Os Flamingos Fazem Amizades Para a Vida – Como os Humanos

Estas aves procuram amigos com quem se dão bem e evitam os que não gostam – uma estratégia que pode aumentar a sua sobrevivência, diz um novo estudo.

Thursday, May 14, 2020,
Por Virginia Morell
Flamingos-americanos limpam as suas penas à luz do crepúsculo. Os flamingos podem viver até aos 50 ...

Flamingos-americanos limpam as suas penas à luz do crepúsculo. Os flamingos podem viver até aos 50 anos.

Fotografia de Klaus Nigge, Nat Geo Image Collection

Os flamingos são conhecidos pelas suas pernas e pescoços compridos e penas cor-de-rosa. Agora, pela primeira vez, os cientistas descobriram que estas aves formam amizades duradouras e leais – e que os traços físicos podem desempenhar um papel nestes laços.

As parcerias duradouras entre flamingos incluem casais que constroem ninhos e criam as suas proles em conjunto todos os anos, para além de amigos do mesmo sexo e grupos de três a seis amigos mais íntimos.

Existem seis espécies de flamingos que habitam lagos salinos ou alcalinos, lodaçais e lagoas de pouca profundidade – nas Américas, em África, na Europa e na Ásia. Estes pássaros altamente gregários costumam viajar em bandos com milhares de indivíduos.

O líder do estudo, Paul Rose, ecologista comportamental da Universidade de Exeter, no Reino Unido, queria descobrir se os flamingos formam laços complexos dentro dos seus enormes grupos.

Entre 2012 e 2016, Paul recolheu dados sobre quatro bandos de flamingos em cativeiro – flamingos-americanos, chilenos, andinos e flamingos-menores – no Centro Wildfowl & Wetlands Slimbridge, em Gloucestershire, Inglaterra. Os bandos, que variam em número entre os 20 e os mais de 140 indivíduos, são considerados semelhantes em estrutura e comportamento aos bandos selvagens.

Com a recolha de dados feita ao longo de um período de cinco anos, Paul observou que os flamingos mantêm seletivamente amizades estáveis, caracterizadas principalmente pela proximidade. É possível que estes vínculos durem décadas, dado que os flamingos podem viver até aos 50 anos.

“O facto de viverem tanto tempo sugere que estas relações são importantes para a sobrevivência na natureza.”

Como acontece com os humanos, outra espécie altamente social, estas aves evitam cuidadosamente determinados indivíduos. Paul diz que este distanciamento pode servir para evitar situações de confronto: “Uma forma de reduzir o stress e as lutas é evitar os pássaros com quem não se dão bem.”

Compreender os laços sociais destas aves pode ajudar os conservacionistas a gerir melhor os flamingos em cativeiro e os selvagens – quatro das espécies estão a diminuir em número, diz Paul.


Amizade aviária
Para a sua investigação, Paul Rose fotografou os bandos de aves nas zonas pantanosas do centro todos os dias, em quatro horários pré-estabelecidos, durante a primavera e o verão, e três vezes durante o outono e o inverno. E também fotografou aves que se posicionavam juntas em subgrupos distintos ao longo de cada bando. Todos os pássaros têm anilhas nas pernas, facilitando a sua identificação individual.

Uma colónia de flamingos é uma amálgama ruidosa e movimentada de pássaros, com uns a cuidarem das suas penas e outros envolvidos em lutas. Quando uma ave se aproxima demasiado de outra, ambas usam o seu pescoço comprido e bico maciço para atacar, e muitas vezes ficam exaustas a tentar demonstrar quem tem o pescoço mais comprido.

Consequentemente, Paul definiu o comprimento do pescoço como uma forma de medida para a amizade entre flamingos: os pássaros sentados ou em pé, “a menos de um pescoço de distância de outro pássaro”, eram considerados amigos. Quando outros flamingos estavam por perto, mas com uma distância superior a um pescoço, Paul marcou-os como pertencendo a subgrupos diferentes.

E descobriu que os bandos maiores tinham o número mais elevado e variado de interações sociais, com redes sociais complexas compostas por subgrupos de dois, três ou seis membros.

Alguns flamingos demonstraram amizades consistentes ao longo dos cinco anos de investigação e Paul diz que até conseguia prever facilmente quais estariam juntos.

“Havia duas fêmeas mais velhas, com uma ligação muito forte, que faziam de tudo, desde exibições de cortejo até à construção dos ninhos, e tinham sempre a companhia de um macho 20 anos mais novo”, diz Paul. O seu estudo foi publicado na edição de junho da revista Behavioral Processes.

“É um estudo interessante e é bom ver dados sobre os laços criados pelos flamingos a longo prazo”, disse por email Karl Berg, ornitólogo da Universidade do Texas Rio Grande Valley, em Brownsville. “Estes pássaros são famosos [entre os observadores] pelas suas ligações, mas são pouco estudados.”

Jerry Lorenz, ecologista de zonas húmidas da organização Audubon Florida, em Miami, disse que é “interessante ver que os vínculos de pares não sexuais também podem ser documentados e quantificados”.


Coisas em comum
Relativamente à forma como os flamingos escolhem os seus amigos, Paul suspeita que a personalidade e a cor podem desempenhar um papel importante.

“Parece estar mais relacionado com encontrar alguém com uma personalidade semelhante, alguém com quem não entram em conflito”, diz Paul. “Os bandos são barulhentos e agitados, e provavelmente os flamingos não precisam de mais stress. Ter um amigo é bom para o seu bem-estar.”

Paul também observou que alguns dos pássaros com tons cor-de-rosa mais brilhantes ficavam juntos. E outro estudo já demonstrou que os flamingos-comuns, a mais pálida das espécies, conseguem fazer com que as suas penas fiquem com um tom rosado mais brilhante – tornando-os potencialmente mais desejáveis enquanto amigos e companheiros.

Como as amizades são tão importantes para os flamingos, Paul enfatiza que os tratadores de bandos de flamingos em cativeiro, em jardins zoológicos por exemplo, devem “ter cuidado para não separar os flamingos que estão intimamente relacionados”.

“Estes bandos devem conter o maior número possível de aves para garantir um bom estado de saúde. Quanto maior for o grupo, maiores são as probabilidades de os flamingos com diferentes tipos de personalidade encontrarem um amigo compatível para conviver.”

 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com.

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