quitrídio num anfíbio que estaria melhor servido se estes esforços se concentrassem em coisas como a perda de habitat, então um diagnóstico incorreto pode prejudicar os esforços de conservação.

“É um pouco como a COVID-19 que estamos a enfrentar”, diz Lambert. “Se formos ao hospital e o médico disser que temos uma gripe, mas na realidade temos COVID-19, então vamos ter problemas.”

Priya Nanjappa, coautora do comentário técnico, diz que a resposta publicada por Scheele dá a sensação de que os investigadores se estão a desviar do cerne da questão, em vez de se focarem nas preocupações sobre a qualidade dos dados.

“Para mim, a questão principal é a seguinte: se formos as únicas pessoas capazes de reproduzir os nossos resultados, então existe um problema com os nossos métodos, dados ou explicações”, diz Nanjappa, diretora de operações da Conservation Science Partners, uma organização de conservação sem fins lucrativos.

“Neste momento, a ciência está debaixo de fogo a nível mundial, sobretudo aqui nos EUA”, diz Nanjappa. “E quando não conseguimos sequer olhar para o nosso próprio trabalho e admitir determinadas falhas, ou pelo menos uma oportunidade para melhorar, não estamos a contribuir para a ciência.”

"O estado lamentável do nosso conhecimento"
Joyce Longcore, micologista que estudou extensivamente o fungo quitrídio, diz que trabalhou com – e que respeita – as pessoas em ambos os lados do debate.

“O uso de evidências concretas e replicáveis na ciência é importante, mas talvez não seja uma coisa tão direta como quando se lida com uma pandemia que já estava no seu auge antes de se ter identificado a causa”, diz Longcore, que não integrou o estudo original nem o comentário técnico.

James Gibbs, biólogo de conservação na Faculdade de Ciências Ambientais e Florestais da Universidade Estadual de Nova Iorque, diz que já se pronunciou sobre controvérsias como esta no mundo dos anfíbios. “Quando o debate reside em torno de comentários e respostas formais, existem méritos de ambos os lados”, diz Gibbs.

Por exemplo, Gibbs diz que o estudo original está “bem analisado e estruturado”, mas a incerteza sobre alguns dos dados também é evidente. O problema real? Existem muitas formas bem estabelecidas pelas quais Scheele e os seus coautores poderiam reconhecer as incertezas, e poderiam incorporar isso de forma mais significativa nas suas estimativas.

Scheele e os seus coautores responderam a este comentário por email e afirmam que fizeram um esforço para lidar com as incertezas. E assim continua o debate sobre os métodos.

“Para mim, este intercâmbio reflete dois grupos de cientistas que tentam lidar com o estado lamentável do nosso conhecimento sobre o estatuto da biodiversidade”, diz Gibbs. “Todos nós sentimos a necessidade de tentar compreender o que está a acontecer com a crise do declínio dos anfíbios, mas existem limites reais para o que sabemos e para o que podemos afirmar.”

 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com.

Continuar a Ler