Como as Feromonas Ajudam as Abelhas-rainha a Governar e os Lémures a ‘Seduzir’

Os sinais químicos transmitidos pelo odor exercem uma influência poderosa sobre o comportamento de muitos animais selvagens.

Thursday, May 28, 2020,
Por Liz Langley
Os lémures-de-cauda-anelada macho emitem um odor sedutor para as fêmeas (na fotografia vemos uma progenitora e ...

Os lémures-de-cauda-anelada macho emitem um odor sedutor para as fêmeas (na fotografia vemos uma progenitora e a sua cria em Anja Park, Madagáscar), um fenómeno chamado “sedução fedorenta”.

Fotografia de Cyril Ruoso, Minden Pictures


Sentada no seu trono, no coração de uma colónia de abelhas, a rainha domina todos os aspetos do seu reino, seja na forma como as obreiras procuram comida, ou como constroem novos favos.

A abelha-rainha consegue este feito extraordinário através de compostos químicos invisíveis chamados feromonas. Quando os súbditos cuidam da rainha, são afetados por moléculas ricas em informação que circulam por toda a colónia.

Enviadas pelo ar, por terra e até pela água, estas comunicações químicas transmitem informações sobre a disponibilidade sexual, sobre o território e sobre quais são os melhores lugares para encontrar comida.

“As feromonas são um sinal que evoluiu do ponto de vista de quem as emite”, diz Tristram Wyatt, zoólogo da Universidade de Oxford, no Reino Unido, que estuda a evolução das feromonas.

Por exemplo, há um composto nas feromonas das abelhas que impede as obreiras de coroarem outra rainha, garantindo assim a governação da monarca.

É um processo diferente do usado pelos mosquitos para rastrear um animal pelo seu odor, já que o animal não está a emitir o odor para o seu próprio benefício, diz Wyatt.

Mamíferos matreiros
Apesar do nosso conhecimento sobre feromonas ter aumentado exponencialmente durante as últimas décadas, os cientistas só identificaram a primeira feromona (bombykol, o odor da traça do bicho-da-seda) em 1959.

O “perfume” da traça fêmea consegue viajar ao longo de quilómetros, chegando eventualmente aos recetores de feromonas nas antenas de um macho. Quando o macho passa por uma bolsa de ar que contém este produto químico, voa para cima e ziguezagueia até chegar a outra bolsa de ar, seguindo o trilho químico até à fêmea.

Os recetores nas antenas de uma traça macho de bicho-da-seda conseguem captar as feromonas da fêmea.

Fotografia de Fabio Pupin, Minden Pictures

As pistas odoríferas também funcionam bem debaixo de água, e os peixes e crustáceos têm sentidos olfativos altamente desenvolvidos para as detetar.

As lagostas-americanas acasalam em tocas privadas, e os machos dominantes transmitem a sua hierarquia através de feromonas na urina, que atraem as fêmeas para o seu covil.

Os mamíferos, por outro lado, têm uma química corporal mais complicada e um conjunto complexo de comportamentos, fazendo com que seja mais difícil avaliar as suas respostas às pistas odoríferas, incluindo as feromonas.

Os cientistas descobriram que algumas espécies domesticadas, como porcos, cães, cavalos, ratos e ratazanas, reagem aos sinais odoríferos e às feromonas. Os neurónios sensoriais que estes animais têm nas profundezas dos seus narizes avisam o sistema límbico do cérebro para atuar – uma parte primitiva do cérebro que regula as emoções e a memória.

Por exemplo, os ratos de laboratório são criaturas sociais e usam feromonas para expressar uma variedade de informações, incluindo o domínio, através de químicos que têm na urina. À medida que os machos ficam mais poderosos dentro do seu grupo, expelem mais proteínas urinárias para assinalar o seu estatuto e, consequentemente, a sua atratividade para as fêmeas.

“Sedução fedorenta”
Alguns cientistas estudaram o efeito das feromonas e as pistas odoríferas em animais selvagens, como nos lémures-de-cauda-anelada de Madagáscar.

Os machos destes primatas esfregam nas suas caudas as secreções das glândulas que têm nos pulsos e nos ombros, emitindo odor para as fêmeas – um processo conhecido por “sedução fedorenta”. A investigadora Christine Drea e os seus colegas na Universidade Duke encontraram 122 compostos distintos nas secreções dos lémures macho.

E investigadores da Universidade de Tóquio adicionaram recentemente novas informações a este perfil odorífero. Encontraram três químicos adicionais, chamados aldeídos, que fazem com que as fêmeas permaneçam mais tempo perto do odor dos machos.

“Estamos surpreendidos porque os odores identificados neste estudo são relativamente agradáveis para os humanos – são frutados e florais”, diz o coautor do estudo, Kazushige Touhara, bioquímico da Universidade de Tóquio.

Para serem consideradas feromonas sexuais, estas pistas têm de afetar apenas os lémures e aumentar as suas probabilidades de acasalamento, diz Touhara. Se for esse o caso, estas seriam as primeiras feromonas sexuais alguma vez identificadas em primatas.

Os humanos têm um bom olfato, mas não existe consenso científico de que tenhamos feromonas sexuais, diz Wyatt. Mas como somos mamíferos, é provável que utilizemos outras comunicações químicas para, por exemplo, detetar e evitar pessoas com infeções ou doenças.

Comportamento hormonal
Num estudo publicado na Hormones and Behavior, os cientistas descobriram que os homens consideravam o cheiro de uma mulher mais atraente quando ela estava a ovular, ou seja, estava mais fértil. Isto acontece porque provavelmente os homens conseguem detetar alterações cíclicas nas hormonas das mulheres, como o aumento de estrogénio.

A bem conhecida hormona testosterona também faz com que muitos animais machos alterem o seu comportamento. Os elefantes africanos macho passam por um período anual de um mês, chamado musth, onde os níveis de testosterona aumentam – isto sinaliza a sua disposição para lutar contra outros machos pelo domínio sobre uma manada.

Um macho nesta fase é mais agressivo e tem mais interesse em acasalar, semelhante a um veado com o cio. Por outro lado, os elefantes macho mais novos libertam um odor durante um mês que cheira a mel, indicando aos outros machos que não são uma ameaça.

Odores relaxantes
As outras funções das feromonas incluem a navegação pelo ambiente, a alimentação dos mais novos e até servem de calmante.

Quando andam à procura de comida, várias espécies de formigas deixam “trilhos de feromonas”, uma espécie de trilho químico para se guiarem até às melhores fontes de alimento.

As crias recém-nascidas de coelho-europeu respondem a uma feromona mamária que é libertada pelas glândulas em torno dos mamilos da mãe, permitindo-lhes encontrar rapidamente os mamilos para mamar. Esta feromona também está presente no leite da mãe.

E talvez ainda não nos tenhamos apercebido de que existem alguns odores secretos a circular pelas nossas casas.

Os gatos domésticos têm glândulas odoríferas nos seus focinhos e esfregam esse odor nos objetos, noutros animais e nas pessoas. Este comportamento tem um efeito calmante nos nossos amigos felinos.

 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com.

Continuar a Ler