Estes Musaranhos Têm a Coluna Vertebral Mais Extrema da Natureza – E Não se Sabe Porquê

Os novos raios-x feitos nos pequenos mamíferos africanos revelam uma coluna interligada e altamente flexível – mas estes resultados só adensam o mistério.

Friday, May 8, 2020,
Por Jason Bittel
Descoberto em 2013, o Scutisorex thori pertence a uma de duas espécies conhecidas de musaranho-herói. O ...

Descoberto em 2013, o Scutisorex thori pertence a uma de duas espécies conhecidas de musaranho-herói. O seu nome é inspirado em Thor, o deus do trovão e da força da mitologia nórdica.

Fotografia de Bill Stanley, Field Museum

Quando o povo Mangbetu da República Democrática do Congo apresentou os cientistas ocidentais a um animal cinzento do tamanho de uma ratazana, contaram histórias de como um homem adulto podia ficar de pé nas costas deste mamífero sem o magoar.

Mas isso foi em 1910 e, desde então, os estudos feitos sobre o animal em questão – que passou a ser chamado musaranho-herói – revelaram alguns fatores que podem explicar estas histórias.

Em 2019, cientistas liderados por Stephanie Smith, especialista em mamíferos e investigadora de pós-doutoramento no Museu de História Natural Field, em Chicago, no Illinois, fizeram raios-x sofisticados a estes musaranhos. Os exames revelam que estas pequenas criaturas têm uma coluna diferente da de qualquer outro animal na Terra.

As suas vértebras têm milhares de pequenas projeções em forma de dedos que permitem que se fixem umas nas outras, e proporcionam uma flexibilidade notável. Imagine um mamífero que consegue comprimir o seu corpo como se fosse uma minhoca, diz Smith.

Para além disso, estas vértebras revelam sinais de serem capazes de suportar forças fora do normal.

“Compreender como é que os pequenos mamíferos conseguem sobreviver ajuda-nos a perceber como é que os grupos modernos conseguiram evoluir”, diz Smith, cujas descobertas foram publicadas no dia 28 de abril na revista Proceedings of the Royal Society B.

A história das vértebras é, de muitas formas, a nossa história. Se regredirmos o suficiente na história da evolução humana, encontramos o nosso próprio antepassado: um mamífero pequeno, parecido com um musaranho, chamado Juramaia sinensis.

Mistério vertebral
Ninguém sabe porque é que o musaranho-herói desenvolveu uma coluna com uma força e flexibilidade descomunais.

Uma das teorias diz que estas adaptações ajudam os animais a abrir as folhas das palmeiras, nas suas florestas da África Central, para comer as suculentas larvas de insetos que contêm. Faz sentido, diz Smith, embora nunca tenham sido documentados a fazer isso.

É muito difícil conseguir estudar estes animais no seu habitat natural. São pequenos e muito nervosos, e grande parte da sua faixa de alcance fica na República Democrática do Congo, país que enfrentou décadas de conflitos armados.

Uma imagem de raio-x do estudo que revela a coluna interligada do musaranho-herói.

Fotografia de John Weinstein, Field Museum

Smith fez a sua investigação no Museu de História Natural Field e estudou 16 espécimes de musaranho-herói de ambas as espécies, e quatro espécimes de um parente de tamanho semelhante, intimamente relacionado, conhecido por musaranho-golias. Os raios-x foram feitos nas instalações PaleoCT da Universidade de Chicago, que normalmente são usadas para estudar pequenos fósseis.

Como não se consegue observar como é que as colunas destes musaranhos os ajudam na natureza, uma forma hipotética de determinar o objetivo desta coluna ultra-forte seria criar uma população de musaranhos em cativeiro e comparar as suas vértebras com as de espécimes selvagens, diz Meir Barak, anatomista da Faculdade de Medicina Veterinária da Universidade de Long Island – Meir não participou no estudo de Smith.

Isto porque os ossos reagem a tensões repetidas e de alta magnitude produzindo mais osso. Os humanos perdem massa óssea durante longos períodos de repouso, e podem acontecer alterações semelhantes nos ossos dos musaranho-herói em cativeiro, e isso poderia oferecer pistas sobre as razões por detrás das colunas dos musaranhos selvagens.

“Um exemplo simples pode ser encontrado na mão esquerda ou direita dos tenistas profissionais”, diz Meir por email. “Na mão com que jogam de forma mais predominante, o córtex dos raios é muito mais espesso devido à repetição de tensões elevadas.”

Coluna vertebral imponente
Meir diz que, apesar de as adaptações do musaranho-herói serem “definitivamente únicas”, existem muitos outros animais cujas estruturas espinais evoluíram de formas dramáticas para tolerar os seus estilos de vida.

Podemos tomar como exemplo a nossa própria coluna. Quando uma pessoa atinge a idade adulta, cinco vértebras na base da coluna fundem-se para formar um suporte, chamado sacro. Esta fusão permanente – que ajuda a suportar a nossa postura vertical – pode ser considerada ainda mais extrema do que as vértebras entrelaçadas do musaranho-herói, diz Meir.

Quase todos os mamíferos têm sete vértebras no pescoço, mas algumas espécies de movimento lento, como as preguiças e os manatins, resistiram a esta tendência e desenvolveram menos ou mais vértebras. Provavelmente porque os seus estilos de vida sedentários exigem menos mobilidade no pescoço.

E depois temos os leões-marinhos.

“Os leões-marinhos têm um pescoço muito porreiro”, diz Danielle Ingle, fisiologista e doutoranda na Universidade Florida Atlantic. “Eles não têm os processos interligados entre as vértebras que normalmente restringem o movimento.” A flexibilidade dos seus pescoços faz com que nadem de forma mais eficaz.

Apesar de ainda estarmos perplexos com o poderio da coluna do musaranho, o povo Mangbetu da Bacia do Congo também estava igualmente intrigado com o animal.

Smith diz que, “pelas outras histórias que contavam, os Mangbetu cremavam os corpos dos musaranhos e levavam-nos consigo para o campo de batalha. Eles acreditavam que assim seriam invencíveis.”
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com.

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